Obras de mulheres que foram além do convencional

Obras de mulheres que foram além do convencional

A crítica social e política na conturbada história recente é apresentada nesta exposição

A coletiva reúne 280 trabalhos de 120 artistas, numa representação de pelo menos 15 países. "Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985" tem curadoria da historiadora de arte e curadora venezuelana-britânica Cecilia Fajardo-Hill e da pesquisadora ítalo-argentina Andrea Giunta. Elas fizeram um mapeamento histórico de práticas artísticas experimentais realizadas por artistas latinas. São fotografias, vídeos e pinturas, principalmente.  

 Marie Orensanz, Limitada, 1978/2013, fotografia em preto e branco, 35 cm × 50 cm

Marie Orensanz, Limitada, 1978/2013, fotografia em preto e branco, 35 cm × 50 cm

Produção surpreendente

A exposição foi organizada pelo Hammer Museum, Los Angeles (EUA). A apresentação na capital paulista encerra a itinerância e conta com a colaboração de Valéria Piccoli, curadora-chefe da Pinacoteca. "Mulheres radicais" aborda uma lacuna na história da arte ao dar visibilidade à surpreendente produção, realizada entre 1960 e 1985, de mulheres residentes em países da América Latina, além de latinas e mexicanas nascidas nos Estados Unidos. Entre elas, constam na mostra algumas das artistas mais influentes do século XX - como Lygia Pape, Cecilia Vicuña, Ana Mendieta, Anna Maria Maiolino, Beatriz Gonzalez e Marta Minujín - ao lado de nomes menos conhecidos internacionalmente como a mexicana Maria Eugenia Chellet, a escultora colombiana Feliza Bursztyn e as brasileiras Leticia Parente, uma das pioneiras da videoarte, e Teresinha Soares, escultora e pintora mineira que vem recebendo atenção internacional recentemente. A curadora da Pinacoteca, Valéria Piccoli, destaca a importância da representatividade das brasileiras dentro dessa mostra: “além dos nomes que participaram das exposições no Hammer e no Brooklyn Museum, também vamos incluir obras de Wilma Martins, Yolanda Freyre, Maria do Carmo Secco e Nelly Gutmacher na apresentação em São Paulo”.

 Regina Silveira, Biscoito arte, 1976

Regina Silveira, Biscoito arte, 1976

Inclusão histórica

A América Latina conserva uma forte história de militância feminista  que, com exceção do México e de algumas artistas de outros países entre 1970-1980, ainda não foi divulgada para o conhecimento geral. "Mulheres radicais" propõe consolidar, internacionalmente, esse patrimônio estético criado por mulheres que partiram do próprio corpo para aludir — de maneira indireta, encoberta ou explícita –- as distintas dimensões da existência feminina. Para tanto, as curadoras vêm realizando uma intensa pesquisa, desde 2010, que inclui viagens, entrevistas, análise de publicações nas bibliotecas da Getty Foundation, da University of Texas entre diversas outras.

 Martha Araújo, Hábito/habitante, 1985

Martha Araújo, Hábito/habitante, 1985

Corpo feminino na arte contemporânea

Enxergar e usar o corpo feminino e o próprio corpo como uma ferramenta política para criar obras de arte marcou um período da História da Arte na América Latina e faz parte dos fundamentos do que chamamos de arte contemporânea. As artistas pioneiras investigaram radicalmente todas as possibilidades e ousaram desafiar classificações dominantes dos padrões até então estabelecidos na Arte. Segundo as curadoras, “essa nova abordagem instituiu uma pesquisa sobre o corpo como redescoberta do sujeito, que, mais tarde, viríamos a entender como uma mudança radical na iconografia do corpo e que acabaram por favorecer o surgimento de novas veredas nos campos da fotografia, da pintura, da performance, do vídeo e da arte conceitual".

 Letícia Parente, Marca Registrada, 1975, vídeo

Letícia Parente, Marca Registrada, 1975, vídeo

Enfrentar a esfera política e social 

Não por acaso essas artistas mulheres queriam fazer obras que conseguissem de alguma forma chamar a atenção da sociedade de então, que vivia um período marcado pelo poder patriarcal (nos Estados Unidos) e pelas atrocidades das ditaduras apoiadas por aquele país (na América Central e do Sul), que reprimiram esses corpos, sobretudo os das mulheres. As obras denunciavam a violência social, cultural e política da época (1960-1985). “As vidas e as obras dessas artistas estão imbricadas com as experiências da ditadura, do aprisionamento, do exílio, tortura, violência, censura e repressão, mas também com a emergência de uma nova sensibilidade”, conta Fajardo-Hill.

 Josely Carvalho, Waiting, 1982 Foto/ Ed Mumford.

Josely Carvalho, Waiting, 1982 Foto/ Ed Mumford.

Unidade temática 

A montagem desta exposição segue grupos por assuntos e não por espaço geográfico, demonstrando que houve uma necessidade de expressão histórica por parte das artistas diante do contexto em que se vivia naquele período repressivo. Os tópicos poético e político são amplamente explorados em autorretratos, na relação entre corpo e paisagem, no mapeamento do corpo e suas inscrições sociais, nas referências ao erotismo, ao poder das palavras e ao corpo performático, a resistência à dominação; feminismos e lugares sociais. Para a curadora Andrea Giunta, "estes temas atravessaram fronteiras, surgindo em obras de artistas que vinham trabalhando em condições culturais muito diferentes”. 

Militância histórica

O argumento central da exposição mostra que, embora boa parte dessas artistas tenham sido figuras decisivas para a expansão e diversificação da expressão artística em nosso continente, ainda assim não haviam recebido o devido reconhecimento. “A exposição surgiu de nossa convicção comum de que o vasto conjunto de obras produzidas por artistas latino-americanas e latinas tem sido marginalizado e abafado por uma história da arte dominante, canônica e patriarcal”, definem as curadoras.  Segundo o diretor da Pinacoteca, Jochen Volz, “foram, principalmente, artistas mulheres as pioneiras que experimentaram novas formas de expressão, como performance e vídeo, entre outras. Assim, a itinerância da mostra Mulheres radicais para o Brasil é de grande relevância para a pesquisa contemporânea artística e acadêmica e o público em geral”.

 Claudia Andujar, índios Yanomami, numa série com todos da tribo

Claudia Andujar, índios Yanomami, numa série com todos da tribo

Difusão do conhecimento

Esse rico conjunto de trabalhos, os arquivos de pesquisa das curadoras coletados para a concepção da exposição e o acréscimo da curadoria paulista abrem novos caminhos investigativos e entendimentos acerca da história latino-americana. E para as curadoras, ”o tópico agora faz parte de uma pauta ampla e ao mesmo tempo urgente. Entretanto, ainda há muito trabalho a ser feito e temos plena consciência de que este é apenas o começo.”

Financiamentos e apoios

“Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985” é organizada pelo Hammer Museum, Los Angeles, como parte da Pacific Standard Time: LA/LA, uma iniciativa da Getty em parceria com outras instituições do Sul da Califórnia e teve curadoria das convidadas Cecilia Fajardo-Hill e Andrea Giunta. Sua apresentação na Pinacoteca de São Paulo conta com o patrocínio do Itaú, Itaú Carros, escritório Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga Advogados, BTG Pactual e Vicunha Têxtil, além do apoio das revistas Select, ArtNexus, Claudia e Capricho. A exposição é realizada graças ao apoio da Getty Foundation. A maior parte dos recursos da mostra foram promovidos por Diane and Bruce Halle Foundation e Eugenio López Alonso. Apoio generoso foi oferecido por Vera R. Campbell Foundation, Marcy Carsey, Betty e Brack Duker, Susan Bay Nimoy, e Visionary Women.

Patrocínio de outras mulheres

Pela primeira vez em sua história, a Pinacoteca concebe um Exhibition Circle — prática bastante comum nos EUA e na Europa para arrecadar fundos — especialmente para esta exposição. Para a ocasião, o museu convidou trinta mulheres inspiradoras e pioneiras em suas áreas de atuação para colaborarem financeiramente na viabilização de Mulheres radicais. “Convidamos mulheres que refletem o espírito desta exposição e que, para nós, são fonte de admiração e merecem reconhecimento público. O grupo que chamamos carinhosamente de ´Mulheres Extraordinárias´ representa o engajamento e o pioneirismo feminino em diversas áreas da sociedade”, conta Paulo Vicelli, diretor de Relações Institucionais da Pinacoteca. Integra a lista de homenageadas: Adriana Cisneros, Ana Lucia de Mattos Barretto Villela, Catherine Petigás, Estrellita Brodsky, Luisa Strina, Fernanda Feitosa, Lygia da Veiga Pereira Carramaschi, Luiza Helena Trajano, entre outras.

Confira quem participa da exposição

Argentina
Maria Luisa Bemberg (1922–1995); Delia Cancela (1940); Graciela Carnevale (1942); Diana Dowek (1942); Graciela Gutiérrez Marx (1945); Narcisa Hirsch (Germany, 1928); Ana Kamien and Marilú Marini (1935 and 1954); Lea Lublin (Poland, 1929–1999); Liliana Maresca (1951–1994); Marta Minujín (1943); Marie Orensanz (1936;) Margarita Paksa (1933); Liliana Porter (1941); Dalila Puzzovio (1943); Marcia Schvartz (1955).

Brasil
Mara Alvares (1948); Claudia Andujar (Suíça, 1931); Martha Araújo (1943); Vera Chaves Barcellos (1938); Lygia Clark (1920–1988); Analívia Cordeiro (1954); Liliane Dardot (1946); Lenora de Barros (1953); Yolanda Freyre (1940); Iole de Freitas (1945); Anna Bella Geiger (1933); Carmela Gross (1946); Nelly Gutmacher (1941); Anna Maria Maiolino (Italy, 1942); Márcia X. (1959–2005); Wilma Martins (1934); Ana Vitória Mussi (1943); Lygia Pape (1927–2004); Letícia Parente (1930–1991); Wanda Pimentel (1943); Neide Sá (1940); Maria do Carmo Secco (1933); Regina Silveira (1939); Teresinha Soares (1927); Amelia Toledo (1926–2017); Celeida Tostes (1929–1995); Regina Vater (1943);

Chile
Gracia Barrios (1927); Sybil Brintrup and Magali Meneses (1954 and 1950); Roser Bru (Spain, 1923); Gloria Camiruaga (1941–2006); Luz Donoso (1921–2008); Diamela Eltit (1949); Paz Errázuriz (1944); Virginia Errázuriz (1941); Lotty Rosenfeld (1943); Janet Toro (1963); Eugenia Vargas Pereira (1949); Cecilia Vicuña (1948).

Colômbia
Alicia Barney (1952); Delfina Bernal (1941); Feliza Bursztyn (1933–1982); María Teresa Cano (1960); Beatriz González (1938); Sonia Gutiérrez (1947); Karen Lamassonne (Estados Unidos, 1954); Sandra Llano-Mejía (1951); Clemencia Lucena (1945–1983); María Evelia Marmolejo (1958); Sara Modiano (1951–2010); Rosa Navarro (1955); Patricia Restrepo (1954); Nirma Zárate (1936–1999).

Costa Rica
Victoria Cabezas (Estados Unidos, 1950)

Cuba
Ana Mendieta (1948–1985); Marta María Pérez (1959); Zilia Sánchez (1928).

Estados Unidos
Judith F. Baca (1946); Barbara Carrasco (1955); Josely Carvalho (Brazil, 1942); Isabel Castro (Mexico, 1954); Ester Hernández (1944); Yolanda López (1942); María Martínez-Cañas (Cuba, 1960); Marta Moreno Vega (1942); Sylvia Palacios Whitman (Chile, 1941); Sophie Rivera (1938); Sylvia Salazar Simpson (1939); Patssi Valdez (1951).

Guatemala
Margarita Azurdia (1931–1998)

México
Yolanda Andrade (1950); Maris Bustamante (1949); Ximena Cuevas (1963); Lourdes Grobet (1940); Silvia Gruner (1959); Kati Horna (Hungary, 1912–2000); Graciela Iturbide (1942); Ana Victoria Jiménez (1941); Magali Lara (1956); Mónica Mayer (1954); Sarah Minter (1953–2016); Polvo de Gallina Negra (ativo 1983–93); Carla Rippey (Estados Unidis, 1950); Jesusa Rodríguez (1955); Pola Weiss (1947–1990); Maria Eugenia Chellet (1948).

Panamá
Sandra Eleta (1942)

Paraguai
Olga Blinder (1921–2008); Margarita Morselli (1952).

Peru
Teresa Burga (1935); Gloria Gómez-Sánchez (1921–2007); Victoria Santa Cruz (1922–2014).

Porto Rico
Poli Marichal (1955); Frieda Medín (1949).

Uruguai
Nelbia Romero (1938–2015); Teresa Trujillo (1937).

Venezuela
Mercedes Elena González (1952); Margot Römer (1938–2005); Antonieta Sosa (Estados Unidos, 1940); Tecla Tofano (Itália, 1927–1995); Ani Villanueva (1954); Yeni y Nan (ativo 1977–86).


Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985

Término dia 19 de novembro de 2018

Pinacoteca de São Paulo

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