Morre Ferreira Gullar, marco da cultura brasileira

Morre Ferreira Gullar, marco da cultura brasileira

Ele deixou no prelo Coletânea inédita de artigos publicados na Imprensa sobre Artes Plásticas

Ferreira Gullar (1930-2016) faleceu no dia 4 de dezembro, vítima de uma pneumonia. Não há palavras para descrever um conjunto de obra tão intenso como o que ele foi capaz de construir. Ele foi um marco da Cultura Brasileira. Poeta, escritor, teatrólogo, artista plástico, crítico de Arte, tradutor.  Seu último livro publicado foi "Autobiografia poética e outros textos", lançado este ano pela Editora Autêntica. Sua última exposição individual com obras inéditas esteve em cartaz de maio a junho na Galeria do BNDES, Rio de Janeiro.

Obra no prelo

Ferreira Gullar escreveu inúmeros artigos sobre Artes Plásticas que foram publicados somente na Imprensa. Uma Coletânea inédita, feita por ele mesmo, está sendo preparada para livro que será lançado pela Autêntica em 2017. Segundo a editora Maria Amélia Mello, a Autêntica vai reeditar o infantil "Doutor Urubu e outras fábulas" para lançar também no ano que vem.

De São Luís para o mundo

Gullar descobriu a poesia aos 19 anos ao ler poemas como os de Carlos Drummond de Andrade e de Manuel Bandeira ainda em São Luís, Maranhão, onde nasceu em 1930. E começou a escrever por uma linha experimental em que ele mesmo dizia que “a linguagem precisava ser inventada a cada poema". Em 1954, lançou o livro de poesias "A luta corporal" que atingiu repercussão nacional e foi associado ao surgimento da poesia concreta.  

Neoconcretismo

Em 1959, no Rio de Janeiro, ao lado de poetas e artistas plásticos como Lygia Clark e Hélio Oiticica, escreveu o manifesto do movimento Neoconcreto e o ensaio "Teoria do não-objeto", texto que foi fundamental ao Movimento. Gullar, neste período, publicou o "livro-poema" e o "poema espacial".

“Poema enterrado”

Através de uma escada, o visitante tinha acesso a uma sala que ficava no subsolo do espaço expositivo. Entrar na sala significava “entrar” no poema. Na sala havia um cubo vermelho. Dentro dele, um cubo verde. E dentro deste, um outro cubo, branco, onde se lia em uma das faces a palavra "rejuvenesça". O "poema enterrado" definiu o afastamento de Gullar do Neoconcretismo numa época em que ele passou a se envolver profundamente na Política.

“Poema sujo”

Ao ingressar no Partido Comunista, Gullar militou contra a Ditadura. Foi preso, viveu na clandestinidade, fugiu do Brasil. Foi durante o exílio, em 1976, em Bueno Aires que escreveu o "Poema sujo". A obra com quase 100 páginas fez sucesso e foi traduzida para diversas línguas e tornou-se famoso em vários países.

Carreira só de sucessos

Em 1977, retornou ao Brasil, mas foi preso e torturado, só conseguindo a liberdade por causa de pressões internacionais. Passou a trabalhar em meios de comunicação. Foi roteirista de televisão e articulista em jornais cariocas. Em 1980, lançou "Na vertigem do dia" e a coletânea "Toda poesia". Em 1985, com a tradução da peça "Cyrano de Bergerac", ganhou o prêmio Molière, um feito inédito na categoria tradução. Como artista plástico e crítico, escreveu, em 1985, "Etapas da arte contemporânea" e, em 1993, lançou o livro "Argumentação contra a morte da arte".

Ferreira Gullar participou da produção de programas de televisão, deu inúmeras entrevistas especiais, foi diversas vezes capa de revistas especializadas, escreveu textos para exposições, fez críticas de Arte, criou obras de arte e realizou exposições em museus e centros culturais, participou de debates, leituras ao vivo, seminários e proferiu palestras. Em 2002, foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. Em 2014, foi eleito “imortal” pela Academia Brasileira de Letras, tornando-se o sétimo ocupante da cadeira nº 37.

Obra da série ''A Revelação do Avesso''

Obra da série ''A Revelação do Avesso''

Poesia

"Um pouco acima do chão" (1949)
"A luta corporal" (1954)
"Poemas" (1958)
"João Boa-Morte, cabra marcado para morrer" [cordel] (1962)
"Quem matou Aparecida?" [cordel] (1962)
"A luta corporal e novos poemas" (1966)
"Por você, por mim" (1968)
"Dentro da noite veloz" (1975)
"Poema sujo" (1976)
"Na vertigem do dia" (1980)
"Crime na flora ou ordem e progresso" (1986)
"Barulhos" (1987)
"Formigueiro" (1991)
"Muitas vozes" (1999)

Crônica

"A estranha vida banal" (1989)

Infantil e Juvenil

"Um gato chamado gatinho" (2000)
"O menino e o arco-íris" (2001)
"O rei que mora no mar" (2001)
"O touro encantado" (2003) 
"Dr. Urubu e outras fábulas" (2005)

Conto

"Gamação" (1996)
"Cidades inventadas" (1997)

Memória

"Rabo de foguete" (1998)

Biografia

"Nise da Silveira" (1996)

Ensaio

"Teoria do não-objeto" (1959)
"Cultura posta em questão" (1965)
"Vanguarda e subdesenvolvimento" (1969)
"Augusto dos Anjos ou morte e vida nordestina" (1976)
"Uma Luz no Chão" (1978)
"Sobre Arte" (1982)
"Etapas da Arte Contemporânea: do Cubismo à Arte Neoconcreta" (1985)
"Indagações de Hoje" (1989)
"Argumentação Contra a Morte da Arte" (1993)
"Relâmpagos" (2003)
"Sobre Arte, sobre Poesia" (2006)

Teatro

"Se Correr o Bicho Pega, se Ficar o Bicho Come" (1966), com Oduvaldo Vianna Filho
"A saída? Onde fica a Saída?" (1967), com Antônio Carlos Fontoura e Armando Costa
"Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória" (1968), com Dias Gomes
"Um rubi no umbigo" (1978)
"O Homem como Invenção de si Mesmo" (2012)

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