Nelson Felix se apropria do Museu e fecha Série de 1984

Nelson Felix se apropria do Museu e fecha Série de 1984

A obra “Trilha para 2 lugares e trilha para 2 lugares” intitula a individual e se traduz no espaço

   O artista toma o museu como instrumento para executar a quarta e última obra da série “Método poético para descontrole de localidade” que começou em 1984. São trabalhos que visam traduzir uma ideia de espaço, de construção poética por meio do desenho. O espaço remete a lugares, assim como em “Grafite” (1986) que Nelson Felix posicionava a peça de acordo com o eixo do sol.

Série com poesia

   Nelson Felix utiliza uma poesia visual onde esculturas, desenhos, ações, fotografias, vídeos e deslocamentos ilustram um texto, formando uma noção de lugar a ser ocupado na Terra. As três obras anteriores que pertencem a esta Série são “4 cantos”, “Verso” e “Um canto para onde não há canto”. Todas utilizam o espaço em sua estrutura mais simples: o canto, o verso e o centro. Porém, neste quarto trabalho da Série, foram acrescentados novos ingredientes que compõem o mundo atual. “A esses elementos soma-se a observação multifacetada do nosso entorno atual. Existe hoje um entrecruzamento de fatores físicos e não físicos, acoplados a esse entorno, fatores como: informações, significados, história, hierarquia, tempo, etc. O nosso espaço atual, pelo menos em arte, não é mais tão limpo”, afirma o texto sobre a individual.

Duplicidade

   Nesta quarta obra de fechamento da Série, permanecem - como nas obras anteriores - ambientes externos e internos, mas o eixo se encontra no duplo significado criado no próprio local da exposição.

Nelson Felix, 4 Cantos, 2008, processo criativo em Portugal e na sala expositiva

Nelson Felix, 4 Cantos, 2008, processo criativo em Portugal e na sala expositiva

Portugal retangular

   “4 cantos” (2004-2008) foi realizada em Portugal, a convite da Fundação Serralves, alude à forma retangular do contorno geográfico de Portugal. Um caminhão carregado com quatro blocos de pedra (de seis a oito toneladas cada) percorre os quatro extremos do território de Portugal. Nos primeiros “cantos”, as rochas são postas sobre o solo e o artista as desenha incessantemente, apreendendo a forma e o entorno (a própria paisagem), que elas naquele momento marcavam. No último “canto”, em ambiente interno, tomba os blocos contra as paredes dos quatro cantos da sala expositiva e os fixa com ponteiras de bronze onde estavam gravados oito versos do poema “Casa térrea”, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Juntos, estão apresentados os cantos dos espaços externos, os cantos do espaço expositivo e o canto do poema.

Brasília de retas

   “Um canto para onde não há canto” (2009/2011), feito para a cidade de Brasília, a convite do Centro Cultural Banco do Brasil, aborda o centro como um local ausente ou onipresente. O centro está onde está o interesse, e não mais o lugar geométrico. Parte do princípio urbanístico de que essa cidade “central” não tem esquinas. Traça um retângulo, que envolve os dois eixos do plano diretor e assim constrói quatro cantos ao traçado. O artista leva para cada um desses locais um vaso com a inscrição de uma das estrofes do poema “La voce”, de Cesare Pavese, onde se encontra cultivada uma planta sensitiva, mimosa pudica (dormideira). Após tocar a planta e seguindo a sua retração, inicia uma série de desenhos, visando construir nesses locais um cantar poético, pela impregnação da poesia no ato contínuo de horas de desenho. Tudo que foi utilizado nesses quatro pontos é deixado in loco, nada de material persiste ou foi levado. Assim, nenhum objeto consta no espaço interno e expositivo, somente a referência da presença da poesia, do toque e dos desenhos, feitos e abandonados nesses quatro sítios da cidade.

Nelson Felix, Verso, 2013, referência ao espaço circular / Foto Everton Ballardin

Nelson Felix, Verso, 2013, referência ao espaço circular / Foto Everton Ballardin

São Paulo central

   “Verso” (2011/2013) nasce da observação de que a cidade de São Paulo, o principal centro brasileiro, encontra-se equidistante e sobre uma linha imaginária que liga duas pequenas ilhas, uma no Oceano Pacífico (arquipélago de San Juan) e outra no Atlântico (Ascensão). O artista viaja pelas duas ilhas, dois opostos, dois versos – criados no globo terrestre. Nelas, coloca-se numa direção em que o olhar para o horizonte desse a volta na circunferência do Planeta até alcançar São Paulo. Nesses dois locais finca três peças de bronze, que remetem à decomposição das três partes da letra A – uma homenagem ao poeta catalão Joan Brossa e ao seu poema intitulado “Desmuntatge”. Depois, Nelson Felix desenha incessantemente até impregnar-se do local e da paisagem dessas ilhas. Em São Paulo, insere peças circulares de mármore e torna a fincar as três partes da letra A em bronze no espaço expositivo da galeria. Em “Verso”, não há um espaço único, configurado em uma sala, mas o trabalho remete poeticamente a uma noção espacial circular, de uma escala dilatada até a impossibilidade de percepção física, mas unida por ações similares e pela forma de uma letra.

O Museu como instrumento

   “Trilha para 2 lugares e trilha para 2 lugares” (1984/2017) se refere a um espaço construído por três ações e unido pelo acaso de uma poesia que, usada uma única vez, no início, norteia toda a obra. Os trabalhos da Série são pensamentos poéticos sobre o espaço, e nessa quarta obra soma-se o atual conceito espacial de corda, e com ele, acoplado, o som. No Museu, um cabo de aço de 35 metros estirado fortemente na arquitetura indica uma direção, o percurso poético realizado pelo artista. No som, a trilha sonora é feita in loco para os vídeos elaborados nas ações do artista pelos profissionais Guilherme Begué e Cristiano Burlan. É na reunião desses três locais, mas principalmente, onde o trabalho emerge que recai a atenção. Nesse sítio, um duplo se cria – o museu, como, e é, instrumento de arte.

Homenagem a Mallarmé

   A obra é dedicada a Mallarmé e ao seu central poema “Um lance de dado jamais abolirá o acaso”, texto extraído de uma entrevista ao poeta Alberto Pucheu. Nelson descreve a obra: “Lanço um dado, com o número seis em todas as faces, sobre um mapa-múndi, numa data e hora estabelecidas e num local incidental do curso duma estrada. O dado, jogado, define seu acaso, não mais pela aleatoriedade do número, mas sim pela aleatoriedade de sua posição indicada sobre o mapa. Os locais do trabalho são firmados nesta ação: Cítera (ilha grega) e Santa Rosa (pampa argentino). Observo depois, que vários artistas realizaram obras sobre a peregrinação a esta ilha:Watteau, Gerard de Nerval, Verlaine, Victor Hugo, Debussy, mas recentemente Theo Angelopoulos e principalmente Baudelaire, grande influência de Mallarmé. Como uma epígrafe, ou uma homenagem – um vir ao caso –, defino um terceiro local, o restaurante La Closerie des Lilas, em Paris. Todos, com exceção de Watteau (precursor do tema), frequentaram este Café. Nos três locais – Cítera, Santa Rosa e La Closerie – lanço, enterro e abandono dados de bronze e desenho compulsivamente. O trabalho é finalizado no MAM do Rio, onde uso o Museu, também como um objeto, e duplico assim sua ideia de lugar. Grosso modo, poeticamente, Pucheu…, 3 locais em 2 lugares de 1 mesmo espaço”.

O artista

   Nelson Felix, Rio de Janeiro, 1954, é escultor, desenhista e professor. Iniciou seus estudos de pintura com Ivan Serpa, em 1971, e se formou em arquitetura em 1977. Dedicou-se inicialmente ao desenho e, posteriormente, à escultura. Em 1989, recebeu bolsa do Ministério da Cultura da França por uma exposição na Galeria Charles Sablon, em Paris. Recebeu, em 1991, a bolsa Vitae de Artes Plásticas. A partir da década de 1990 realiza esculturas de mármore com base em órgãos ou aspectos do corpo humano. Em 1994, foi artista residente na Curtin University (Perth, Austrália) e no Karratha College (Karratha, Austrália). No mesmo período, idealizou "Mesas", esculturas em granito nas quais faz referências às interações entre a natureza e os objetos culturais. Ao retornar ao Brasil realizou com Luiz Felipe Sá, em 1995, o vídeo "O Oco", sobre sua produção artística. Sua obra é analisada em publicações como “Nelson Félix”, com texto de Rodrigo Naves (Cosac Naify, 1998) e “Concerto Para Encanto e Anel”, com textos de Ronaldo Brito e Marisa Flórido Cesar (Editora Casa 11, 2011).

“Trilha para 2 lugares e trilha para 2 lugares”

Abertura dia 8 de abril, às 15h

Término dia 4 de junho, às 17h

Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro

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