Bruno Vilela mostra “livro de pinturas”

Bruno Vilela mostra “livro de pinturas”

“Esta exposição é como um livro. Seus textos foram perdidos. Mas suas ilustrações sobreviveram”, diz o artista

A individual “O livro de São Sebastião” apresenta 15 obras inéditas, produzidas especialmente para esta mostra. São sete óleos sobre tela e oito trabalhos sobre papel. Na reprodução acima: "São Sebastião", 2016, óleo sobre tela, 150 x 200 cm. “Pintar é uma maneira de reproduzir as imagens do inconsciente numa tela. Na impossibilidade de se fotografar sonhos e pesadelos, é possível entrar em estado de sonho através da pintura”, conta Bruno Vilela, que utiliza diversas técnicas como a sobreposição da tinta óleo ao pastel seco e carvão e o uso de folhas de ouro e de prata.

Pintura reveladora

As obras nesta individual dão sequência à pesquisa do artista sobre arquétipos e mitologias. Desta vez, ele se aprofunda no universo judaico-cristão e no hermetismo. Bruno Vilela, aborda o universo onírico, investiga memórias ancestrais e pessoais. “Esta exposição é como um livro. Seus textos foram perdidos, mas suas ilustrações sobreviveram”, diz ele.

Registros

Bruno Vilela passa a maior parte do seu tempo dentro do ateliê. São cerca de onze horas em que ele desenvolve reflexões sobre sua própria produção. A cada série de trabalho, ele faz um registro daquele período e produção em um caderno, incluindo atividades como filmes que assistiu e leituras que fez. Nesta individual, está à disposição do público para leitura e manuseio o caderno que acompanha “O livro de São Sebastião”. E foi criada uma edição que está à venda. Na Galeria, também podem ser adquiridos os dois livros do artista “Animattack” (2014) e “Vôo Cego” (2010); e o romance escrito pelo próprio Bruno Vilela “A sala verde” (2015) após 70 dias em uma residência artística no Palácio do Marquês de Pombal, em Lisboa, a convite da instituição Carpe Diem Arte e Pesquisa.  

Bruno Vilela, Fio-de-prata, 2016, óleo sobre tela, 90 x 200 cm

Bruno Vilela, Fio-de-prata, 2016, óleo sobre tela, 90 x 200 cm

O mito está vivo

Pollyana Quintella assina o texto da exposição: “Bruno Vilela: pintura em estado de sonho”, que reproduzimos na íntegra.

“Mircea Eliade, o grande historiador romeno das religiões, separa o homem arcaico do homem moderno pela irreversibilidade dos acontecimentos. Para o segundo, os eventos são característica da História enquanto que, para o primeiro, eles são passíveis de atualização através do poder do mito. Bruno Vilela parece se esforçar, diante disso, para se situar num entremeio pictórico, procurando examinar os mitos, arquétipos, deuses e símbolos no presente. O livro de São Sebastião, apresentado aqui com quinze pinturas, é um relato vertiginoso em série, um processo de requalificação e alargamento de um repertório simbólico que vem sendo construído pelo artista ao longo de toda sua produção.

No universo de Bruno, o livro de São Sebastião é um livro perdido. Seus vestígios foram encontrados queimados, dos quais sobreviveram apenas as ilustrações. O papel das pinturas, pensadas num percurso específico, é o de presentificar um texto imaginado. A exposição é a experiência do livro. O livro é premissa e desenvolvimento da exposição. O público, nesse caminho, pode aparecer como um personagem imprevisto. A escala das pinturas, quase todas com pelo menos um metro, faz da narrativa um evento imersivo, de jogo e confrontação.

Embora o pano de fundo seja a mitologia judaico-cristã, as figuras procuram alcançar soluções distintas, longe de qualquer pureza iconográfica. São Sebastião, por exemplo, já foi tema de pinturas icônicas da arte brasileira, como as de Eliseu Visconti, Alberto da Veiga Guignard e Glauco Rodrigues, aparece aqui na forma de um urso flechado que é, nas palavras de Bruno, “o artista, que não desiste e trabalha pelo seu propósito”. Não se trata, portanto, de uma imagem subordinada ao texto, como se costuma observar na mitologia clássica, mas uma imagem que embaralha e confunde a palavra, se emaranhando por caminhos outros. No livro perdido de São Sebastião os textos são irresgatáveis, mensurados apenas no discurso pouco linear da pintura, num exercício de perversão e dilatação narrativa. Não é um caso, mesmo por isso, de uma Ut pictura poesis – poesia como pintura –, como queria Horácio. Mas talvez de pictura – pintura – que traz o mito para o minuto da imagem, o movimenta no tempo, nas particularidades do sujeito e da história: o exercício de atualização arcaica de que falava Eliade, aqui reservado para o campo de produção simbólica da arte.

Bruno Vilela, Moisés, 2016, óleo e pastel seco sobre papel, Bruno Vilela, 60 x 80 cm

Bruno Vilela, Moisés, 2016, óleo e pastel seco sobre papel, Bruno Vilela, 60 x 80 cm

As referências também parecem surgir como manifestações inconscientes, como se emergissem de um psiquismo, acessadas por uma espécie de complexo polifônico em que a relação entre as imagens segue, por vezes, critérios escusos, inacessíveis. Se a psicanálise buscaria a palavra fora da imagem, como alegoria pura, aqui a imagem quer entrelaçar a palavra, inoperando as causalidades. As conexões são muitas e quase obsessivas. Há o diálogo intenso entre universos fantásticos distintos: Freud, Da Vinci, discos voadores, a Bíblia, John Milton, Nick Cave, Caibalion, Ouroborus, são todos alusões de um amálgama de sentidos construídos.

Neste ponto tudo é símbolo, mas são todos símbolos em processo de reinvenção ou redescoberta. Se os arquétipos de Jung se armazenam no inconsciente coletivo por repetição, Manoel de Barros diria: “Repetir, repetir - até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo”. Os modelos e cânones, como no fenômeno dos sincretismos, espelham um outro, derivam. É a pintura em estado de sonho, um sonho em contexto globalizado, que se nutre de várias manifestações culturais para, de certo modo, cruzá- las, entremeá-las, conjugá-las numa mesma superfície.

O mito, manifestação do sagrado no mundo, é também a narrativa didática e pedagógica que confere valor e significado aos comportamentos. Nas pinturas do livro, seu aspecto enigmático, de constante entrevisão e parcial desvelamento, ganha força com uma paleta de tons frios predominantes, ora ou outra mais evidentemente contrastados, e com a presença da natureza como cenário e conjuntura para situar a narrativa num suposto “estado primordial”.

Bruno também permitiu que os temas chamassem uns aos outros. O fim de uma pintura anuncia o início da próxima, sem prognóstico, fazendo do próprio processo o itinerário e direção. Algumas imagens vieram de antigos cadernos, onde esboços podem desencadear obras anos depois. Para o artista, um trabalho antigo pode se encaixar numa nova série, ao passo que trabalhos recentes também se encaixam em séries anteriores, revelando uma vontade coesiva que percorre a produção.

Há, sem dúvida, outro aspecto importante na obra de Vilela: o trabalho. O pintor como uma espécie de atleta que se submete a intenso treinamento físico. Bruno diz ter tido um mestre, o japonês Shunishi Yamada, com quem estudou durante quatro anos e de onde vem a forte presença do domínio anatômico e do pastel seco. Segundo o artista, o mestre dizia que, “se você aprende a desenhar um rosto, uma mão, você pode fazer tudo”. Esse virtuosismo técnico é visto a partir de uma certa imbricação entre pintura, desenho e fotografia, fruto de uma intimidade conquistada com os procedimentos.

Talvez isso justifique a frequência de cadernos e livros ao longo da produção de Bruno. Seus livros publicados são híbridos entre o catálogo e o livro de artista, com registros e estudos. Na exposição, caderno, livro e obra convivem em reforço mútuo, como ponto de partida, vestígio, processo e desdobramento de uma mesma pesquisa.

No livro de São Sebastião, a imagem emerge para construir um outro de si. Dá a nós o recado de que o mito está vivo.”

Bruno Vilela, o_pontífice, 2016, óleo sobre tela, 90 x 130 cm

Bruno Vilela, o_pontífice, 2016, óleo sobre tela, 90 x 130 cm

Conversa e filmes

Dia 18 de janeiro, às 18h, Bruno Vilela recebe o público para conversa aberta e gratuita com a poeta e crítica Pollyana Quintella e com seu colega, o também artista Rodrigo Braga, sobre o seu trabalho. Em alusão à pintura que abre a exposição, “O divã”, que retrata o famoso consultório de Freud em Viena, Bruno Vilela estará em um divã, de costas para seus interlocutores/analistas. Todos estarão de frente para o público.

Após a conversa, que tem duração prevista de uma hora e meia, o público será convidado a assistir a uma série de filmes listados abaixo, em um total de uma hora de exibição:

“Vinil Verde” (Green Vinyl, 2004, 16’), de Kléber Mendonça Filho. Adaptação livre de uma fábula russa. Prêmio de Melhor Diretor, Montagem, Som e Prêmio da Crítica no Festival de Brasília, e selecionado para a Quinzena dos Realizadores em Cannes, em 2005. Sinopse: Mãe dá à filha uma caixa com disquinhos coloridos de músicas infantis. Filha pode ouvir os disquinhos, exceto o disquinho verde. Em português, com legendas em inglês.

“Crisálida” (6’20’’), de Helena Carestiato, Marianne Antabi, Yan Nery. Sinopse: Na floresta, um pesquisador botânico encontra um corpo feminino desacordado que já se encontra mimetizado à mata. O homem leva o corpo para seu laboratório e o estuda com cuidado. Estabelece com ele uma relação delicada e poética. Sem se dar conta, ele dará vida à mulher, mas esta doação terá consequências irreversíveis.

“Sentinela” (2013, 4’45’’), de Cristiano Lenhardt. “Para dar-se ao som de notícias, afastou-se da linha e entrou em solo de beira. Retumbando sua presença, defende seu reino”, escreve o artista.

“Soneto do Desmantelo Blue” (1993, 9’), de Claudio Assis. Sinopse: Fragmentos da vida e obra do poeta pernambucano Carlos Pena Filho.

“Ocidente” (2008, 6’40’’), de Leonardo Sette. Sinopse: Um casal em viagem

“De Natureza Passional” (On the Passionate Nature, 2014, 12’50’’), de Rodrigo Braga

 Série “Deságua” (2014, 4’30’’), de Celina Portella

"O livro de São Sebastião”
Término dia 4 de março
Anita Schwartz Galeria de Arte, Rio de Janeiro
Dragão do Mar abre retrospectiva de Cela

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Casa com detalhes mecânicos vence o RIBA 2016

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