A forte expressividade das cores no conjunto de obras de Lasar Segall

A forte expressividade das cores no conjunto de obras de Lasar Segall

Exposição planejada a partir das escolhas cromáticas de Segall mostra 87 pinturas, seis desenhos e uma escultura

Com seleção de obras provenientes de acervo do Museu Lasar Segall e de coleções particulares e de outras instituições - Pinacoteca do Estado de São Paulo, MASP, Instituto de Estudos Brasileiros (USP), Fundação Edson Queiroz, Fundação José e Paulina Nemirovsky - a exposição “Lasar Segall: ensaio sobre a cor” tem curadoria assinada por Maria Alice Milliet, historiadora de arte. Ela priorizou o uso da cor na produção do artista, através de estudo detalhado de suas paletas preferidas na Pintura. “Em geral, nós temos uma relação sensível com a cor e ela nos chega pelo emocional”, diz Milliet. Além das obras, a mostra também apresenta fotografias, documentos e informações pessoais do artista lituano que chegou ao Brasil em 1912, carregando bagagem expressionista adquirida em estudos na Alemanha. Na reprodução acima, “Pogrom”, 1937.

Para retratar sofrimento e desesperança, o artista usou cores rebaixadas: Lasar Segall, Emigrantes III, 1936

Para retratar sofrimento e desesperança, o artista usou cores rebaixadas: Lasar Segall, Emigrantes III, 1936

Espaço integrado

Esta mostra tem desenho assinado por Pedro Mendes da Rocha – arquiteto que também projetou a última grande exposição de Segall, há dez anos, na Galeria SESI-FIESP. As obras estão postas de forma integrada no generoso espaço de pelo menos 1.300 metros quadrados. São quatro núcleos cronológicos: Angústia: a cor emoção; Sob o signo dos trópicos: a paleta nacional; Compaixão: a não cor; e Introspecção: a “cor Segall”. O público é abraçado em um diálogo entre as obras e a região central da cidade de São Paulo onde a presença de Segall foi muito significativa. Segundo a curadora, “está no lugar de encontro de povos refugiados e das mais diversas origens, como africanos, coreanos, paraguaios e bolivianos. Nesse contexto, a exposição mostra a atualidade da arte de Lasar Segall, um pintor que retratou o drama de populações desterradas”.

Lasar Segall, Família Enferma, 1920

Lasar Segall, Família Enferma, 1920

Quatro núcleos

No primeiro núcleo “Angústia: a cor emoção” da exposição, “a exacerbação de sentimentos se manifesta no desenho anguloso das figuras e no uso de cores intensas e contrastantes”, diz a curadora. Destaque para os flagelos migratórios que surgem na obra de Segall, entre 1910 e 1923. E para dialogar com este núcleo, a curadora escolheu O Homem Amarelo, de Anita Malfatti, de 1915/16, do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. 

O segundo núcleo, “Sob o Signo dos Trópicos: a paleta nacional”, aborda o período entre 1924 e 1935. “É o mergulho nacional do artista no Modernismo brasileiro. Sob a luz tropical, sua pintura ganha uma nova intensidade, em que sobressaem os vermelhos, os ocres terrosos e o verde exuberante da vegetação”, resume Milliet. O destaque deste núcleo é a obra Bananal (1927), que remete ao continente africano. Para dialogar com essa fase de Segall, a curadora selecionou O Sapo, de 1928, de Tarsila do Amaral. A obra pertence ao acervo do Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado.

O terceiro núcleo “Compaixão: a não cor” registra o drama da Segunda Guerra Mundial e o deslocamento das populações marginalizadas. Nas obras, entre as décadas de 1930 e 1940, de tons ocres, acinzentados, pretos e verdes rebaixados estão traduzidos sofrimento e desesperança. “É de gente que essa pintura trata, gente sem nome e sem lugar”, observa Maria Alice. Nesse núcleo, o público vê as pinturas Emigrantes III (1936), Pogrom (1937) e Guerra (1942). Nesse contexto, quem dialoga com Segall é Portinari. Milliet escolheu Retirantes, de 1936. “Como Segall, ele retratou o drama dos que vagueiam buscando um lugar, embora os dois sejam comentados como rivais, têm muito em comum. A arte de ambos traz o humano e retrata a luta, a dor e a coragem”, explica a curadora.

Segall e Jenny em Poços de Caldas, abril de 1925: parte das lembranças do pintor

Segall e Jenny em Poços de Caldas, abril de 1925: parte das lembranças do pintor

No quarto núcleo, Introspecção: a “cor Segall”, estão as obras produzidas entre 1940 e 1957, que englobam lugares que deixaram lembranças revisitadas pelo artistas, como a cidade natal na Lituânia, as montanhas de Campos de Jordão. Aí ele usa tons sutis, remetendo-nos à delicadeza desse tempo introspectivo, vivido intensamente. “Há matas, animais, cabanas, um lugar mítico do folclore da Europa, construídos com uma paleta sofisticada. Nessas obras permanecem os tons baixos, azuis, verdes e amarelos, cores tão requintadas quanto a pátina que recobre os troncos úmidos das árvores no interior da mata”, comenta a curadora. No período que antecede a sua morte, em 2 de agosto de 1957, o artista passa a registrar o cotidiano das favelas, na tentativa de mostrar a dura realidade social. Maria Alice Milliet escolhe uma obra de Milton Dacosta, Composição (1955), de uma coleção particular, para dialogar com as obras desse período.

 Circulação intensa

A trajetória de Lasar Segall (1891-1957) foi marcada por idas e vindas Europa-Brasil com uma produção de temas e cores fortes, expressando paixões e sofrimentos dos seres humanos. As esculturas exploram materiais como madeira, pedra e gesso. O saber acumulado permitiu-lhe a liberdade de usar a cor conforme desejava, sem necessariamente retratar a natureza com fidelidade, e, assim, influenciou a arte brasileira do século XX de forma histórica. Em fins de 1912, Segall chegou em São Paulo para encontrar seus irmãos e foi morar com uma irmã, Luba Segall Klabin. Realizou suas primeiras exposições individuais na capital paulista e em Campinas, marcando aí os primeiros contatos do público brasileiro com a arte expressionista europeia. Depois de conhecer São Paulo e realizar mostras individuais, Segall retornou para a Europa em 1918 e fundou, com um grupo de artistas, o movimento "Secessão de Dresden", em 1919, realizando exposições por vários países europeus. Em 1923, retorna ao Brasil e fixa residência, debruçando-se na Pintura. Criou a decoração do Baile Futurista, no Automóvel Clube de São Paulo, e os murais para o Pavilhão de Arte Moderna, entre outros inúmeros trabalhos. Retorna à Europa. Em 1932, retorna ao Brasil e instala-se em São Paulo na casa projetada pelo arquiteto Gregori Warchavchik, seu concunhado - que hoje abriga o Museu Lasar Segall. Nessa época, funda em São Paulo a Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM). Sua produção na década de 1930 incluiu uma série de paisagens de Campos do Jordão.  Em 1938, destaca-se ao assinar os figurinos para o balé "Sonho de uma Noite de Verão", encenado no Teatro Municipal de São Paulo. Em 1943, o Museu Nacional de Belas Artes realizou retrospectiva de sua obra e foi publicado álbum com textos de Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Jorge de Lima. Em 1951, fez individual no MASP. E, em 1957, antes de morrer, por problemas cardíacos, preparou grande retrospectiva em no Museu Nacional de Arte Moderna, em Paris.

Lasar Segall, o caçula, com pais e irmãos, em 1897, em Vilnius, capital da Lituãnia

Lasar Segall, o caçula, com pais e irmãos, em 1897, em Vilnius, capital da Lituãnia

Museu Lasar Segall

Em 1985, o Museu foi incorporado à Fundação Nacional Pró-Memória, integrou até 2009 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) do Ministério da Cultura , como unidade especial. A partir de 2010, converteu-se em uma das unidades museológicas do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), Ministério da Cultura. Além de seu acervo museológico, o Museu constitui-se como um centro de atividades culturais, oferecendo programas de visitas monitoradas para escolas, cursos e oficinas nas áreas de gravura, fotografia e criação literária, programação de cinema. Abriga a Biblioteca Jenny Klabin Segall, que mantém acervo único nas áreas das Artes do Espetáculo (Cinema, Teatro, Rádio e Televisão, Dança, Ópera e Circo) e de Fotografia. A Biblioteca, ainda, possui a mais completa documentação sobre a vida e a obra de Lasar Segall. Vale conferir as exposições, oficinas, workshops e toda a programação imperdível do Museu, sempre.

Abrigado na antiga residência de Segall, o Museu Lasar Segall é Patrimônio Histórico e Cultural do Brasil

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“Lasar Segall: Ensaio sobre a Cor”

Término dia 5 de março de 2019

Sesc 24 de Maio - SP 

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