Guarnieri mostra Liuba Wolf de 1965

Guarnieri mostra Liuba Wolf de 1965

Exposição traz conjunto de esculturas que marcou a mudança na obra da artista da figuração para uma "quase abstração"

A exposição na Galeria Marcelo Guarnieri revisita pela primeira vez a obra de Liuba Wolf (1923-2005) depois da exibição de esculturas da artista no Rio de Janeiro em 1965. São 14 esculturas com curadoria da historiadora da arte Maria Alice Milliet. Há cinquenta e um anos, enquanto era inaugurado o Parque do Flamengo dentro das comemorações do quarto centenário da cidade, o conjunto de esculturas na exposição do MAM Rio marcava a mudança na obra da artista, que da figuração passou a explorar uma “quase abstração”, tendo a figura do animal como forte referência. “Para mim, eles são animais. Mas eu não posso explicar de onde eles vêm, deve ser do meu subconsciente. Suas formas, mesmo que reconhecíveis, são de fato uma simbiose entre vegetal e animal”, disse a artista a Sam Hunter para o livro Liuba: At the Edge of Abstraction. Na Galeria Marcelo Guarnieri, a montagem da exposição seguiu a mesma forma como foram expostas originalmente: dispostas em bases e muros baixos formados por blocos de cimento.

A artista

Liuba nasceu na Bulgária, teve obra reconhecida em âmbito internacional, com importantes mostras no Brasil e no exterior. Casou-se com Ernesto Wolf em 1958 no Brasil. Viveu entre Paris e São Paulo. A partir de 1989, estabelece ateliê também na Suíça. Faleceu em São Paulo em 2005. Liuba participou de quatro Bienais Internacionais de São Paulo (1963, 1965, 1967 e 1973), realizou uma grande exposição individual no Hakone Open Air Museum, no Japão, em 1985. Hoje, as obras de Liuba integram importantes coleções privadas no Brasil, Argentina, Canadá, Inglaterra, França, Alemanha, Japão, Suíça e Estados Unidos.

Segundo a curadora da mostra, Maria Alice Milliet, a produção escultórica de Liuba teve influências na Escultura Moderna, como explica no texto de apresentação da exposição que reproduzimos a seguir na íntegra. 

Texto de Maria Alice Milliet: Liuba no Rio de Janeiro

“1965. Nesse ano foi inaugurado o parque do Flamengo no contexto das comemorações do IV Centenário do Rio de Janeiro. Construído sobre aterros sucessivos na baía de Guanabara, abrigando pistas de alta velocidade, passarelas elegantes e equipamentos desportivos e culturais abertos à população, o parque, com a implantação do projeto paisagístico de Burle Marx, se tornou referência internacional pela beleza e exuberância de sua vegetação. Seu traçado urbanístico foi concebido pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy, também responsável pelo desenho de alguns dos monumentos situados ao longo da orla marítima. Dentre eles, um se tornou emblemático da arquitetura racionalista de meados do século XX: o Museu de Arte Moderna. Localizado numa das extremidades do aterro, o edifício em concreto armado funciona como pórtico de acesso à imensa área ajardinada.

Foi nesse cenário grandioso que as esculturas de Liuba vieram se instalar quando de sua exposição individual no MAM-RJ, há cinquenta anos. As obras, dispostas em bases e muros baixos formados por blocos de cimento, foram locadas no pavimento térreo, sob a cobertura e ao longo da lateral externa do prédio de modo a dialogar tanto com a arquitetura do museu como com a área verde ao seu redor. O registro fotográfico da mostra, publicado no livro Liuba: At the Edge of Abstraction[1], revela a intensidade das relações formais estabelecidas entre o conjunto escultórico e o entorno, seja natural, seja construído. A sinergia entre os modos de expressão – arquitetura, paisagismo e escultura – advém da afinidade de propósitos dos autores envolvidos, todos empenhados em participar ativamente do espaço urbano no âmbito da modernidade.

“Tenho estado particularmente interessada na ligação entre escultura e arquitetura”[2], declarou Liuba, no mesmo ano da mostra no Rio de Janeiro. Como se pode ver nas fotografias de época, a concisão formal de sua obra escultórica encontra eco no rigor construtivo da arquitetura de Reidy. Mais que isso, é notável a correspondência entre as formas angulosas, até mesmo agressivas, dos bronzes, e a estrutura do museu, composta por 14 pilares em V alinhados como se fossem as vértebras de um esqueleto gigantesco: na arquitetura assim como na escultura, a tensão gerada pela dinâmica das formas permanece sob controle.

O biomorfismo severo, quase abstrato do repertório escultórico de Liuba provém da transfiguração dos mundos animal e vegetal. “Minha expressão pessoal se inspira em toda sorte de formas naturais.”[3] A relação com a natureza se torna mais evidente quando as esculturas são instaladas ao ar livre. Foi o que aconteceu na área ajardinada junto ao MAM, cujos canteiros preenchidos por seixos gigantes e plantas exóticas, como queria Burle Marx, tão bem acolheram aquelas criaturas em bronze. Nenhum estranhamento. Ao contrário, as esculturas parecem ter encontrado seu hábitat.

A ampla interação que acabamos de descrever ilustra o momento de maturidade bem-sucedida a que chegou o modernismo brasileiro em meados do século XX. A obra de Liuba teve no Rio a oportunidade de integrar, ainda que momentaneamente, um dos mais ousados projetos urbanísticos do pós-guerra. Ali, a artista pôde dar sua contribuição, ali se sentiu em casa.

Para Liuba, esse sentimento de pertencimento foi sempre uma questão em aberto. Nascida em Sofia, na Bulgária, em 1923, se tornou cidadã brasileira três décadas depois. Na juventude, vivendo num meio culto e burguês, pôde se dedicar a estudos de literatura e música. Porém, no começo da Segunda Guerra, a ocupação do seu país pelos soviéticos determinou a mudança da família para Genebra. Na Suíça, Liuba encontrou sua vocação. Conheceu Germaine Richier, renomada escultora da Escola de Paris, com quem trabalhou de 1943 a 1949 nos estúdios de Zurique e Paris. Com ela aprendeu tudo sobre a técnica tradicional de escultura em bronze: modelagem do original em argila, contramolde em gesso, fundição em cera perdida, pátinas. A década de 1950 foi para Liuba um período de afirmação. Estabeleceu seu próprio ateliê em Paris e fez inúmeras viagens pela Europa, Estados Unidos, norte da África e América do Sul. Finalmente, montou um estúdio em São Paulo, onde seus pais já residiam. Seu processo de emancipação chegara ao fim. Desde 1957 estava em busca de uma linguagem própria. Nesse ano, realizou um Nu de grande porte, prenúncio de uma linguagem pessoal, inconfundível. Em 1958, conheceu o empresário Ernesto Wolf, com quem se casou. 

O casal passaria a residir parte do ano em Paris, o que lhes permitiu um permanente contato com a arte internacional. Ao mesmo tempo, o interesse por civilizações desparecidas e pela arte tribal levou-os a visitar locais onde os vestígios de culturas ancestrais ainda podiam ser apreciados. Acabaram por reunir requintadacoleção de arte africana. A década de 1960 foi de grande atividade para ela. A artista participou de importantes coletivas, tais como a Bienal de São Paulo (1963, 1965 e 1967), o Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1962-1963) e o Salon de la Jeune Sculpture de Paris (1964-1979). Assim, a mostra individual no MAM-RJ ocorreu na esteira de um crescente reconhecimento da artista.

Sua plástica, ancorada na tradição da escultura moderna na linha de Brancusi e Giacometti, se alimenta, simultaneamente, da simplificação formal introduzida pelo cubismo e da arte de culturas exóticas. Como se sabe, essas duas vertentes estiveram associadas às vanguardas artísticas que no início do século romperam com as convenções da academia. A produção escultórica de Liuba bebeu nessas fontes, chegando à maturidade durante o alto modernismo, período em que a estética moderna ganhou alcance internacional.

Apesar de usufruir da aceitação que a linguagem moderna havia alcançado, a obra de Liuba não deixa de ser inquietante.  Em muitas de suas criações – um bestiário de seres híbridos, alguns semelhantes a pássaros –, os membros retesados, as torsões vigorosas e a boca escancarada dos animais são indícios de violência. Expressões de terror e agressividade semelhantes aparecem na cabeça de cavalo, figura central da tragédia de Guernica (1937) pintada por Pablo Picasso, ou nas Irínias (fúrias vingativas), três estudos que Francis Bacon pintou para a base do painel da Crucificação (1945). O sentido trágico dessas representações nos remete à angústia do mundo contemporâneo.”

[1] HUNTER, Sam. Liuba: at the edge of abstraction. Nova York: Rizzoli, 2001.  

[2] Entrevista com Liuba. Chefs d’oeuvre de l’art, n. 105, 1965.

[3] Idem.

 "Liuba"
Término em 21 de janeiro
Galeria Marcelo Guarnieri, Rio de Janeiro

 

 

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