As “pinturas fotográficas” de Eloá Carvalho

As “pinturas fotográficas” de Eloá Carvalho

Fotografias da história do Museu servem de base para produção que relaciona comportamento, imaginário e espaço

A individual “Todo ideal nasce vago” apresenta 18 pinturas recentes de Eloá Carvalho, que tem se debruçado em conhecer mais a história das instituições para se inspirar diante das telas. Desta vez, ela se inspirou no acervo de fotografias do Centro de Documentação e Pesquisa do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Nesta mostra, traz obras que elaborou a partir das imagens selecionadas na importante história do MAM Rio. São pedaços dos jardins, momentos de exposições, detalhes da arquitetura do prédio que é um marco modernista projetado por Affonso Reidy (1909-1964). A artista cita Reidy ao contar que fez um passeio por um amplo período de tempo, desde a fundação do MAM em 1948 até os nossos dias com o objetivo de “trazer para dentro o que está fora”. Ele defendeu a fachada de vidro do Museu, ela quer mostrar os frequentadores do MAM, seus jardins, espaços que se ocupam de figuras importantes, com taças de champanhe, a crianças de escola.

História pintada

Em 2013, a artista realizou o projeto “Mise en Scène”, a partir do acervo iconográfico da Galeria de Arte IBEU. Em 2015, Eloá Carvalho foi convidada para fazer uma mostra individual na Galeria do Lago, no Museu da República, a partir da história e da arquitetura do Palácio do Catete, e da relação afetiva dos visitantes da instituição com a memória do espaço.

Segundo Eloá Carvalho, o objetivo da sua pesquisa em arquivos de instituições vai além do acesso à História, mas descobrir as relações humanas a partir daqueles contextos. E, ao selecionar as imagens com as quais iria trabalhar a Pintura, ela misturou esses elementos. Um exemplo é a pintura “O regador”, em que um homem de terno está curvado com um regador na mão. Nas fotos, é Juscelino Kubitschek, então Presidente da República, na solenidade de plantação das palmeiras do Parque do Flamengo, no final dos anos 1950. Em outra tela, Eloá usa a imagem de Heitor dos Prazeres (1898-1966), chamando a atenção para a rara presença de um negro em um coquetel de abertura de exposições naquela época.

Novos olhares para a memória

Ivair Reinaldim, que assina a curadoria, afirma que a linha de pesquisa de Eloá “reforça o uso da documentação histórica não como mera apropriação ou pastiche, mas, a partir de articulações mais complexas, que em si não escondem idiossincrasias e conflitos internos, para estimular a constituição de novos olhares para o espaço e sua memória”. Leia a seguir o texto do curador na íntegra:

“A história do Museu de Arte Moderna não é necessariamente uma narrativa estruturada em uma única linha cronológica, como muitas vezes podemos considerar. De fato, há tantas versões para essa história quantas foram as pessoas que idealizaram a instituição, habitaram seus espaços no decorrer das décadas e fizeram do MAM um marco na cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, há tantas narrativas quanto museus, pois ele é sempre múltiplo na ingularidade dos relatos e das memórias. Em meio a essa evidência, o modo escolhido por Eloá Carvalho para tecer sua narrativa sui generis partiu de um inventário de imagens de pessoas, objetos e situações que a artista identificou em meio a uma ampla investigação no arquivo da instituição e em bibliografia produzida por outros pesquisadores: um conjunto de imagens e relatos que constitui um imaginário-museu multifacetado.

Quem se refere a arquivo, adentra o labirinto. E embora Eloá Carvalho tenha se aventurado nos arquivos iconográficos da instituição – das fotografias de mostras individuais e coletivas às de eventos variados promovidos em seus espaços, de registros dos processos de construção do edifício projetado por Affonso E. Reidy a imagens do público que frequenta os espaços do museu e seus jardins –, o método arqueológico empregado pela artista constitui-se verdadeiro “fio de Ariadne” a conduzi-la nos meandros desse território, capaz de tecer aquilo que é lembrado – e porque é lembrado – como também o que é esquecido ou nem sempre inventariado. No entanto, cabe o alerta: o conjunto de pinturas aqui apresentado, resultante desse processo de pesquisa e alinhavo, não se resume à “história do MAM”, muito menos a retrato de personagens de um passado que insiste ou deseja fazer-se presente. Fragmentos selecionados e elaborados por processos de montagem e construção pictórica emergem desse arquivo e juntos tornam-se pontos de tessitura de uma narrativa. Guardam, entretanto, sua autonomia ao evidenciarem suas histórias particulares. São imagens que ganham corpo, densidade e visibilidade, insinuando-se mais como presença revolvida do que como evidência comemorativa ou ilustrativa.

Mas, afinal, a que se refere esta exposição? Que ideal é esse em seu título que nasce vago? Um projeto de museu? Um projeto de pintura? Um projeto de arte? Ao olhar para o passado, ao revolver imagens e relatos de arquivos reais e imaginários, ao reativar memórias coletivas e individuais, ao evidenciar apagamentos e esquecimentos, ao reintroduzir esse material no fluxo das visibilidades e na tessitura de sua narrativa, Eloá Carvalho reafirma-o mediante sua existência: fala não de um museu, mas de museus como visões partilhadas entre pessoas; não de pinturas, mas da pintura como ato e modo de conceituar o mundo; não da arte como visão elitista, mas do papel que ela pode e deve assumir diante da formação e do reconhecimento de um mundo em constante transformação. Se o relato reforça que “todo ideal nasce vago”, seja ele qual for, sua continuidade conclui que “é o calor humano que lhe dá corpo e consistência”. Reside aí o testemunho de seu propósito e de sua concretização.”

“Todo ideal nasce vago”
Abertura dia 3 de dezembro, às 15h
Término dia 5 de março de 2017
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Qual é o seu link? Pequenos Formatos

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