Megamostra reúne a recente Pintura brasileira

Megamostra reúne a recente Pintura brasileira

“A luz que vela o corpo é a mesma que revela a tela” reúne trabalhos realizados a partir do final dos anos 1990

São cem obras de 36 artistas num recorte heterogêneo que mescla renomados com alguns menos recorrentes em exposições. Na reprodução acima, "Aopkhes", de Alexandre Mury. A proposta é revelar como a Pintura é contaminada pelo pensamento de seu tempo e como prossegue viva comentando as questões do mundo atual. A curadoria é assinada por Bruno Miguel com assistência de Vitor Mizael. Ambos são artistas e também participam da mostra.

Montagem em grupos

A exposição se divide em questões que estabelecem relações subjetivas entre os pintores, convidados a exibir o resultado de suas investigações e experimentações.

“O individuo social”

Thiago Martins de Melo

Éder Oliveira

Dalton Paula

Marcelo Amorim

Bruno Belo, Passante, 2016

Bruno Belo, Passante, 2016

“Narrativas outras”

Bruno Belo

Camila Soato

Victor Mattina

Ana Prata

“Em Ruínas”

Alan Fontes

Alvaro Seixas

Rodrigo Martins

Gustavo Speridão

Caio Pacela, 2015

Caio Pacela, 2015

“Corpo Fim”

Caio Pacela

Fabio Magalhães

Alexandre Mury

Makh Hanamakh

Ana Elisa Egreja, Cantinho João, 2013

Ana Elisa Egreja, Cantinho João, 2013

“O Belo e não”

Paloma Ariston

Ana Elisa Egreja

Pedro Varela

Rafael Carneiro

“Imagem-margem-poesia”

Julia Debasse

Bruno Dunley

Sidney Amaral

Paulo Nimer Pjota

Makh Hanamakh, Sem título

Makh Hanamakh, Sem título

“Habitat”

Marina Rheinghantz

Gisele Camargo

Mariana Palma

Vitor Mizael

“Deus ex”

Bruno Vilela

Gabriel Secchin

Mariana Leico

Rafael Alonso

“Transborde”

Bruno Miguel

Rodrigo Torres

Marcone Moreira

Paulo Almeida

Victor Mattina, Ocaso, 2016

Victor Mattina, Ocaso, 2016

Experimentações

“O fato de terem suas pesquisas desenvolvidas e afirmadas após o surgimento da internet não é um dado conceitual e sim um recorte curatorial para investigar um momento específico da história da pintura brasileira, da arte e do mundo”, explica o curador, que cita Borges na abertura do seu texto sobre a mostra: “Por vezes à noite há um rosto/Que nos olha do fundo de um espelho/E a arte deve ser como esse espelho/Que nos mostra o nosso próprio rosto”. Abaixo a íntegra do texto de Bruno Miguel:

“Obras de arte não podem mudar o mundo, mas podem mudar pessoas.

Seria ingênuo acreditar que, hoje, num tempo de excessos, uma obra sozinha, poderia ser o estopim de uma revolução, política, social, moral ou espiritual. Pelo menos não de maneira direta e linear. E no caso da pintura então, algum pintor teria, em 2016, a expectativa sincera, de que seu trabalho possa implodir sistemas? Porém todo artista, do mais pragmático e profissional ao mais romântico e utópico, guarda dentro de si um segredo, e nem sempre de forma consciente. Uma sensação de divindade intelectual, um sentimento de invenção, que o faz crer ser capaz de comover, impactar, transformar e fazer pensar, àqueles que se permitirem adentrar suas obras e suas ideias.

A pintura não vai mudar a sociedade, mas continuará pretensiosa. Uma observadora por vezes silenciosa, mas dificilmente indiferente a tudo que a cerca. Sua essência quase ritualística, a constitui um algo de sagrado, que a sublima e a protege, como que numa área vip, no camarote da produção de imagens da pós-modernidade. O tempo de maturação de um artista não acompanha a velocidade de produção de conteúdos da contemporaneidade. É um tempo outro, paralelo à vida.

O conceito de aura, apropriado por Walter Benjamin, é definido como “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante por mais perto que ela esteja.” Tal conceito compreende, basicamente, três noções relativas à obra de arte: originalidade, autenticidade e unicidade, que correspondem a certos princípios. Em relação ao princípio do "aqui e agora", "hic et nunc", são considerados a presença física e o local de origem que garantem a unicidade da obra de arte, que também se relaciona à sua duração material, sua inserção na tradição e seu testemunho histórico. Também está diretamente ligada a uma idéia religiosa de aura, dando à obra de arte um caráter de objeto a ser cultuado. Ou seja, o conceito de aura diz respeito, basicamente, a uma existência única da obra de arte; portanto, concluí-se que ela não existe em uma reprodução. A pintura transborda aura!

Essa condição permite que a pintura, como objeto físico, ainda resista frente à efemeridade da produção de imagens e conteúdos, virtuais, mecânicos, comerciais e industriais. E, como imagem, se aproveite das possibilidades de circulação que as novas redes proporcionam. Alcançando assim horizontes mais distantes que as paredes dos museus ou os livros de arte.

A mostra é dividida em nove “temas”, cada um com um grupo de obras selecionadas de quatro pintores, que têm em comum o fato de terem suas pesquisas desenvolvidas e afirmadas após o surgimento da internet. E esse não é um dado conceitual de suas obras, mas sim um recorte curatorial para investigar um momento específico da história, mais que da arte, do mundo. Em cada tema, na escolha das obras e artistas, as questões se apresentam muito mais a partir de contrastes e contradições do que de afinidades. Como num jogo de interfaces contemporâneas, o ritmo da exposição se desenha nos processos híbridos de criação.

Esta exposição pretende mostrar como a pintura é pensamento contaminado pelo seu tempo e como prossegue viva comentando as questões do mundo contemporâneo. Para Michel Foucault, todas as lutas são igualmente centrais, porque cada um de nós é o centro de sua própria vida, porque a vida social é dispersa, e como não há hierarquia na política, as lutas são equivalentes. Portanto é preciso ser sempre combativo e vigilante. Essa generosidade é um dos princípios da pintura na contemporaneidade. Questões globais, regionais, individuais, sociais, técnicas, de linguagem, banais ou superficiais têm o mesmo direito de atenção. Muita atenção. Mas esse agradável fardo, a pintura há de continuar levando. O tempo da pintura corre desacelerado, mas sincronizado com o resultado da equação atelier / mundo. A pintura persiste afirmando nas entrelinhas, no subjetivo, na poesia conceitual que a imagem pura não é capaz de comportar.

A sombra trêmula da caverna de Platão, a mesma projetada pela vela de um velório, que reza o corpo agora sem alma, mas ainda carregado de aura, essa luz inconstante, mas sagrada, é a mesma que revela a tela. É uma luz que reflete o presente, relembrando o passado e aguardando que o amanhã possa ser um pouco melhor.”

A mostra é uma produção de ADUPLA, formada por Anderson Eleotério e Izabel Ferreira, responsável por várias importantes publicações e exposições itinerantes pelo Brasil, como Athos Bulcão, Milton Dacosta, Carlos Scliar, Henri Matisse e Bandeira de Mello, entre outros trabalhos que têm valorizado a Cultura.

“A luz que vela o corpo é a mesma que revela a tela”
Abertura dia 14 de janeiro, às 17h
Lançamento do catálogo e visita guiada com Bruno Miguel, dia 18 de fevereiro, às 17h
Término dia 12 de março, às 21h
Caixa Cultural, Rio de Janeiro
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