Obras de arte nos 70 anos do revolucionário biquíni

Obras de arte nos 70 anos do revolucionário biquíni

A exposição explora a força da menor peça do vestuário e os interesses em torno do ir à praia

   “Yes, nós temos biquíni” marca os setenta anos do traje que transformou o comportamento daquela simples ida à praia num desfile de moda. Foram décadas em que a praia tornou-se cenário de mudanças, conquistas, libertações e liberalidades – tudo com um olhar bem brasileiro. “O biquíni revolucionou o mundo, mas o Brasil revolucionou o biquíni”, afirma a curadora Lilian Pacce, jornalista especializada no segmento Moda. “A força de uma peça tão pequena como o biquíni brasileiro, basicamente quatro triângulos de tecido, está diretamente ligada ao emporaderamento feminino ao longo do último século e vai muito além da praia em si. A exposição pretende mostrar essas interfaces, seu impacto nas conquistas da mulher e o estilo de vida criado em torno dele”, completa Pacce. A Exposição apresenta 120 itens, entre peças de biquíni e obras em várias técnicas. Na fotografia acima, o traje da nadadora australiana Annette Kellerman, nos anos 1900.  

Biquíni cropped cintura alta hot pants, moda Verão 2017, é o modelo mais recente no Brasil

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Visão artística

   A exposição apresenta os aspectos sociais, históricos e culturais do biquíni no mundo da Moda e a sua devida apropriação pelos brasileiros, transformando-a em objeto de desejo do mundo todo. São 120 obras, entre looks icônicos e históricos de moda praia, fotografias, pinturas, esculturas, vídeos, ilustrações, instalações, artefatos históricos e amplo material iconográfico. Performances, debates e um ciclo de cinema também fazem parte da programação da Exposição.

História

   Os povos que habitaram a Terra no passado já usavam tangas, como as marajoara do período pré-colombiano. Na sociedade europeia, foi em meados da década de 1940 que surgiu na França o primeiro rascunho do biquíni.  Neste século, usa-se de tudo, dos cavadíssimos sensuais aos esportivos tipo blusinha e shortinho. Modelagens originais é a marca dos biquínis nas últimas décadas. “A moda, para além de seu propósito inicial que é vestir o corpo, sempre esteve relacionada a questões sociais, culturais, políticas e econômicas. Esta exposição traz uma diversidade, que sempre buscamos para a programação do Centro Cultural e apresenta um diálogo entre o elemento de maior representação brasileira na moda mundial com obras de arte contemporâneas que desafiam o visitante a interpretar essas associações”, comenta o gerente-geral do CCBB Rio, Fábio Cunha.

Passo a passo com Arte

   Atol de Bikini - O percurso da Exposição começa com uma explicação sobre a criação do engenheiro francês Louis Réard, que ousou diminuir a calcinha de cintura alta e revelar o umbigo da mulher – símbolo do vínculo e da ruptura entre duas vidas, zona erógena, centro do corpo humano e do mundo, como se percebe na obra Um.Bigo, de Lia Chaia. Réard queria que sua ideia fosse tão explosiva quanto os primeiros testes nucleares no atol de Bikini – daí surge o nome da peça. Ilustrando modas, modismo e rupturas, uma linha do tempo mostra a evolução do traje de banho, com peças originais desde o século XIX até hoje. Visuais que sintetizam a imagem de cada década assim como as mulheres que fizeram a fama do biquíni ao longo da história.

   Os Marajoaras - Na sala seguinte, o visitante descobre que historicamente, apesar de ser uma criação francesa, o crédito pela invenção do biquíni poderia caber aos índios brasileiros e sua forma de cobrir o corpo. Tangas marajoaras datadas do período pré-colombiano, cedidas pelo Museu de Arqueologia e Etnologia – USP, mostram que os trajes já eram usados por aqui muito antes do descobrimento, mas não eram percebidos como “roupa” sob o prisma da moral dos colonizadores portugueses. A sala se completa com obras de artistas nascidos em outros países, mas que escolheram o Brasil para viver, como Claudia Andujar, John Graz e Maureen Bisilliat, que representam o encantamento dos estrangeiros com nossa cultura, e também biquínis inspirados na cultura indígena.

   Corpo e Praia - Temas fundamentais nos dias atuais, o empoderamento feminino e questões ligadas aos padrões de beleza impostos pela sociedade fazem parte do debate proposto pela Exposição. A reflexão sobre o corpo e a praia acontece na próxima sala por meio do diálogo das obras de Marcela Tiboni, Claudio Edinger e Elen Braga com criações dos estilistas Amir Slama, Isabela Frugiuele (Triya) e Adriana Degreas, além da escultura de Tiago Carneiro da Cunha. Já a relação entre moda e arte é tratada pela inspiração mútua e parcerias inusitadas – Beatriz Milhazes, Glauco Rodrigues e Jorge Fonseca para Blue Man, J. Carlos para Salinas, Gonçalo Ivo e J. Borges para Amir Slama, Maria Martins para Adriana Degreas. No centro da sala, em destaque, Stripencores, obra de Nelson Leirner, de 1967, que ganha um quinto elemento criado especialmente para a mostra.

O artista Nelson Leirner, a modelo Mahany Pery, após performance, e a "Stripencores", criada em 1967 sobre a minissaia e recebeu um adendo especial para abordar o biquíni em 2017

O artista Nelson Leirner, a modelo Mahany Pery, após performance, e a "Stripencores", criada em 1967 sobre a minissaia e recebeu um adendo especial para abordar o biquíni em 2017

   Leirner incluiu um quinto manequim usando duas peças na instalação. “Onde estava a minha coragem nos anos 60? A minissaia era a grande sacada. Existe uma diferença de quase 50 anos entre uma peça e outra, o que nos faz parar para pensar quanta coisa mudou”, disse o artista sobre “Stripencores” que na abertura da exposição, no dia 17 de maio, ganhou releitura em forma de performance. A modelo Mahany Pery repetiu o processo da instalação do artista. Ela colocou um vestido longo, como o do primeiro dos quatro manequins na obra, e, enquanto circulava entre os convidados, retirava as camadas de tecido, até ficar só de biquíni. Para acompanhar o estilo, a curadora recebeu os convidados também de biquíni, saída de praia, canga e chinelos.

   Captura de imagens - A praia como território geográfico, social e até virtual surge em cenas do dia a dia nas imagens captadas pelas lentes de Alair Gomes, Cartiê Bressão, Fernando Schlaepfer, Frâncio de Holanda, German Lorca, Julio Bittencourt, Otto Stupakoff, Pierre Verger, Rochelle Costi,  Thomaz Farkas e Willy Biondani, além de vídeo de Janaína Tschape e de escultura de Eder Santos. Como contraponto, o trabalho elaborado por nomes que ajudaram a criar a identidade da moda praia brasileira (e projetá-la mundialmente) surge em imagens icônicas: Dalma Callado em foto que alavancou sua carreira internacional nos anos 1970, feita por Luiz Tripolli, e Gisele Bündchen clicada por Jacques Dequeker no início dos anos 2000, já famosa – e ainda Antonio Guerreiro, Bob Wolfenson, Claudia Guimarães, Daniel Klajmic, Klaus Mitteldorf, Marcelo Krasilic, Miro e Vavá Ribeiro.

   Especiais da Praia - Mas muito antes dos editoriais de moda, era o ilustrador e figurinista Alceu Penna quem “ditava” tendências na extinta revista “O Cruzeiro” com “As Garotas do Alceu”. A praia é vista também pelo traço das ilustrações de Carla Caffé, Filipe Jardim e Paulo von Poser. A sala traz ainda uma videoinstalação com grandes momentos da moda praia nas semanas de moda no Brasil, e uma série de manequins com biquínis e maiôs de caráter excepcional, seja pela construção, modelagem, material ou pela criatividade em si – prova de que o biquíni é a peça mais brasileira de todas.

   Qual é a sua praia? - Na última sala, o visitante é convidado a compartilhar experiências de praia, diante das obras de Cássio Vasconcellos, Katia Maciel e Leda Catunda – e da pergunta que fica: qual é a sua praia?

   A cenografia é assinada por Pier Balestrieri, com comunicação visual de Kiko Farkas, consultoria de arte contemporânea de Sandra Tucci, coordenação geral e produção executiva da Com Tato Agência Sociocriativa.  

Texto da curadoria 

   A jornalista Lilian Pacce tem construído carreira no setor da Moda no Brasil, cobrindo eventos e coordenando atividades do segmento. E, agora, cura esta Exposição. A seguir, o texto na íntegra assinado por Pacce: "Yes! Nós Temos Biquíni explora as conexões entre moda, arte, comportamento e história a partir do final do século 19, quando ir à praia era como tomar remédio: tinha apenas função terapêutica. Desde então, a praia se tornou um espaço democrático de lazer, onde convivem jovens e velhos, ricos e pobres, magros e gordos, atletas e sedentários, branquelos, bronzeados e gente de todas as cores com seus 'corpos de praia'.

   Acima de tudo, a exposição pretende mostrar a força da menor peça do vestuário feminino: o biquíni. E mais do que isso: o biquíni made in Brazil que, numa rara virada de jogo, se tornou objeto de desejo mundo afora. Apesar de ter sido criado na França, o Brasil se apropriou tão bem da peça que se tornou referência em moda praia; o Rio de Janeiro, seu melhor cenário, e a Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, sua maior musa, seguida pela modelo Gisele Bündchen.

   De um exemplar autêntico de 1895 (um vestido de lã com bloomer), passando pela conquista do maiô de perninha até chegar ao mínimo fio-dental, nota-se como os modelos de cada época refletem as respectivas conquistas da mulher – muitas vezes tema de grandes escândalos, seja com a atriz brasileira Leila Diniz expondo sua barriga de grávida num biquíni em 1971, seja com a prisão da nadadora olímpica australiana Annette Kellermann em 1907 por usar o então maiô masculino. A pesquisa deixa claro também que os protagonistas da história, tanto criadores como criaturas, não se deram conta da relevância de seus atos e do impacto que provocariam na sociedade e na arte ao longo do século 20.

   E através da arte, o biquíni ganha outras perspectivas. A exposição cria diálogos e contrapontos entre arte e moda, de onde surgem texturas, cores e emaranhados ao mesmo tempo que levam para a praia do Rio de Janeiro o despojamento, a diversão, o despudor, o corpo solto. A obra Stripencores de Nelson Leirner de 1967 ganha um quinto elemento, o biquíni, criado especialmente para a mostra.

   Os vários modos de estar e de ocupar estes territórios de liberdade que a praia, o sol, o mar e o biquíni permitem são retratados em obras de suportes variados como fotografia, pintura, escultura, vídeo, ilustração. De cada um deles surge uma interpretação, uma discussão ou o simples ato da contemplação.

   As paisagens, a natureza, o comportamento ao ar livre e a apropriação de espaços geográficos, sociais e até virtuais indicam que o biquíni pode se apresentar de muitas formas, mas sempre traz consigo a busca da liberdade feminina e sua relação com o próprio corpo."

“Yes, nós temos biquíni”
Dia 31 de maio, às 18h30, palestra “A Revolução Feminina na Areia”
Término dia 10 de julho de 2017, às 21h.
Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro
Adel Gonzaga apresenta obras em Braille no Benjamin Constant

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Mostra inclui inéditos do tcheco Jirí Trnka no Brasil 

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