A vulnerabilidade da existência na obra de Marina Saleme

A vulnerabilidade da existência na obra de Marina Saleme

Com duas individuais no Rio de Janeiro, a artista apresenta o resultado de um processo criativo lento e reflexivo

Na Mul.ti.plo, 22 pinturas da série “O Céu que nos Protege” que mesclam, conceitualmente e poeticamente,  os limites da pintura e fotografia. São pinturas sobre fotogravuras que completam, comentam e discutem a realidade. As fotos desta série foram feitas pela artista durante um passeio no Regent Park, em Londres,  onde, num lindo dia de sol, aparece uma enorme nuvem. E a partir destas fotografias, a artista começa a trabalhar com a metáfora da nuvem e do céu. No Paço Imperial, Saleme apresenta 20 obras inéditas, grandes formatos, fotografias e uma videoinstalação. “Uma exposição inédita de uma artista importante na discussão sobre pintura contemporânea no Brasil e que há muito não expõe individualmente em uma instituição pública no Rio de Janeiro”, afirma o crítico de arte Felipe Scovino.

Pintura processo

As pinturas são feitas em camadas, assim como os desenhos e fotografias. Fora do imediatismo, Saleme trabalha formalmente e poeticamente questões sobre o visível e o invisível e a alternância entre eles: o real e o irreal também são temas presentes em seu trabalho, assim como os efeitos dos diversos pontos de vista a respeito da verdade. Em alguns de seus trabalhos, pessoas e paisagens pairam sob um imenso céu, que, por sua imensidão, infinitude e mistério, submete-nos metaforicamente ao incontrolável da condição humana. Na série “O céu que nos protege”, a artista tomou emprestado o título do filme de 1990 de Bernardo Bertolucci.

Mudanças na realidade

Nas fotos, a artista normalmente trabalha em série e as imagens vão se desdobrando – acrescentando ou discutindo o sentido das outras. Na série de fotos “Real”, a realidade é questionada por meio de uma mesma imagem que sofre a cada vez pequenas intervenções, alternando radicalmente a perspectiva da exposição dos elementos. "Repetida à exaustão, essa foto recebeu interferências diversas, como pintura, desenho, durex, fita crepe, etc... comprovando que a mesma imagem pode ser vista sob diversas perspectivas e que cada interferência pode mudar a realidade. Quero provocar uma reflexão sobre o que é de fato Real, a existência de um único ponto de vista, a existência de alguma verdade", explica a artista.

Percurso artístico

Questões que versam sobre a dúvida em relação a figura e a sua real posição no mundo, a vulnerabilidade da existência, presença eprincipalmente ausência de todas as coisas frente ao tempo e espaço são uma constante no trabalho de Marina Saleme. Ela se formou em Artes Plásticas na Faap em 1982 e deu aula de pintura e seus processos criativos durante dez anos no Instituto Tomie Ohtake. A artista trabalha desde então predominantemente com pintura, desenho e fotografia. Destacam-se as exposições individuais e coletivas nos seguintes museus e instituições: MAM-RJ (Rio de Janeiro); Paço Imperial (Rio de Janeiro); Paço das Artes (São Paulo);  Centro Universitário Maria Antônia (São Paulo);  MAM-SP (São Paulo); Palácio das Artes (Belo Horizonte);  Musée d’art contemporain de Baie-Saint-Paul (Québec); Embaixada do Brasil na França (Paris), entre outras. Suas obras estão em coleções públicas e particulares de destaque, como o MAM-RJ (Rio de Janeiro); Coleção Instituto Figueiredo Ferraz (Ribeirão Preto); Instituto Cultural Itaú (São Paulo); MAM-SP (São Paulo); Pinacoteca do Estado de São Paulo; Fundação Padre Anchieta / Metrópolis (São Paulo).

Texto do curador Felipe Scovino

“Revelações e ausências: um ato contínuo

Existem dois procedimentos no trabalho de Marina Saleme que são evidentes nessa exposição e que não necessariamente estão separados ou individualizados. Tais procedimentos se confundem, invadem-se mutualmente, criando um processo investigativo dos mais instigantes. O primeiro deles é o fato de sua obra revelar ocultando, isto é, o acúmulo de camadas e as diferentes técnicas que são empregadas no trabalho criam uma volumetria que supostamente nos afasta da primeira camada. Contudo, a artista elabora um sistema que não nos deixa esquecer dessa imagem inicial, levando-nos a um território de novas descobertas, achados e premissas sobre ela que nos faz valorizar seu potencial pictórico e – por que não? – mágico.

Em Pares, uma série de quatro fotos documentadas pela artista no Regent’s Park em Londres, temos um exemplo dessa exploração paradoxal entre aparência e ausência que tanto perpassa sua trajetória. As fotos foram impressas com efeito reticulado, permitindo que, a depender da distância e da perspectiva que o espectador toma em relação à obra, é possível perceber gradativamente a passagem entre uma foto que documenta (com uma atmosfera mais densa e silenciosa), uma paisagem bucólica e finalmente a aparição de uma massa pictórica que se impõe como uma personagem e não uma ilustração daquela cena. O espectador parece perder seu senso de orientação, pois uma espécie de turbilhão de cores e formas cria uma outra capacidade de entendimento sobre o real, sobre aquilo que o cerca. Conforme a posição em relação à imagem, o espectador pode apagar ou revelar personagens, árvores, flores, chão ou nuvens. De certa forma, ele se coloca como protagonista e autor de uma narrativa.

Fotografia e pintura mesclam-se em um mesmo repertório: o de criação de situações capazes de subverter a ordem do plano e daquilo que está diante de nós. Passamos a duvidar sobre o que sempre se constituiu como verdade. A estratégia de revelar ocultando também está presente na série O passeio, de 2013, em que, de forma surpreendente, a artista se depara com uma série de árvores: com a intenção de serem protegidas do frio, estas foram cobertas por sacos de café. O modo como foi feito esse procedimento transmite às árvores encobertas um valor altamente antropomórfico. Remetendo, de certa forma, à disposição dos soldados de um exército, aquelas “pessoas” parecem marchar a esmo. Diante dos graves fatos políticos que o mundo atravessava naquele início de ano, é difícil não se lembrar da grande massa humana de imigrantes que arriscam suas vidas cruzando mares e oceanos com a esperança de uma vida melhor do que em seus países de origem, onde são massacrados por guerras civis, fome e todo tipo de desolação. Como corpos ausentes de carne, o passeio de Marina se coloca como um grito surdo e emocionado contra a hipocrisia do mundo.

As pinturas de Marina – e também uma série de fotografias intitulada As verdades – revelam outro procedimento: a economia de gestos investe na construção de uma narrativa que se faz aberta ou flexível para o espectador. Nessa série fotográfica, observamos que a imagem inicial de duas traves de futebol feitas com estacas de madeira (como aquelas fabricadas provisoriamente à beira do mar), é transformada paulatinamente, por meio de uma construção pictórica, em uma espécie de casa. Os vazios (a ausência, a falta ou o débito) das duas traves se veem preenchidos ao longo da sequência fotográfica, transformando uma gambiarra ou ainda uma paisagem prosaica – capturada pela artista de forma totalmente ocasional – em um arquétipo de abrigo ou morada. Como em um filme, peça, livro ou qualquer suporte narrativo, somos guiados a projetar uma história, um acontecimento que se faz de forma incessante e envolvente. É também o caso de Garranchos, um políptico em que imagens recortadas de galhos de uma mesma árvore compõem simbolicamente uma dança. A disposição das imagens – que nunca obedece a um padrão, isto é, o políptico pode ser montado das formas mais diversas – e a maneira intimista e poética como os galhos foram documentados geram a representação de um movimento circular que remete diretamente a um baile. A sombra do galho contra a luz da cidade reforça um tom de celebração do corpo em deslocamento. Mais uma vez, elementos da natureza se confundem com aspectos humanos.

É curioso pensar que a captura das imagens pela fotografia quase sempre coloca Marina em uma posição de “turista acidental”. E é esta característica do acidente, do acaso ou do aleatório que, parece-me, move sua pintura. Seus trabalhos possuem uma aparência de recortes, paisagens ou formas díspares que, ao se encontrarem, avizinhando-se, acabam formatando uma sequência típica da narração. Trata-se de um encontro de ilhas, territórios semânticos, que firmam proximidades e consequentemente constroem afinidades eletivas. Especialmente nos dípticos aqui expostos o que se revela é um constante atrito e conformidade entre as cores e formas construídas. Figura e fundo, luz e sombra estão constantemente negociando espaços, criando ritmos e (des)aparições. É possível perceber nesse corpo de trabalhos a ocorrência de um senso que aponta para uma característica de imprecisão, no sentido de não estar finalizado. Essa a natureza é a principal qualidade da obra de Marina: o eterno desafio de se refazer a todo o instante, de exibir sua própria inconformidade e o compromisso com a mutabilidade. No conjunto de pinturas que formam um painel, observamos a presença da imagem de uma mulher e uma criança sentadas como se estivessem brincando ou interagindo – a mesma que aparece em Pares.

Tanto em suas fotos quanto em suas pinturas sobressai um ambiente de silêncio e melancolia. E é a introdução de pequenos gestos, a harmonia entre fotografia e pintura construindo um diálogo de intersecção e narrativa poética coesa, assim como uma estrutura “aparentemente” em débito, logrando um repertório de fabricações sutis e intensas, que fazem da obra de Marina Saleme uma pesquisa única.”      ­ 

“Real”
Término dia 21 de janeiro, às 14h
Mul.ti.plo Espaço Arte, Rio de Janeiro
 
“Marina Saleme”
Término dia 19 de fevereiro, às 19h
Paço Imperial, Rio de Janeiro
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