MASP em 2018: histórias e narrativas afro-atlânticas

MASP em 2018: histórias e narrativas afro-atlânticas

Monocromática de Tunga encerra o ciclo de histórias da sexualidade de 2017

   Antes de iniciar o novo ciclo de exposições de 2018, o MASP encerrará com Tunga o ciclo que abordou durante 2017 temas que envolvem sexualidade e erotismo. No detalhe acima, obra de Rubem Valentim, Composição 12, 1962, que é apresentada na íntegra ao final desta postagem. Isabella Rjeille e Tomás Toledo assinam a curadoria da exposição “Tunga: o corpo em obras” que passeia pela trajetória do artista. Os curadores avisam que não é uma retrospectiva. Eles optaram por um recorte com foco específico na maneira como o artista trabalhou a sexualidade e o erotismo ao longo de sua carreira. A organização não é cronológica e apresenta obras emblemáticas como Vê-nus (1976), Tacape (décadas de 1980 e 1990), a série Eixos exógenos (1986-2000), um conjunto de Tranças (décadas de 1980 e 1990), a série Morfológicas (2014) e desenhos inéditos. A expografia é da Metro Arquitetos Associados. 

Tunga, Vê-nus, 1976, borracha, corrente de ferro e energia elétrica, 150 x 250 x 190 cm     Acervo Tunga, Rio de Janeiro/ Doug Baz

Tunga, Vê-nus, 1976, borracha, corrente de ferro e energia elétrica, 150 x 250 x 190 cm     Acervo Tunga, Rio de Janeiro/ Doug Baz

   São pelo menos oitenta obras do artista pernambucano, incluindo instalações, objetos e desenhos, percorrendo o início da carreira em 1970 até 2016 realizadas a partir de materiais dos mais variados como bronze, cobre, latão, madeira, papel e borracha. Tunga explorava conhecimentos também diversificados referenciando-se em literatura, filosofia, psicanálise, química, biologia e alquimia. A exposição encerra o programa anual de 2017 do MASP, dedicado à  sexualidade, e que contou com exposições individuais das artistas Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Tracey Moffatt, Guerrilla Girls e dos artistas Miguel Rio Branco e Toulouse-Lautrec, além da mostra coletiva, Histórias da sexualidade, seminários e oficinas em torno do assunto.

O artista

    Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, conhecido como Tunga, foi um escultor, desenhista e artista performático brasileiro e desenvolveu carreira no Brasil e no exterior entre a década de 1970. Nasceu em 1952, em Palmares, Pernambuco e faleceu em junho de 2016.

Tunga, Les bijoux de Madame de Sade, 1983, resina epoxi, dimensões variáveis                 Acervo Tunga, Rio de Janeiro/ Jorge Bastos

Tunga, Les bijoux de Madame de Sade, 1983, resina epoxi, dimensões variáveis                 Acervo Tunga, Rio de Janeiro/ Jorge Bastos

2018: a presença marcante da África no MASP

   Entre coletivas e individuais, nove mostras já estão confirmadas para 2018. Todas foram idealizadas e serão produzidas pela equipe curatorial e demais núcleos do MASP. O tema é providencial. 2018 marca os 130 anos da Lei Áurea, uma das últimas estabelecidas pelo Império Brasileiro, que aboliu oficialmente a escravidão e que apesar de todas as discussões históricas que envolvem o episódio não deixa de ser um foco temático para se tratar das histórias e narrativas africanas que influenciam diretamente todos os outros continentes, particularmente a América e a Europa desde o século 16.

   Mas, especialmente o Brasil é um território assolado pela africanidade aonde a escravidão estabeleceu-se por pelo menos três séculos, tendo ficado na história como o último a abolir a escravidão, em 1888. E mesmo assim, ainda, num contexto em que o regime manteve-se imposto aos que vinham na condição de escravos e não tiveram nenhuma oportunidade social de se refazerem - que era a situação, de então, da maioria dos escravos. 

   A grande mostra coletiva Histórias afro-atlânticas que integra o cronograma de exposição de 2018 no MASP é co-organizada com o Instituto Tomie Ohtake e está prevista para junho. 

   Ao longo do ano, o programa inclui monográficas de artistas negros ou que trabalham com representações de temas afro-atlânticos de diferentes origens e gerações. No primeiro semestre, em março, estão programadas as mostras de Aleijadinho e Maria Auxiliadora da Silva; e em abril, de Emanoel Araújo. No segundo semestre, em agosto, acontecem as individuais de Melvin Edwards e Rubem Valentim; em novembro, Sonia Gomes e Pedro Figari; e em dezembro, Lucia Laguna. 

   O ciclo em torno das Histórias afro-atlânticas está inserido em um projeto mais amplo de exposições, palestras, oficinas, seminários e atividades do MASP, que atenta para histórias plurais, que vão além das narrativas tradicionais, tais como Histórias da loucura e Histórias feministas (iniciadas em 2015), Histórias da infância (em 2016) e Histórias da sexualidade (em 2017).

Especial Basquiat foi cancelado

   A respeito da exposição Basquiat afro-atlântico, prevista para ocorrer de março a julho de 2018, o MASP optou por seu cancelamento, devido ao anúncio de uma monográfica do mesmo artista, uma retrospectiva a partir do dia 25 de janeiro no Centro Cultural São Paulo. Apesar de Basquiat afro-atlântico ter sido concebida em 2016 e já contar com a confirmação de importantes empréstimos de grandes instituições internacionais, o Museu divulgou que “a realização de duas exposições do mesmo artista, que demandam alto investimento de recursos, no mesmo ano, seria um desserviço à população de São Paulo e um mal-uso de recursos incentivados”.

Um pouco de cada individual 

Março a junho de 2018 - Aleijadinho - Curadoria: Rodrigo Moura

   A exposição de Antônio Francisco Lisboa, conhecido como Aleijadinho (Vila Rica, atual Ouro Preto, Minas Gerais, 1738 - 1814) pretende reunir, de maneira inédita, uma grande apresentação da obra desse artista negro, considerado um dos principais expoentes do barroco brasileiro. A mostra conta com empréstimos de alguns museus e congregações religiosas, que, além de esculturas devocionais, inclui também trabalhos de outros artistas que retratam a formação do mito Aleijadinho ao longo dos séculos 19 e 20. A exposição lança um olhar renovado sobre a produção desse artista, ao incluí-la no contexto das histórias afro-atlânticas, relacionando-a com temas como raça e escravidão no Brasil.

Maria Auxiliadora da Silva, Velório da Noiva, 1974

Maria Auxiliadora da Silva, Velório da Noiva, 1974

Março a junho de 2018  - Maria Auxiliadora da Silva - Curadoria: Adriano Pedrosa e Fernando Oliva

   A exposição sobre a artista Maria Auxiliadora da Silva (Campo Belo, Minas Gerais, 1935 - São Paulo, 1974) reúne cerca de 70 pinturas, apresentadas sob diferentes agrupamentos, como “vida cotidiana”, candomblé/umbanda/orixás”, “manifestações populares”, “auto-retratos” e outros. Maria Auxiliadora da Silva foi uma artista autodidata afro-brasileira. Começou a desenhar com carvão ainda na adolescência, depois passando para a pintura a óleo, que praticou até o final da vida. A artista desenvolveu uma técnica própria, baseada na mistura de massa de poliéster com o próprio cabelo, dando assim origem a volumes e texturas em suas telas. A exposição de Maria Auxiliadora se insere no contexto do programa de revisão da produção de alguns artistas que, por diversos motivos, não tiveram suas obras incluídas nas narrativas hegemônicas da arte brasileira.

Abril a julho de 2018 - Emanoel Araújo - Curadoria: Tomás Toledo

   Nome fundamental do cenário artístico brasileiro, o curador e artista Emanoel Araújo (Santo Amaro, Bahia, 1940) iniciou sua produção em arte na década de 1960. Sua obra, fundamentalmente escultórica, é caracterizada pelo construtivismo geométrico e pela influência de temáticas afro-brasileiras. A exposição de Emanuel Araújo dá ênfase aos trabalhos que lidam com as simbologias das religiões afro-brasileiras, como as diversas esculturas que representam orixás do candomblé, e com obras que tematizam as relações afro-atlânticas, presentes em sua série de navios negreiros.

Junho a outubro de 2018 - Histórias afro-atlânticas - Curadoria: Adriano Pedrosa, Ayrson Heráclito, Hélio Menezes, Lilia Schwarcz e Tomás Toledo

   O Museu de Arte de São Paulo e o Instituto Tomie Ohtake organizam, em conjunto, a exposição Histórias afro-atlânticas, que reúne uma ampla seleção de obras de arte e documentos relacionados aos “fluxos e refluxos” (usando a famosa expressão de Pierre Verger) entre a África, as Américas, o Caribe e também a Europa. Contemplando trabalhos do século 16 ao 21, a mostra inclui uma variedade de temas que organizam seus diversos núcleos, alguns dos quais estavam presentes em Histórias mestiças, exposição com curadoria de Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz apresentada no Instituto Tomie Ohtake, em 2014: retratos, vida cotidiana, viagens e tráfico, punições e revoltas, festas e religiões, liberdades e abolições, ativismos, abstrações e modernismo africano. Dois seminários foram realizados no MASP sobre o assunto, o primeiro em 28 e 29 de outubro de 2016, o segundo em 21 e 22 de outubro de 2017, reunindo especialistas em vários domínios e temas, como história da arte, sociologia, história e antropologia. Um terceiro seminário acontecerá no Instituto Tomie Ohtake durante a exposição.

Agosto a novembro de 2018 - Melvin Edwards - Curadoria: Rodrigo Moura / Rubem Valentim - Curadoria: Adriano Pedrosa e Fernando Oliva

   A exposição de Melvin Edwards (Houston, Texas, Estados Unidos, 1937) vai reunir obras de sua célebre série Lynch Fragments, produzida desde os anos 1960 até hoje. Nessas esculturas de parede, o artista reúne diversos objetos em metal, como correntes e ferramentas de trabalho, para lidar com questões como raça, violência, trabalho e escravidão, especificamente no contexto da diáspora africana. Esta será uma importante mostra em profundidade do artista, considerado uma das principais referências entre artistas afro-americanos em atividade. 

   A exposição em torno da obra de Rubem Valentim (Salvador, 1922 - São Paulo, 1991) reúne cerca de 60 trabalhos com o propósito de rever a produção desse fundamental artista brasileiro do século 20, responsável por promover potentes articulações entre os elementos da tradição ocidental e as raízes africanas da cultura brasileira. Pintor, escultor e gravador, Rubem Valentim cresceu em contato íntimo com a religiosidade sincrética afro-brasileira: sua família era católica, mas o artista também frequentava terreiros de candomblé. Já adulto, Valentim relataria seu deslumbramento tanto com os ritos afro-brasileiros quanto com a imaginária das igrejas cristãs, especialmente os santos barrocos. Nas obras de Valentim há uma interpenetração muito sutil e precisa entre a estrutura de base construtiva e a iconografia e o colorido herdados do universo mágico e religioso afro-brasileiro. Nesse sentido, podemos dizer que Valentim é um dos artistas que, de maneira mais completa e ambiciosa, realizou o desejo antropofágico da cultura brasileira – a ideia, lançada pelo poeta Oswald de Andrade no final dos anos 1920, que propunha “deglutir” o legado cultural europeu, “digeri-lo” e então devolvê-lo ao mundo sob a forma de uma arte tipicamente brasileira.

Novembro de 2018 a fevereiro de 2019 - Sonia Gomes - Curadoria: Camila Bechelany / Pedro Figari - Curadoria: Adriano Pedrosa e Mariana Leme / 

   As esculturas e instalações de Sônia Gomes (Caetanópolis, Minas Gerais, 1948) são feitas a partir de materiais residuais, principalmente têxteis e outros objetos diversos. Ela constrói estruturas envolvidas ou inteiramente construídas de tecidos, muitas vezes antigos, e originários do acervo familiar. Caetanópolis, cidade natal de Gomes, é importante centro de manufatura têxtil e a infância da artista foi marcada pelo universo da costura e do bordado. Sua produção visual remete a práticas artesanais brasileiras: as amarrações, nós, patuás, trouxas e tramas que compõem o trabalho lembram detalhes de vestimentas que encontramos em festas populares, como a folia de reis e o congado – expressões culturais afro-brasileiras – mas também à tradição de bordadeiras e rendeiras de Minas Gerais, todos parte de sua formação artística.

   Pedro Figari (Montevidéu, Uruguai, 1861-1938), artista branco, é um dos grandes representantes do modernismo uruguaio, unindo, em sua pintura, um estilo muito particular de gestos, manchas e movimento, e um desejo de explorar uma América Latina autônoma, baseada em suas raízes históricas e étnicas. Neste sentido, Figari atuou durante grande parte de sua vida como advogado de destacada voz pública, defendendo temas ligados aos direitos humanos, à educação e à arte. Foi diretor da Escola de Artes e Ofícios em Montevidéu e ali defendeu a fusão entre indústria e arte com uma identidade latino-americana, visando fomentar “a mentalidade nacional com critérios próprios”. Aos 60 anos passa a se dedicar à pintura, retratando o passado do país, com cenas cotidianas, casamentos, bailes, paisagens e festas populares, sobretudo das comunidades afro-uruguaias. Destacam-se, em suas pinturas, representações do candombe, dança de origem afro-americana que se praticava em grupo – sendo que uma das mais significativas desse conjunto faz parte do acervo do MASP. O foco da exposição será o das narrativas afro-uruguaias: além das danças do candombe, estarão expostas representações de festas negras, cenas de trabalho, passeios, entre outros, retratando a expressiva presença dessa população em seu país.

Dezembro de 2018 a março de 2019 - Lucia Laguna - Curadoria: Isabella Rjeille

   A paisagem é o ponto de partida das pinturas de Lucia Laguna (Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, 1941). Da janela de seu ateliê no bairro São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, as telas de grandes proporções, com elementos da cidade, misturam-se a formas abstratas e representações de objetos do interior da casa da artista. A sobreposição de camadas e técnicas distintas de pintura é uma característica fundamental na produção de Laguna, revelando um processo lento e minucioso. A artista iniciou sua carreira de pintora após frequentar os cursos de pintura e história da arte na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, nos anos 1990.

Rubem Valentim, Composição 12, 1962

Rubem Valentim, Composição 12, 1962

"Tunga: o corpo em obras" 
Abertura dia 15 de dezembro
Término dia 11 de março de 2018
Museu de Arte de São Paulo, 2º subsolo
"Ex Africa" reúne visões do continente

"Ex Africa" reúne visões do continente

Obra de Athos Bulcão em resumo no Recife 

Obra de Athos Bulcão em resumo no Recife