“Alair Gomes: Percursos” inclui série inédita de 1969

“Alair Gomes: Percursos” inclui série inédita de 1969

A exposição apresenta seleção de 293 imagens do fotógrafo que foi um dos precursores da fotografia homoerótica no Brasil

Chega ao Rio de Janeiro a mostra que foi sucesso de público em São Paulo, em 2015. Com a assinatura de Eder Chiodetto na organização, pesquisa e curadoria, a exposição apresenta riquíssima seleção de imagens das séries Sonatinas, Four FeetSymphony of Erotic IconsThe Course of the SunBeach Triptych e A New Sentimental Journey. Considerado um dos precursores da fotografia homoerótica no Brasil, Alair Gomes notabilizou-se a partir dos anos 1960 pelas fotografias que enfocam o corpo do homem belo e jovem, seguindo a tradição da História da Arte, notadamente das esculturas greco-romanas. Com forte acento voyeurista, muitas de suas fotografias, realizadas entre 1960 e 1992, foram feitas a partir da janela e também no perímetro de seu apartamento na orla da praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. Desde então, sua produção tem sido estudada por críticos brasileiros e estrangeiros, e vem ganhando espaço em livros, revistas, galerias e museus. 

Série inédita

A visita à mostra começa com uma série inédita. Chiodetto se surpreendeu ao encontrar essa série em sua pesquisa no acervo da Biblioteca Nacional. São 32 fotografias da Praça da República, de São Paulo, em 1969, auge do Movimento Hippie no Brasil. O curador escolheu essa série para abrir a exposição. "Essas imagens ajudam a entender a pulsão da obra de Alair como um desdobramento da revolução comportamental ocorrida após maio de 1968, é uma ode ao hedonismo, ao prazer sem culpa possibilitado pelo sexo livre e pela regressão de certos dogmas", afirma.

Alair Gomes, série Sonatinas, Four Feet, 1970-1980, fotografia, 17,2 x 11 cm

Alair Gomes, série Sonatinas, Four Feet, 1970-1980, fotografia, 17,2 x 11 cm

Rio de Janeiro, sol e praia

Em Sonatinas, Four Feet (1970-1980), o artista alude à composição musical para criar sequências com imagens de uma ação que ocorre num tempo-espaço bem definido, em geral com dois rapazes se exercitando na praia. Entre as séries sequenciais que tornaram a obra de Gomes conhecida mundo afora, a curadoria selecionou 13 Beach Triptych, série de trípticos focada em jovens que se exercitam na praia, flagrados do calçadão de Ipanema, nos anos 1980. Realizada entre 1967 e 1974, a série The Course of the Sun apresenta 25 fotografias feitas a partir do apartamento à beira-mar em Ipanema, onde Alair morava. Usando lentes de longo alcance, ele fotografava rapazes indo e vindo da praia de sunga. A sombra dos corpos se alonga no chão criando uma tensão entre a figura e sua projeção.

Alair Gomes, série Esportes, 1977-1980, fotografia, 24 x 18 cm

Alair Gomes, série Esportes, 1977-1980, fotografia, 24 x 18 cm

Culto ao corpo

Na série Esportes (1977-1980), Alair fotografou atletas de diversas modalidades, mas com um olhar avançado para àquela época. Alheio à competição, Alair focava a musculatura, o contorno dos corpos, a perfeição da forma.  A série Symphony of Erotic Icons (1966-1978) ganhou espaço reservado na mostra, lembrando a maneira como as fotos foram feitas. Alair mostrava aos rapazes da praia as fotos que realizava furtivamente e os convidava para seu estúdio, onde promovia sessões fotográficas, explorando ângulos e sombras de seus corpos nus. A série A New Sentimental Journey, é uma espécie de diário textual-imagético que trata da viagem do artista para a Inglaterra, França, Suíça e Itália, em 1969, onde está revelado o apreço de Alair pela estatuária clássica greco-romana.

Alair Gomes, série Esportes, 1977-1980, fotografia, 24 x 18 cm

Alair Gomes, série Esportes, 1977-1980, fotografia, 24 x 18 cm

Reconhecimento póstumo

Nascido em Valença (RJ), Alair de Oliveira Gomes (1921-1992) formou-se em Engenharia Civil e Eletrônica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A partir de 1965, dedicou-se a Fotografia e, ao longo de 26 anos, produziu mais de 170 mil negativos de um trabalho inédito e único com o qual obteve reconhecimento internacional após sua morte. Alair Gomes também foi criador e coordenador do setor de Fotografia da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, nos anos 1970, e foi retratado por Luiz Carlos Lacerda no filme “A morte de Narciso” (2003). Um conjunto de suas fotografias foi selecionado para a Bienal de São Paulo, em 2012, e recentemente teve obras incorporadas ao acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

 Alair Gomes: Percursos”
 Abertura dia 13 de dezembro, às 19h30, com visita guiada com o pesquisador, curador e organizador da mostra Eder Chiodetto
 No dia 21 de janeiro, às 16h, palestra com Eder Chiodetto
Término dia 19 de fevereiro de 2017
Caixa Cultural, Rio de Janeiro
 
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