“Moderna para Sempre” remonta universo fotoclubista brasileiro

 “Moderna para Sempre” remonta universo fotoclubista brasileiro

Há sete anos, a Exposição cumpre rota itinerante e já passou em 14 cidades

   Com curadoria assinada por Iatã Cannabrava, reconhecido fotógrafo, editor e produtor cultural, a exposição “Moderna para Sempre” está em cartaz por tempo limitado no grandioso Palácio Anchieta, em Vitória. São obras pertencentes ao acervo da Coleção Itaú Cultural - em recorte de 118 imagens datadas entre as décadas de 1940 e 1970 – de mestres como José Yalenti, José Oiticica Filho, Geraldo de Barros, Marcel Giró, Thomaz Farkas, German Lorca, Ademar Manarini, Paulo Pires, Mario Fiori e Eduardo Salvatore. O pesquisador Cannabrava focou na importância do movimento Modernista para a Cultura e identidade brasileiras e avisa que incluiu obras ainda inéditas para o grande público, uma vez que ficavam restritas ao circuito fotoclubista. A exposição já esteve em cartaz em Fortaleza, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, Ribeirão Preto, São Paulo, Santos, Recife, Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro. No exterior, passou por Assunção (Paraguai), Cidade do México (México) e Lima (Peru). Na reprodução fotográfica acima de João L. Musa (Itaú Cultural), obra de Thomaz Farkas, "Bailarina do Balé da Juventude UNE”, 1947, Rio de Janeiro.

José Yalenti, Miragem

José Yalenti, Miragem

Raridades em destaque

   A mostra reúne obras como “Formas”, de 1950, de Eduardo Salvatore, que teve importante papel no cenário fotoclubista, sendo um dos fundadores do Foto Cine Clube Bandeirante, em 1939, em São Paulo, e que continua funcionando até os dias atuais (Rua Augusta, 1108 – Consolação - São Paulo – SP); a vintage, de data indefinida, “Sem Título”, do catalão que viveu exilado no Brasil Marcel Giró; “Elos”, 1950, de Mario Fiori; seis de José Oiticica Filho feitas entre 1949 e 1958, todas com a sua marca de forte contraste de claros e escuros e a relação entre pessoas, espaços vazios e a geometria, como em “Triângulos Semelhantes”, de 1949;  quatro de Osmar Peçanha (“Palmas”, de 1951, “Equilíbrio”, de 1960, “Estacas”, de 1981, e “Linhas”, de 1993); duas de Thomaz Farkas (muito ativo em participações no Bandeirante) “Energia”, de 1940, e “Bailarina do Balé da Juventude UNE”, de 1947, feita no Rio de Janeiro; e, retratando o abstrato-geométrico de Ademar Manarini há oito obras, como “Janelas II”, de 1953, “Sem título”, de 1950, “Passarela - Largo Ana Rosa”, de 1950, e “Composição”, de 1960; de Gertrudes Altschul, uma das raras representantes do gênero feminino no fotoclubismo a partir da década de 1940, estão “A Folha Morta”, de 1953, “Composição” (s.d) e “Composição II” (s.d). Juntam-se a essas obras as fotografias de Rubens Teixeira Scavone, Gaspar Gasparian, 11 fotos de German Lorca, Gunter E.G. Schroeder, Geraldo de Barros, Fabio Moraes Bassi, Paulo Pires e 23 fotografias de José Yalenti.

Paulo Pires, Sinfonia Industrial

Paulo Pires, Sinfonia Industrial

Fotoclubismo

   O fotoclubismo brasileiro teve início em São Paulo, no Foto Cine Clube Bandeirante, em 1939. Em geral, o Clube era composto por fotógrafos amadores que, livres das obrigações de um trabalho comercial, puderam experimentar e quebrar regras.  Nesses núcleos, surgiram obras de artistas como Geraldo de Barros, José Yalenti e German Lorca. Cannabrava explica que “nas imagens, encontramos as buscas por formas e volumes, abstracionismos e surrealismo, em uma evidente influência das antigas vanguardas europeias”. Os trabalhos destes artistas começaram pictorialistas, imitando os padrões da pintura do século XIX. Com o desenvolvimento da chamada Escola Paulista, “as obras parecem uníssonas, porque têm forte unidade temática, divididas em dois grupos: cidades ou formas, sejam elas geométricas, elaboradas ou simétricas. A partir deste momento, texturas, contraluzes, enquadramentos sóbrios, linhas, solarizações, fotomontagens, fotogramas, entre outros tópicos, passam a integrar o vocabulário criativo”, afirma Cannabrava.

German Lorca, Homem Guarda-Chuva

German Lorca, Homem Guarda-Chuva

Teia internacional

   A maioria dos membros dos fotoclubes era de imigrantes de origem europeia ou descendentes de refugiados das duas grandes guerras mundiais. Esses tinham um olhar otimista e de esperança no futuro, distante dos que ficaram na Europa focados nas dificuldades sociais. “Os fotógrafos modernistas brasileiros devoraram influências para criar uma nova fotografia, que teve como premissa uma leitura essencialmente criativa e de ruptura”, explica Iatã Cannabrava. Para o curador, este grupo se antecipou ao atual universo da internet de programas como Instagram, Facebook e Flickr, montando o que poderia ser chamado de primeiras redes sociais de que se tem conhecimento na área de Fotografia. Por meio de salões, catálogos e concursos, os fotoclubistas formaram uma teia internacional para a difusão da Fotografia.  

José Oiticica Filho, Triângulos Permanentes

José Oiticica Filho, Triângulos Permanentes

Sobre Iatã Cannabrava

   Fotógrafo, editor, curador e agitador cultural, Iatã Cannabrava possui três livros publicados – Casas Paulistas (2000), Uma Outra Cidade (2009) e Pagode Russo (2014) –, fotos nas coleções MASP-Pirelli, Galeria Fotoptica, Joaquim Paiva e MAM-SP e trabalhos publicados em oito livros de autoria coletiva. Atualmente é diretor do Valongo – Festival Internacional da Imagem, é idealizador e coordenador do Fórum Latino Americano de Fotografia de São Paulo e até 2016 foi diretor e realizador do Festival Internacional de Fotografia de Paraty – Paraty em Foco. Entre seus projetos permanentes estão o Madalena Centro de Estudos da Imagem, a Livraria Madalena e a Editora Madalena, junto com Claudia Jaguaribe e Claudi Carreras.

 O grandioso Palácio

   O Anchieta hoje é usado como sede do Governo Estadual desde o século XVIII. Guarda obras de arte com valores inestimáveis, que são Patrimônio do Estado do Espírito Santo. Construído pela Igreja Católica, pelos padres jesuítas, no século XVI, o Palácio abrigou o Colégio de São Tiago até 1760. Situado na Cidade Alta, de frente para a baía de Vitória, a construção guarda História e muitas curiosidades. Durante uma das reformas, foram encontradas ossadas de seres humanos nos terrenos, que suspeitam ser de fidalgos daqueles tempos passados. Em alguns períodos, o Colégio hospedou José de Anchieta, que dá nome ao prédio hoje. Ele costumava percorrer a pé o trecho de, aproximadamente, cem quilômetros, dali até o local onde hoje fica o município de Anchieta, no sul do Estado. Os restos mortais dele foram removidos para a Bahia, mas ficou um pedaço da tíbia, como relíquia no Palácio. A Arquitetura chama atenção como a única no Brasil que tem duas torres sineiras e um relógio. E com seu grande quadrilátero chegou a ocupar o lugar de maior construção do Estado do Espírito Santo. Possui a técnica do Esgrafito em seus prédios, sendo um dos quatro edifícios no Brasil a ter a técnica mourisca do século XVI.

Grandioso, o Palácio Anchieta mantém Espaço Cultural para receber exposições

Grandioso, o Palácio Anchieta mantém Espaço Cultural para receber exposições

Origem jesuítica

   Em 1524, nasce em Portugal, o padre Afonso Brás que ingressa na Companhia de Jesus em 1546. Em 1534, Inácio de Loyola funda, na França, a Companhia de Jesus, missão evangelizadora para fazer frente à Reforma Protestante. Nasce, aos 19 de março, ainda em 1534, nas Ilhas Canárias, Espanha, José de Anchieta, que ingressa na Companhia de Jesus em 1551 e chega ao Brasil em 1553. Neste movimento de jesuítas, Vasco Fernandes Coutinho começa oficialmente, em 23 de maio de 1535, a colonização espírito-santense. Afonso Brás chega ao Brasil em 1551, aportando e fundando Vitória (Vila Nova de Nossa Senhora da Vitória) em companhia de Simão Gonçalves. Dois meses depois, em 25 de julho, eles inauguram a construção primitiva da igreja de São Thiago, feita de madeira, barro e palha. Um incêndio destruiu esta primeira sede da Igreja e foi construída uma nova sede em pedra, no mesmo local da anterior, depois da perfuração de um poço de oito metros.

 “Moderna Para Sempre – Fotografia Modernista Brasileira na Coleção Itaú Cultural”
Término dia 25 de junho de 2017, às 16h
Espaço Cultural Palácio Anchieta, Vitória

 

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