"Djanira: a memória de seu povo" abre 2019 no MASP

"Djanira: a memória de seu povo" abre 2019 no MASP

Obras e histórias de mulheres, ressaltando o viés Feminista vão nortear a programação do Museu

Com esta exposição, o Museu abre a sua programação deste ano, pautada pelo eixo temático “Histórias das mulheres, histórias feministas”. Há quarenta anos da morte de Djanira da Motta e Silva (1914-1979), esta mostra traz ao público obras que estiveram guardadas nas últimas décadas. São cerca de 70 obras selecionadas pelos curadores Isabella Rjeille e Rodrigo Moura com o objetivo de revisitar e reposicionar o trabalho de Djanira no cenário artístico brasileiro. Entre junho e outubro, a exposição vai seguir para a Casa Roberto Marinho, no Rio de Janeiro, que é co-organizadora da exposição. Acima, detalhe de “Mercado da Bahia”, reproduzida no final dessa postagem na íntegra.

Djanira, Mercado de Peixe, 1957, óleo sobre tela, 90 x 116,5 cm / Foto: João L. Musa

Djanira, Mercado de Peixe, 1957, óleo sobre tela, 90 x 116,5 cm / Foto: João L. Musa

Os curadores privilegiaram destacar o enfoque que a artista perseguiu durante sua trajetória, de retratar temas da cultura popular brasileira. Djanira pintou o seu entorno social, amigos e vizinhos, operários e trabalhadores rurais, paisagens do interior e manifestações sociais, culturais e espirituais, como religiões afro-brasileiras, populações indígenas e danças folclóricas. “A ideia de uma pintura brasileira que refletisse e forjasse a identidade cultural da nação é o que de fato sempre buscou”, diz o curador Rodrigo Moura.

Djanira, Três orixás, 1966, óleo sobre tela, 130 x 195,5 cm / Foto: Isabella Matheus

Djanira, Três orixás, 1966, óleo sobre tela, 130 x 195,5 cm / Foto: Isabella Matheus

A exposição foi organizada cronologicamente e em torno de núcleos temáticos que surgiram ao longo dos anos de viagens e pesquisas de Djanira, abrangendo quatro décadas de produção da pintora. É possível, portanto, analisar de forma ampla a trajetória e as mudanças de linguagem pelas quais Djanira passou ao longo da carreira.

Djanira, Trabalhadores de Cal, 1974, óleo sobre tela, 90 x 116 cm / Foto: Jaime Acioli

Djanira, Trabalhadores de Cal, 1974, óleo sobre tela, 90 x 116 cm / Foto: Jaime Acioli

A exposição conta a história da produção e a história de vida de Djanira, que foi autodidata e se integrou intensamente ao Modernismo, quando o Brasil dialogou com as vanguardas europeias, abraçando no seu processo criativo experiências particulares, locais.

Djanira, Casa de farinha, 1956, óleo sobre tela, 90 x 132 cm / Foto: Pedro Oswaldo Cruz

Djanira, Casa de farinha, 1956, óleo sobre tela, 90 x 132 cm / Foto: Pedro Oswaldo Cruz

Os deslocamentos da família de Djanira são visíveis na pluralidade abordada no conjunto de sua pintura. De ascendência austríaca por parte de mãe e indígena por parte de pai, Djanira teve uma infância marcada por muitas mudanças de moradia e lugares. Muito jovem, trabalhou em lavouras de café e chegou a ser vendedora ambulante em São Paulo. Aos 23 anos, contraiu tuberculose e foi internada em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, onde fez seus primeiros desenhos.

No Rio de Janeiro, residiu a partir do final dos anos 1930 e, estimulada pelo convívio com pintores na pensão em que vivia em Santa Teresa, entre eles o refugiado romeno Emeric Marcier (1916-1990), matriculou-se em um curso noturno no Liceu de Artes e Ofícios, que frequentou por pouco tempo. Em 1942, participou pela primeira vez do Salão Nacional de Belas Artes, que era promovido no Rio, e, no ano seguinte, realizou sua primeira mostra individual.

Djanira, Serradores, 1959, óleo sobre tela, 136 x 131 cm/ Foto: Pedro Oswaldo Cruz

Djanira, Serradores, 1959, óleo sobre tela, 136 x 131 cm/ Foto: Pedro Oswaldo Cruz

Nos anos 1940, Djanira embarcou por conta própria para Nova York, onde passaria uma temporada. Em 1946, expôs nas galerias da New School for Social Research. A exposição seria visitada e comentada, com grande entusiasmo, pela então primeira-dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt (1884-1962) em seu programa de rádio e coluna de jornal, e repercutida por outros veículos da imprensa local. Antes de voltar ao Brasil, Djanira faria ainda uma exposição na União Pan-americana em Washington.

Djanira, Autorretrato,  1944, ´´oleo sobre madeira, 48 x 35 cm / Foto: Jaime Acioli

Djanira, Autorretrato, 1944, ´´oleo sobre madeira, 48 x 35 cm / Foto: Jaime Acioli

Engajamento político

Ao retornar ao Brasil, após o sucesso nos EUA, Djanira começou uma viagem pelo País, visitando diversas regiões a partir dos anos 1950, sobretudo a Bahia, onde manteve um ateliê e registrou cenas do comércio popular e se aproximou da cultura afro-brasileira. Para o concurso Cristo de Cor, promovido pelo Teatro Experimental do Negro, pintou Jesus como um homem negro escravizado sendo açoitado no Pelourinho de Salvador, um ambiente que remonta à colonização brasileira. Também dos anos 1950, data o painel Candomblé (1954), encomendado por Jorge Amado e pintado para o apartamento do escritor no Rio de Janeiro. Em comum com o romancista, Djanira também tinha um forte engajamento político, que a aproximou do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a levou à então União Soviética e também a pintar cenas de trabalhadores Brasil afora.

Djanira, Largo do Pelourinho, Salvador, 1955, óleo sobre tela, 81 x 115 cm / Foto: Jaime Acioli

Djanira, Largo do Pelourinho, Salvador, 1955, óleo sobre tela, 81 x 115 cm / Foto: Jaime Acioli

“Os trabalhos que ela produz a partir das viagens pelo país, entre os anos 1950 e 1970, são testemunhas de um Brasil em acelerada transformação”, diz a curadora Isabella Rjeille. “Djanira via a pintura como uma linguagem profundamente engajada com a realidade social e cultural do país, sem abrir mão de certo rigor formal.” Em 1964, Djanira foi presa nos primeiros meses da ditadura militar. O episódio teve profundo impacto sobre a artista, que a partir daí se retirou da vida pública, passando 14 anos sem realizar uma exposição individual. Nesse período, a artista não deixou de pintar, recebendo colecionadores pessoalmente e se afastando do mercado de arte tradicional, refugiando-se no seu sítio em Paraty ao lado de seu companheiro, José Shaw da Motta e Silva. O retorno da artista se deu com uma mostra de cerca de 200 obras, organizada pelo Museu Nacional de Belas Artes, em 1976, sua última grande exposição em vida. “Djanira teve uma significativa exposição pública e manteve intensa relação com a crítica em vida. Contudo, sua obra teve pouca circulação desde sua morte. Esta exposição tem como missão reparar essa ausência, apontando não apenas para a potência e complexidade de seu trabalho, mas também para sua inquestionável relevância hoje”, diz Rodrigo Moura.

"Djanira: a memória de seu povo"

Término no dia 19 de maio de 2019

Museu de Arte de São Paulo

Djanira, Mercado da Bahia, 1959, óleo sobre tela, 114,5 x 162 cm/Foto: Pedro Oswaldo Cruz

Djanira, Mercado da Bahia, 1959, óleo sobre tela, 114,5 x 162 cm/Foto: Pedro Oswaldo Cruz

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