MAM Rio recebe a exposição “Gaudí: Barcelona, 1900”

MAM Rio recebe a exposição “Gaudí: Barcelona, 1900”

Com curadoria de Ramis e Villalba, mostra remonta cenário artístico da avançada Barcelona dos anos 1900

Os trabalhos são oriundos do Museu Nacional de Arte da Catalunha, do Museu do Templo Expiatório da Sagrada Família e da Fundação Catalunya-La Pedrera. São 46 maquetes, sendo quatro em escalas monumentais, 25 peças entre objetos e mobiliário criados pelo mestre catalão e 42 trabalhos de artistas contemporâneos de Antoni Gaudí (1852-1926).  

Gaudí, Maquete 

Gaudí, Maquete 

Estética única

O conjunto das obras reunidas de Gaudí nesta exposição testemunha a invenção de uma original geometria, calculada a partir de observação e estudo dos movimentos da natureza. Com este princípio, Gaudí instaura uma estética única, marcando definitivamente a cidade de Barcelona. Os curadores optaram por destacar especialmente os processos construtivos dos projetos de Gaudí, apresentando modelos tridimensionais que ressaltam detalhes arquitetônicos. “Gaudí esteve, claro, ligado ao modernismo catalão, mas algo mudou radicalmente em sua concepção arquitetônica para dialogar menos com estilos e mais com as formas orgânicas”, diz Ramis, mostrando como as colunas arborescentes inclinadas e as abóbadas baseadas em paraboloides da Sagrada Família buscam imitar formas que estão na natureza – e trazem em sua matemática rigorosa as marcas da geometria. O curador Raimon Ramis é historiador da Universidade Autônoma de Barcelona, desde 2013, e mora no Chile, onde orienta a construção da capela de Santa Maria de los Ángeles de Rancagua, idealizada por Gaudí em 1922 e única obra do arquiteto fora da Espanha.

Gaudí, Maquete

Gaudí, Maquete

Sagrada Família

Gaudí era católico, rejeitou as formas do gótico, projetando 18 torres -12 (uma para cada apóstolo), uma para Jesus, outra para Maria e mais quatro para representar os evangelistas. Por ser considerada sua obra-prima, a Sagrada Família é a mais representada na mostra por meio de maquetes. O templo, inacabado, tem conclusão prevista para 2026.

Trencat

Gaudí usou e consagrou a técnica decorativa conhecida como trencadís (do catalão trencat, que significa quebrado, por usar cacos). Essa técnica marcou definitivamente o modernismo catalão, movimento que, entre 1880 e 1930, renovou a arquitetura, o design, a pintura e a escultura. Os cacos eram recolhidos por seus assistentes em outras obras, numa forma pioneira de uso de sobras das construções.

Gaudí usou cacos de restos de obras, consagrando essa técnica

Gaudí usou cacos de restos de obras, consagrando essa técnica

Impressionistas

A mostra é dividida em dois núcleos: no primeiro estão os artistas contemporâneos de Gaudí que ajudaram a construir o modernismo catalão, pintores como Isidre Nonell, Ramón Casas e Santiago Rusiñol, influenciados pelos impressionistas franceses, além de escultores como Josep Llimona i Bruguera, que também passou por Paris e foi marcado pela visão de Rodin. No segundo núcleo estão as obras de Gaudí, representadas por reproduções fotográficas, maquetes e estudos de época para o desenvolvimento de seus arcos parabólicos catenários aplicados à arquitetura.

Móveis e objetos

No Design, a exposição apresenta móveis e objetos, que vão de maçanetas de metal a peças em cerâmica e madeira, revelando como a criação artesanal conseguiu fundamentar a indústria. Com o objetivo de mostrar àquele período quando a capital da Catalunha surge como projeto moderno de cidade, os curadores selecionaram obras dos ensembliers – como eram chamados os artesãos de alto nível - como Gaspar Homar ou Joan Busquets. Essas obras decoraram e mobiliaram as casas da burguesia, especialmente daquela que atuou como mecenas dessa geração catalã.  
 

Gaudí, peça

Gaudí, peça

Texto dos curadores

A seguir, reproduzimos, na íntegra, a apresentação dos curadores Raimon Ramis e Pepe Serra Villalba para a exposição:

“Barcelona 1888 e 1929, duas exposições universais são realizadas em Barcelona, em torno da passagem do século XIX ao XX. A cidade transforma-se radicalmente no período entre esses dois eventos que serão os marcos de uma época dourada. A exposição de 1888 representa o despertar da letargia econômica e cultural iniciada após a Guerra de Sucessão que culminou com a submissão de Barcelona à Monarquia dos Bourbons, em 1714. No outro extremo, a exposição de 1929, às portas da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), que significou a perseguição e a proibição da singularidade cultural catalã.

Em 1888 a cidade acabava de se libertar do cinturão de muralhas. Em 1929 a sua expansão já é uma realidade, a planície de Barcelona está urbanizada e os povoados adjacentes como Sarrià, Gracia, San Martí de Provençals, Poble Nou etc. já estão plenamente integrados à cidade.

Em pouco mais de 4 décadas Barcelona torna-se um dos centros culturais da Europa, graças à sinergia entre a burguesia industrial, a política e os artistas. A arte catalã passa a fazer parte do debate estético europeu.

Nessa frutífera Barcelona desenvolve-se o modernismo catalão, movimento irmão do Art Nouveau francês, do Modern Style inglês e do Sezessionstil de Viena. Todos eles nascem da idealização da tradição medieval e de um olhar sobre a natureza. São consequência do Romantismo e de outros movimentos paralelos como o Simbolismo, o Pré-rafaelismo e o Orientalismo que se desenvolviam na Europa do século XIX.

O Modernismo catalão tem a singularidade de nascer paralelamente à criação de uma identidade cultural nacional catalã. É a base da Catalunha moderna. Muitos são os artesãos e artistas que graças a essa comunhão social puderam criar e pesquisar linguagens e técnicas artísticas em todos os campos.

Embora unidos na reinvindicação da natureza e da subjetividade, esta é representada em múltiplas formas de ver e de entender a arte. Uns mais ligados aos preceitos românticos, outros ao simbolismo, em alguns já aparecem elementos funcionalistas e racionalistas etc. Entre todos eles sobressai, por sua singularidade, o já universal Gaudí.

Gaudí é, e foi, um personagem singular. Aparentemente contraditório, suas ideias e seu modo de fazer não se desprendem da tradição, mas abrem as portas a conceitos arquitetônicos considerados modernos até hoje. Em vida foi uma pessoa pouco dada ao trato social, a ponto de converter-se em um eremita da arquitetura, enclausurado em sua obra maior que é a Sagrada Família. De 1914 até sua morte, em 1926, Gaudí trabalhou e viveu única e exclusivamente na Sagrada Família, e para ela.

Como no caso de tantos outros gênios, seu isolamento não impediu que a obra fosse centro de múltiplas polêmicas: odiada por alguns, admirada por muitos. A sua experimentação técnica e formal, sua capacidade de absorver e reelaborar as teorias estéticas e arquitetônicas, fizeram dele um arquiteto de densidade única, difícil de repetir. Em suas obras está condensado o debate artístico da mudança de século junto à depuração de uma linguagem arquitetônica única”.

Gaudí, Sagrada Família, detalhe, Barcelona

Gaudí, Sagrada Família, detalhe, Barcelona

MASC fortalecido 

Através de um acordo fechado entre o Tomie Ohtake e o Museu de Santa Catarina, a exposição estreou no MASC em 2016, fortalecendo o Museu para participações em rotas de grandes exposições internacionais. Ainda em 2016, a exposição foi exibida em São Paulo, sendo comemorativa dos 15 anos de fundação do Tomie Ohtake.

“Gaudí: Barcelona, 1900”

Abertura dia 16 de março

Término dia 30 de abril, 17h

Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro

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