“Gerações MASC” recebe Giovana Zimermann

“Gerações MASC” recebe Giovana Zimermann

Na última edição do evento em 2016, o Museu promove uma conversa sobre “Arte, Mito e Cura” 

Giovana Zimermann irá dividir com o público reflexões sobre sua trajetória artística e de que forma a Arte a levou a caminhos de reflexão sobre o mundo e as relações humanas, partes fundamentais de sua formação como indivíduo. "Não é incoerente dizer que meu trabalho está gestado em uma questão existencial e ligada ao feminino, mesmo sendo uma visão pessoal de uma realidade aparentemente externa. Então me pergunto: Por que me afeta? Por que reajo e gasto energia questionando as violências do mundo, em especial as que são cometidas contra as mulheres? Qual é a ferida que pretendo curar com meus empreendimentos artísticos?", diz Giovana. 

Exibição de audiovisuais 

A artista vai apresentar, durante o Encontro, alguns de seus audiovisuais, como Arte Pública em Florianópolis - A Praça XV como lugar praticado(2009 - 8 minutos); e Rio de Janeiro e Paris - A juventude apache do cinema na periferia (2015 - 8 minutos), baseados, respectivamente, em sua dissertação de mestrado e na tese de doutorado. Serão exibidos, ainda, trechos dos vídeos Da Janela (2009 - 15 minutos) e branCURA (2016 - 15 minutos). 

Uma História da Arte viva 

O objetivo do projeto “Gerações Masc – Museu em Movimento”, idealizado por Eliane Prudencio da Costa, é trazer ao público obra e autor através de eventos como palestras, debates, exibição de filmes e exposições. São convidados os próprios autores das obras, professores, críticos e curadores de Arte. O evento também convida alunos que estão em defesa de Tese. Além de promover a democratização do acesso aos bens culturais, o Masc está fortalecendo a História da Arte no Brasil. 

Giovana Zimermann, O Lugar do Outro, instalação, 2004

Giovana Zimermann, O Lugar do Outro, instalação, 2004

Arte, mito e cura social 

Ao convidar Giovanna Zimermann para encerrar o “Gerações Masc – Museu em Movimento” neste 2016, o Museu não poderia ter feito melhor escolha. A doutora tem desenvolvido profunda pesquisa na linguagem plástica contemporânea e promove desafios aos pensamentos com obras de arte, livros, vídeos. O Masc possui em acervo duas fotografias da série "O Lugar do Outro", de 2004, que fizeram parte de mostra realizada no Museu. Publicamos a seguir texto, na íntegra, da artista sobre a temática proposta nesta 18ª edição do evento no Museu.  

“Toda fala da experiência artística é um pouco mítica. Eu me pergunto muitas vezes o motivo dessa minha opção profissional. O fato é que todos os caminhos que me levaram a ser quem eu sou hoje, e me refiro ao ser humano que me tornei, aos valores que prezo, tem relação com a minha opção pela arte. Acredito que a arte nos possibilita experenciar a vida, e ao produzirmos coisas para o mundo (muitas delas que o mundo nem precisa, como nos alertou Andy Warhol), temos a oportunidade de formar nossos arquivos, gravar parte dos pensamentos, sentimentos, palavras, ideias, crenças, sensações e ações geradas por cada uma das experiências vividas, e que em um dado momento acreditamos serem merecedoras de se tornarem obras de arte. 

Há algum tempo, meu alvo vem sendo as políticas corporais que dão ênfase ao corpo, sua fragilidade e vulnerabilidade física: a dor, o medo, a morte. Em 1999 trabalhei em uma instalação intitulada Linhas cordas ou cordões umbilicais, um questionamento sobre morte vida. Em 2004, realizei uma mostra de fotografia intitulada O lugar do outro, cujas fotos fazem parte do acervo do Museu de Arte de Santa Catarina, uma abordagem sobre a delinquência na Infância e na juventude (que me levou a escrever uma tese, posteriormente). Dando sequência ao assunto, destaco um projeto de Arte Relacional, realizado no Presídio Feminino de Florianópolis, entre 2004 e 2005, intitulado Escreva a frase que te liberta, que iniciou colhendo depoimentos das mulheres em reclusão e finalizou com uma exposição de fotos no Museu da Imagem e do Som e um fórum para discutir o investimento na reinserção das mulheres no mercado de trabalho. No mesmo período fui afetada pelo depoimento de outra jovem mulher, sobre um estupro sofrido, que levou-me a escrever um roteiro ficcional de um curta-metragem intitulado Da Janela, 2009. 

Não é incoerente dizer que meu trabalho está gestado em uma questão existencial e ligada ao feminino, mesmo sendo uma visão pessoal de uma realidade aparentemente externa. Então me pergunto: Por que me afeta? Por que reajo e gasto energia questionando as violências do mundo, em especial as que são cometidas contra as mulheres? Qual é a ferida que pretendo curar com meus empreendimentos artísticos? 

Experimentar os afectos é, primeiramente, nos experimentar, ou seja, é desta maneira que formamos um primeiro conhecimento de nossa constituição. Torná-los visíveis, compartilhar esse exercício está ligado à capacidade de uma afecção que nos leva para uma potência maior de ser e agir no mundo. O enfoque psicanalítico da trilogia Os três tempos dá pistas dessa busca venturosa, fala de uma cura que está relacionada com os três tempos mencionados por Jacques Lacan: instante de ver (Da Janela); tempo para compreender (branCURA); e momento de concluir (A Cor da Liberdade). Ser sábio, é passar da paixão à ação, e, dessa forma, alcançar a "cura", a "transcendência", a liberdade. 

O que nos move no mundo envolve compromissos com temas que sempre nos foram caros e que ajudam a contar um pouco de nós. Talvez a capacidade de acessar esse registro nos possibilite alguma clareza de quem somos, pois ao fazer essa retrospectiva consigo ver que minha pesquisa poética se divide em: dor e harmonia. 

Ao longo desse período em que me dediquei à temas tão densos, também estive envolvida com muitos projetos lúdicos para a cidades (viabilizado pela Lei Municipal n.º 3255/89). Além deles me possibilitarem viver da minha arte, também auxiliavam na minha sanidade emocional, na minha crença na vida, na sociabilidade, naquele desejo original de bem estar social, que embora ainda distante dos estudos urbanos, já almejava em 89 quando elegi um texto messiânico, para uma exposição intitulada: "Fertilidade" 1998. "Do belo individual nascerá o belo social Relações pessoais e em grane escala, a política, a educação, as relações diplomáticas, enfim, tudo se tornará belo (...)" Mokiti Okada. 

O que era um desejo ingênuo e otimista foi potencializado com os autores dedicados a pensar o espaço público, no que se refere a construir uma cidade melhor a partir das nossas ações, fazer a diferença em nosso campo de atuação, como nos estimula Michel de Certeau. Ajudar efetivamente na construção da cidade considerando a sociabilidade e a harmonização da paisagem, foram iniciativas que almejei e tive algum êxito, em alguns projetos tive a sensação de não estar somente realizando sonhos privados em espaços públicos, mas que esses sonhos também poderiam ser coletivos, quando aceitos e adotados pelos habitantes da cidade.” 

Giovana Zimermann, O Lugar do Outro, fotografia, 2004

Giovana Zimermann, O Lugar do Outro, fotografia, 2004

Sobre a artista 

Giovana Zimermann é artista visual, cineasta e pesquisadora. Especialista em Linguagem Plástica Contemporânea UDESC (2000), Mestre em Arquitetura e Urbanismo PGAU/UFSC (2009), Doutora em Literatura PGL/UFSC (2015), Pós-doutoranda na Universidade Federal do Rio de Janeiro IPPUR/UFRJ (2015-2017). 

Autora do livro Rio de Janeiro e Paris: A Juventude Apache do Cinema na Periferia (2016) e dos curtas-metragens Da Janela (2009) 

e branCURA (2016), ambos premiados por editais de cinema do Estado de Santa Catarina. 

Participou de exposições nacionais e internacionais e possui obras nos acervos do Museu de Arte de Santa Catarina, Museu de Arte de Joinville, Museu de Escultura Casa João Turin (Curitiba - PR), Escola de Belas Artes de Salvador (BA) e Maison du Brésil (Paris - França). Faz parte do acervo de arte pública nas cidades de Florianópolis, São José, Berazategui (Argentina), Chinacota (Colômbia), Santiago (Chile), Recoleta (Chile) e na Casa de Cultura Pedro Aguirre Cerdá (Chile). 

“Gerações Masc – Museu em Movimento: Arte, Mito e Cura, com Giovana Zimermann” 
Dia 9 de dezembro, às 16h 
Museu de Arte de Santa Catarina
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