Homenagem a Anita Malfatti no centenário do Modernismo

Homenagem a Anita Malfatti no centenário do Modernismo

Com curadoria e concepção de Regina Teixeira de Barros, “Anita Malfatti: 100 anos de arte moderna” reúne 70 obras da artista no MAM São Paulo

  A exposição de pinturas e desenhos da artista, que é marco no século XX, promove um resgate da trajetória de Anita Malfatti e uma análise dos efeitos do Modernismo. “Após um século deste marco, já é tempo de reexaminá-lo à luz de uma abordagem ampliada, principalmente porque a contribuição de Anita para a história da arte moderna brasileira não se resumiu às inovações formais que apresentou em 1917”, afirma a curadora Regina Teixeira de Barros. Acima, "O homem de sete cores", 1915-16.

Pioneirismo

  A artista trouxe para o Brasil, depois de estudos na Europa e nos Estados Unidos, uma produção diferente do acadêmico da época. Ela apresentou uma individual – a primeira do modernismo - em dezembro de 1917, onde vendeu oito obras, mas enfrentou críticas severas de críticos conservadores como Monteiro Lobato. A individual mostrou 53 obras, sendo 28 pinturas de paisagem e retratos, dez gravuras, cinco aquarelas, além de desenhos e caricaturas. E, os seus trabalhos foram considerados extravagantes, pois ultrapassavam os entendimentos estabelecidos naqueles tempos. Anita foi pioneira e rompeu os limites que prevaleciam, exibindo suas obras modernas e construiu mudanças históricas que culminaram com a Semana de 1922.

Anita Malfatti, Grupo dos Cinco, desenho. 1922. A artista retrata ela mesma, no sofá;  Oswald e Menotti no chão e Tarsila e Mário ao piano. Modernistas, eles agitaram a sociedade conservadora no Brasil

Anita Malfatti, Grupo dos Cinco, desenho. 1922. A artista retrata ela mesma, no sofá;  Oswald e Menotti no chão e Tarsila e Mário ao piano. Modernistas, eles agitaram a sociedade conservadora no Brasil

Cem anos depois

  Esta exposição retrata a vasta produção da pintora, desenhista, gravadora e professora Anita Malfatti (1889-1964). Concebida pela curadora Regina Teixeira de Barros, a mostra faz uma homenagem ao centenário da exposição inaugural do modernismo brasileiro, a individual da artista. “Anita Malfatti: 100 anos de arte moderna” reúne desenhos e pinturas que ilustram retratos, paisagens e nus de três fases distintas da trajetória artística, fotografias e documentos da época - como cartas, convites e catálogos.

Análise do tempo

  A curadora Regina Teixeira de Barros preparou texto para a exposição resumindo os acontecimentos e indicando a importância da obra de Anita para a História da Arte. Publicamos o texto a seguir na íntegra: “Há cem anos, São Paulo assistia à inauguração da ‘Exposição de pintura moderna Anita Malfatti’, evento que alteraria para sempre o curso da história da arte no Brasil. Do conjunto ali reunido, chamavam especial atenção as paisagens construídas por meio de manchas de cores fortes e contrastantes, e, nos retratos, os enquadramentos insólitos, as deformações anatômicas, o colorido não naturalista. As extravagâncias expressivas – aos olhos dos matutos que, até então, só haviam tido contato com pinturas acadêmicas ou muito próximas disso – sinalizavam o impacto que a arte de vanguarda tivera sobre a artista durante o período de aprendizado na Alemanha (1910-1914) e nos Estados Unidos (1915-1916).

  Inicialmente, a mostra foi recebida com assombro e curiosidade: a visitação foi intensa, e Anita chegou a vender oito quadros. Mas a crítica de Monteiro Lobato ‘A propósito da exposição Malfatti’  – posteriormente conhecida como ‘Paranoia ou mistificação?’  – ecoou de forma negativa e, a partir de então, o nome de Anita ficou associado àquele do criador do Sítio do Pica-pau Amarelo. Cristalizou-se a ideia de que ela nunca se recuperaria desse incidente e que seu breve apogeu teria sido seguido de uma dolorosa e definitiva decadência.

Anita Malfatti, O Farol de Monhegan, 1915, óleo sobre tela

Anita Malfatti, O Farol de Monhegan, 1915, óleo sobre tela

  Após um século deste marco, já é tempo de reexaminá-lo à luz de uma abordagem ampliada do modernismo, principalmente porque a contribuição de Anita para a história da arte moderna brasileira não se resumiu às inovações formais que apresentou em 1917. Em vista disso, ‘Anita Malfatti: 100 anos de arte moderna’  inclui pinturas e desenhos que pontuam diversos momentos da produção desta artista, sempre sensível às tendências artísticas a sua volta. Para além do belíssimo conjunto expressionista que a consagrou como estopim do modernismo brasileiro, a exposição apresenta paisagens e retratos de períodos posteriores, como as refinadas pinturas naturalistas das décadas de 1920 e 1930, e aquelas mais próximas à cultura popular, presente nos trabalhos dos anos 1940 e 1950.

  A celebração de cem anos de arte moderna no Brasil é uma excelente ocasião para rever o legado de Malfatti como artista pioneira – inspiradora da Semana de Arte Moderna de 1922 –, cuja atualidade se prolongou tanto no radicalismo com que se lançou ao retorno à ordem, na década de 1920, quanto na ousadia com que se apropriou da ‘maneira popular’, nos últimos anos de vida. Trata-se, sem dúvida, de uma artista ímpar, sintonizada com seu tempo e com diferentes aspectos de um modernismo que ajudou a construir”.

Pesquisador encontra Diário de Anita

Desaparecido desde 1985, o Caderno contém muitas referências, como estudos de geometria

Desaparecido desde 1985, o Caderno contém muitas referências, como estudos de geometria

  Em fevereiro deste 2017, curiosamente, ao mesmo tempo em que se preparava esta exposição, o único diário de Anita Malfatti de que se tem notícia, escrito nessa mesma época, foi encontrado. O caderno de capa preta estava perdido desde 1985, quando foi usado como referência para a biografia “Anita Malfatti no Tempo e no Espaço”, da historiadora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, Marta Rossetti Batista, que faleceu em 2007. Ao analisar caixas do arquivo de Mário e Emilie Chamie, em busca de material para o projeto de pós-doutorado, o pesquisador Carlos Pires encontrou um envelope destinado a Marta Rossetti com o caderno de Anita Malfatti, no qual Pires identificou as passagens que a historiadora havia usado em seu livro. Os pesquisadores do IEB supõem que Marta Rossetti havia emprestado o caderno para que a designer — que organizou a parte gráfica da biografia de 1985 — pudesse desenvolver algum projeto, mas Emilie Chamie faleceu em 2000.

  No caderno, além do relato sobre a primeira exposição individual da artista, em 1914, quando ela mesma pendurou os quadros, há tudo que se permite a um diário e há exercícios de geometria, listas de palavras em alemão e inglês e esboços de desenhos mais livres. Sobre a individual de 1917, Anita revela detalhes do dia da abertura, como preocupações com sua apresentação, roupa, sapatos.

Dentro do Caderno, o passaporte de 1914, ano da primeira exposição individual de Anita

Dentro do Caderno, o passaporte de 1914, ano da primeira exposição individual de Anita

  Nas primeiras páginas deste diário, há estudos de perspectiva e língua alemã do período em que estudou em Berlim, entre 1910 e 1914, depois da morte do pai. Na Europa, entrou em contato com movimentos vanguardistas  e foi especialmente influenciada pelo expressionismo. Passada a estreia no Brasil, no final de 1914, Anita viaja a Nova York para estudar arte e finalmente consegue digerir as referências expressionistas que viu na Alemanha. Além disso, começou a produzir os quadros que fizeram parte de sua segunda exposição individual em 1917. A Edusp já divulgou que vai editar ainda este ano esse conjunto de textos escritos por Anita Malfatti, que mostrou-se observadora e vaidosa naquele início de século.

“Anita Malfatti: 100 anos de arte moderna”

Término dia 30 de abril de 2017, às 17h30

Museu de Arte Moderna, São Paulo

"Marcia de Moraes" traz panorama de desenhos da artista

"Marcia de Moraes" traz panorama de desenhos da artista

Pinturas de Ropre expõem violência social em “Cadafalso”

Pinturas de Ropre expõem violência social em “Cadafalso”