Coletiva anual da C. reúne obras de dez artistas em "Serendipity"

Coletiva anual da C. reúne obras de dez artistas em "Serendipity"

Nesse projeto, a Galeria valoriza a integração entre artistas representados, artistas de fora e público

A exposição “Serendipity” tem curadoria de Luiz Otávio Zampar. Para os artistas não representados pela Galeria, houve chamado nacional e recebimento de propostas. Zampar selecionou obras de Allan Sieber, Bruno Portela, Cibelle Arcanjo, Fábio Carvalho, Fernanda Andrade, Liana Nigri, Marcelo Oliveira, Nathan Braga, Tangerina Bruno e Yhuri Cruz.

Na reprodução acima, detalhe da obra de Fábio Carvalho, “Hora do Rancho”. O trabalho foca na representação de objetos e artefatos de uso militar, normalmente associados com a masculinidade bruta, a virilidade pura e ideal para a sociedade patriarcal, em um meio (pratos de porcelana com decoração floral) que muitos entendem como pertencente exclusivamente ao universo do delicado e feminino. Fábio Carvalho também vai apresentar dois trabalhos da série “Bai feliz buando, no bico dum passarinho”, decorrentes da residência artística no “Maus Hábitos”, em Porto, Portugal, onde o artista incorporou em sua pesquisa elementos ainda presentes na cultura lusitana que são considerados da esfera feminina, em particular os lenços de namorados. A produção artística atual de Fábio Carvalho surgiu de uma reflexão sobre os elementos que constituem as expectativas de gênero. Sua poética artística opera justamente na superposição e no conflito entre elementos tradicionais do universo feminino com os estereótipos de masculinidade, como o soldado, o executivo, o halterofilista, o cowboy, entre outros.

Fábio Carvalho, Hora do Rancho: nesta mostra, a obra está sendo apresentada completa pela primeira vez

Fábio Carvalho, Hora do Rancho: nesta mostra, a obra está sendo apresentada completa pela primeira vez

A palavra Serendipity escolhida para intitular a mostra significa feliz descoberta ao acaso, sorte de encontrar algo preciso onde não estávamos procurando e forma especial de criatividade; alia perseverança, inteligência e senso de observação.  

Segue na íntegra o texto do curador, Luiz Otávio Zampar

"‘Hoje

Trago em meu corpo as marcas do meu tempo

Meu desespero, a vida num momento

A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo’

Há linhas que nos costuram e seguram a todo instante. "É preciso estar atento e forte", diz o refrão que soa como um hino na rotina que parece nos detestar. O indivíduo se esvai a cada segundo que passa, pois deixamos de notar, por medo, o humano. "É perigoso acordar o sonâmbulo". Despertar é perigoso, porém necessário; é no despertar que criamos consciência, lucidez. 

Se a Arte reflete o cotidiano de seus contemporâneos, não é à toa que a arte brasileira sempre foi baseada em questões políticas: uma monarquia mal constituída, uma república formada as pressas, uma ditadura eterna. Serendipity 2019 fala sobre democracia, sobre liberdade, sobre conforto e sobre a falta de tudo isso; sobre existir, sobre envelhecer diante desses princípios. 

A galeria torna-se espaço de testemunho e porto seguro para o grito necessário desse novo time formado. Obras que fogem do padrão "família tradicional brasileira" ganham abrigo nesse novo espaço com uma nova leitura e um sentimento de determinação. O grito ficou mais alto, somos mais e não vamos nos calar. 

Nietzsche afirma que temos a arte para não morrer da verdade; o que ele não nos disse é que a arte é o amadorismo da vida que percorre a dúvida e a dívida dos míseros anseios que nos percorrem. Permeamos sucessivamente a estranha camada que separa o humano do divino, o aberto do sombrio, a vida do fenecer. Nada mais aflige o cotidiano depois de nós mesmos; somos a própria limitação e o próprio percalço torna-se a mandatória libertação. 

Essa mostra cumpre seu pequeno dever de manifestar em primeira vista o que o cotidiano tenta nos apagar: somos resistência porque existimos; e existir é um ato político, é aguentar, sobreviver, enfrentar, é ser a costura que sempre tentam romper, nunca se isolar, é não soltar a mão de ninguém.” 


“Serendipity”

Abertura dia 02 de fevereiro de 2019

Término em 01 de março de 2019

C.galeria, Rio de janeiro








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