"Ex Africa" reúne visões do continente

"Ex Africa" reúne visões do continente

A frase do romano Caio Plinio: "Ex Africa semper aliquid novi" (Sempre algo novo para fora da África) inspirou o curador Alfons Hug 

   A exposição reúne 18 artistas de oito países africanos e dois brasileiros - Arjan Martins e Dalton Paula na exposição Ex Africa. São 80 obras que apresentam o continente através de fotografias, pinturas, esculturas, performances, vídeos e uma instalação de grandes dimensões assinada pelo ganês Ibrahim Mahama. As obras abrangem raízes na cultura nativa, no cristianismo e no islamismo. Fortemente explorada ao longo de séculos, a África foi forçada a absorver elementos da cultura inglesa, francesa, portuguesa, hispânica e árabe. Na imagem acima, Non-orientable, de Ibrahim Mahama, em Londres, 2017. O artista, que utiliza aproximadamente dois mil caixotes de transporte de frutas para a montagem dessa instalação, transporta Gana para outros países através de sua obra.

 Mikhael Subotzky and Patrick Waterhouse, Janelas, Ponte City, projeção em Barcelona, 2016

Mikhael Subotzky and Patrick Waterhouse, Janelas, Ponte City, projeção em Barcelona, 2016

Eixos 

   Hug organizou a apresentação em quatro partes: Ecos da História, Corpos e Retratos, O Drama Urbano e Explosões musicais. “A arte contemporânea africana deu as costas a dois preconceitos longamente estabelecidos: de um lado o estigma do artesanato e da 'arte de aeroporto' e de outro as referências etnológicas. Ainda que não possam ser ignorados os efeitos do colonialismo, não deve ser subestimada a importância do intercâmbio artístico verificado na passagem do período colonial ao pós-colonial e, nesse contexto, a reação dos artistas em relação ao período que antecedeu a independência”, afirma o curador. 

 Jelili Atiku, Alaagba, performance (com Anne Letailleur), Berlin, 2014 / Foto de Chiara

Jelili Atiku, Alaagba, performance (com Anne Letailleur), Berlin, 2014 / Foto de Chiara

Ecos da História

   Neste eixo, o colonialismo destruidor aparece numa viagem no tempo. As obras sugerem reflexão amarga sobre a relação entre a pobreza, o desemprego, as recentes migrações e aspectos relacionados aos tempos dos navios negreiros.  São fotografias de Leonce Raphael Agbodjélou, artista do Benim. Em parte de sua obra, ele evoca o Code Noir, decreto em que a administração colonial francesa da África Ocidental regulava a escravatura. E da nigeriana Ndidi Dike sobre os navios negreiros, época impiedosa marcada pelo sofrimento humano e pela cobiça. 

 Yemi Alade, Johnny, vídeo

Yemi Alade, Johnny, vídeo

O drama urbano

   Os inúmeros contrates das metrópoles africanas estão nas obras deste setor da exposição. Destaque para a videoinstalação Ponte City, nome de um arranha-céu no centro de Joanesburgo, dos sul-africanos Mikhael Subotsky e Patrick Waterhouse. Ponte City é composta por 12 janelas digitais que simulam a vista do edifício marcado por histórias de decadência e gentrificação. Há também ilustrações de Karo Akpokiere, nascido em Lagos - uma das maiores cidades do mundo - na Nigéria. Akpokiere faz uma sátira aos anúncios publicitários que invadem as cidades e refletem desigualdades. 

Corpos e Retratos  

   O estilo inconfundível dos africanos que foram para a Europa nos séculos XVI e XIX aparece, numa estética corporal singular, em fotografias, vídeos e instalações. Estão neste eixo autorretratos do senegalês Omar Victor Diop; a série Hairdo Revolution (revolução do penteado), com fotografias em preto e branco do nigeriano Okhai Ojeikere; a arte multifacetada do angolano Nástio Mosquito, questionador, com a videoinstalação da música Hilário. 

Explosões musicais  

   Uma das galerias transforma-se no “Clube Lagos”. Poder, sexo, riqueza e religião são temas habituais da música africana e ganham relevância nesta sala onde o Naija Pop revela-se ao público. O New Afrika Shrine, de Femi Kuti, muito popular na cena nigeriana, também está entre os destaques. 

 Caio Plinio descreveu inúmero detalhes da África, uma sobrevivente aos ataques destruidores

Caio Plinio descreveu inúmero detalhes da África, uma sobrevivente aos ataques destruidores

Inspiração em Caio Plinio

   Com 1190 páginas, o livro de História Natural, reúne escritos do romano Caio Plinio (23 a 79 D.C.) - alguns terminados por seu sobrinho - e traduzidos por outros tantos. Ele detalhou inúmeros aspectos daqueles tempos e é considerado como uma referência aos estudos das ciências naturais. E como seria possível pensar em Natureza, sem falar da África ou até de formas de expressão humana na Terra?

 Obra do brasileiro Arjan Martins integram a mostra / Imagem cortesia Artista e Galeria A Gentil Carioca

Obra do brasileiro Arjan Martins integram a mostra / Imagem cortesia Artista e Galeria A Gentil Carioca

CCBB e África - Debate no RJ

   O Centro Cultural exibiu a exposição "Arte da África" (2003) - painel sobre o legado cultural africano. Desta vez o tema volta a ocupar a programação abrangendo teatro, música e eventos especiais. No dia 22 de janeiro, às 18h30, debate sobre a produção artística e os caminhos entre Brasil e África. Mediado pelo curador Alfons Hug, o debate terá a participação do artista egípcio Youssef Limoud e do brasileiro Arjan Martins, que participou de uma exposição no Brazilian Quarter de Lagos (Nigéria). 

"Ex Africa"
De outubro a dezembro de 2017- em cartaz no CCBB-BH
Abertura no Rio de Janeiro, dia 20 de janeiro ao público, às 10h
Dia 22 de janeiro, às 18h30, debate com o curador e dois artistas, CCBB-Rio
Término dia 26 de março, às 21h
Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro
Abril-CCBB-SP // Agosto-CCBB-Brasília

 

Basquiat na coleção Mugrabi

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MASP em 2018: histórias e narrativas afro-atlânticas

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