A visão singular de Agostinho Batista de Freitas no MASP

A visão singular de Agostinho Batista de Freitas no MASP

“Agostinho Batista de Freitas, São Paulo” apresenta seleção de vistas urbanas da cidade realizadas entre 1950 e 1990

 São 74 trabalhos do artista paulista com curadoria assinada por Fernando Oliva e Rodrigo Moura, curador e curador-adjunto de arte brasileira do Museu, respectivamente. A exposição marca o retorno do artista, desde sua última grande exposição no Masp em 1952. Agostinho Batista de Freitas (1927-1997) transitou especialmente com desenvoltura durante toda a sua trajetória representando seus pontos de vista e enquadramentos. Os curadores realizaram uma ampla pesquisa, localizando mais de 300 trabalhos em cerca de 50 coleções e acervos diferentes, além de raros documentos, fotografias e croquis feitos pelo artista, e agora reproduzidos no catálogo dessa exposição. Batista de Freitas participou da 33a Bienal de Veneza, em 1966, representando o Brasil ao lado de artistas estabelecidos, como Arthur Luiz Piza (1928) e Sergio Camargo (1930-1990). O fato de ele ter mostrado suas obras no MASP (1952), na Bienal de Veneza (1966) e na Pinacoteca do Estado de São Paulo (1990) não parece ter sido decisivo para uma consolidação de sua trajetória institucional no Brasil – o que de fato não aconteceu. Fernando Oliva ressalta que esta questão fez parte das preocupações da curadoria durante a pesquisa que culminou com a exposição: “Na retomada atual que o MASP promove da produção de Batista de Freitas, uma das perguntas decisivas que temos de nos fazer é: como lidar, hoje, com a obra de um artista que, em grande parte por ser considerado um criador da chamada ‘arte popular’, sempre precisou que outros falassem em seu nome? Talvez sejamos obrigados a prosseguir falando por ele, e o dilema se expande para uma nova dúvida: como apresentar esse artista ao público de hoje, de maneira a não reduzir ou trair sua obra?”.

 Um “achado” de Bardi

 Pintor autodidata e eletricista de profissão, Agostinho Batista de Freitas saiu do campo aos 11 anos para viver na cidade. Aos 20, vendia seus trabalhos no centro da cidade onde conheceu Pietro Maria Bardi (1900-1999), então diretor fundador do Masp. Na ocasião, Bardi comissionou uma pintura que retratasse a metrópole vista do topo do icônico prédio do Banespa (Banco do Estado de São Paulo), obra que a seguir exibiria na primeira individual de Batista de Freitas, realizada no Museu, em 1952. Segundo os curadores da exposição, a presença de um nome como o de Batista de Freitas no Masp, desde o passado até os dias de hoje, deve ser entendida, inicialmente, no contexto dos interesses de Pietro e Lina Bo Bardi, que não viam esse tipo de trabalho como algo separado das demais manifestações artísticas. As perspectivas do casal sempre foram marcadas pela tentativa de um entendimento mais profundo e generoso sobre o Brasil, uma vez que ambos viam na chamada ‘arte popular brasileira’ uma experiência ampla, que trazia consigo a possibilidade de libertação das hierarquias rígidas da história da arte e seu sistema. Nesse sentido, a mostra pretende dar visibilidade a Agostinho Batista de Freitas na história da arte brasileira do século 20 como um artista único, de visão singular.

 Uma cidade retratada

 Batista de Freitas produziu inúmeras obras de locais emblemáticos de São Paulo, incluindo o Teatro Municipal, a Catedral da Sé, o Edifício Itália e o próprio Masp. Desse, ele criou diversas pinturas, tanto do prédio quanto de seu entorno, em diferentes ângulos, registrando, por exemplo, as atividades no Vão Livre, que em 1972 foi ocupado pelo Circo Piolin, além dos transeuntes da avenida Paulista. Suas referências vinham tanto da observação direta da paisagem urbana quanto da fotografia, fosse uma imagem de Marcel Gautherot, fotos de publicidade ou cartões-postais vendidos em bancas de jornal – materiais descobertos durante a pesquisa para essa mostra. No percurso da mostra, a relação de Batista de Freitas com a cidade se faz presente mediante os diversos agrupamentos de obras, que vão desde a representação do Masp até as vistas aéreas do centro de São Paulo, passando por cenas do cotidiano na Zona Norte, onde o artista vivia, e situações coletivas de diferentes naturezas, que incluem as viagens, as festas, os divertimentos e as manifestações religiosas.

 Lacuna histórica preenchida

 Instalada em uma expografia da Metro Arquitetos, originalmente projetada por Lina Bo Bardi, que permite um contato direto e aberto dos visitantes com os trabalhos, a obra de Batista de Freitas convida a uma visão ativa sobre São Paulo, com suas complexas dinâmicas urbanas, histórias e diferenças sociais. A mostra apresenta, além de empréstimos de coleções institucionais e particulares, cinco pinturas recentemente doadas ao acervo do Masp – fazendo com que, pela primeira vez, sua obra seja representada na coleção do Museu, corrigindo uma lacuna histórica. São elas: MASP (1971), Circo Piolim no vão do MASP (1972), Edifício São Tomás e Edifício Itália (1975), Grupo escolar (1976) e MASP (1978).

Rodrigo Moura sublinha que a exposição marca um importante posicionamento da atual direção artística do MASP, que deseja problematizar os conceitos de arte erudita e popular por meio de sua programação, com diferentes estratégias. Entre elas, destacam-se a remontagem de uma das mais célebres e polêmicas exposições organizadas pelo Museu, A mão do povo brasileiro, concebida por Lina Bo Bardi (1914-1992), Glauber Rocha (1939-1981) e Martim Gonçalves (1919-1973); a realização de mostras que privilegiam a leitura de temas populares no modernismo canônico brasileiro, como Portinari popular (2016); e a aquisição de obras de artistas marginalizados pela história da arte brasileira, como Djanira da Motta e Silva (1914-1979), Maria Auxiliadora da Silva (1938-1974) e o próprio Batista de Freitas.

 “Agostinho Batista de Freitas, São Paulo”
 Término dia 9 de abril de 2017, às 17h30
 Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo
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