Niggaz – ícone do Grafite paulista - é homenageado em coletiva

Niggaz – ícone do Grafite paulista - é homenageado em coletiva

Dezessete artistas, inspirados na obra de Niggaz, produziram inéditos especialmente para essa mostra

   Quando se fala em homenagem no Grafite brasileiro, o primeiro nome é o do paulistano Niggaz. Ele atravessou a fronteira entre a periferia e o centro da cidade, influenciando muitos artistas no cenário nacional e internacional. Alexandre Luis da Hora Silva, o Niggaz, nasceu em 1982 e morreu precocemente, acidentalmente afogado na represa Billings, aos 21 anos, em 2003. “O Niggaz da Hora - Graffiti, Memória e Juventude” reúne trabalhos inéditos de Binho, Ciro Scho, Claudio Ganu, Deddo Verde, Enivo, Highraff, Jerry Batista, Lele Paes Ribeiro, Mathiza, Mauro, Michel Onguer, Oito, Paulo Ito, Ricardo Akn, Sliks, Tarsila Portella e Zizi. Na imagem, grafite de Niggaz no famoso Beco do Batman, Vila Madalena, Zona Oeste da cidade de São Paulo, que começou a se tornar uma galeria a céu aberto em 1980 e hoje recebe visitas de turistas do mundo inteiro. E, desenhos como o de Niggaz são conservado pelos próprios grafiteiros.

Niggaz é o suporte

   Reconhecido tanto no Brasil quanto no exterior como grafiteiro dos mais talentosos do seu tempo, Niggaz tem obra perpetuada pelos artistas. Seja como exemplo teórico de como fazer e como agir, seja como base para outras criações. Nesta mostra, por exemplo, o coletivo utilizou como suporte um totem de madeira com colagens e lambes dos trabalhos de Niggaz.

Repercussão internacional

   Apesar da curta trajetória de Niggaz, suas obras causaram efeito na História da Arte. Segundo Jerry Batista, também grafiteiro e amigo de Niggaz, “a repercussão da arte de Niggaz é muito grande no Brasil todo e mesmo no exterior, principalmente na Europa, onde o seu grafite, por ter traços mais simples, é considerado essencialmente brasileiro e lembra um pouco histórias em quadrinhos. A importância dele para o cenário do grafite é gigantesca. Em todos os lugares que eu me apresento no Brasil e mesmo fora do País todas as pessoas falam de Niggaz. Existe uma curiosidade muito grande sobre sua forma de arte”.

Niggaz, grafite

Niggaz, grafite

Pioneirismo

   Se hoje há interesse de todas as partes pelo legado de Niggaz é porque ele ousou expandir o Grafite para o resto da cidade. O artista ousou grafitar em toda a cidade de São Paulo, extrapolando os muros da periferia e neste arriscou temas sobre o suburbano, mulheres, futuro. Com seu talento particular, Niggaz conquistou o circuito cult paulista, por exemplo, na Vila Madalena, zona Oeste. Niggaz deixou um legado eterno para a cidade de São Paulo. Ele revolucionou a visão sobre o Grafite, apresentando uma Arte elegante nas paredes da cidade cinza.

Trajetória e convivências

   Nascido no Jardim Eliana, Grajaú, zona Sul de São Paulo, Niggaz desenhava desde criança e via o Grafite como uma maneira de “conquistar o Mundo”. De forma trágica, Niggaz afogou-se, no dia 1º de maio, na represa Billings. O grafiteiro e também amigo de infância, Vini Enivo, diz que Niggaz fazia grafite como uma forma de se expressar e conquistar São Paulo.

   Jerry conta que grafitou sete anos ao lado de Niggaz, no início de sua carreira até o fim de sua vida e diz que o grafiteiro via a arte como uma forma de fugir do bullying que sofreu sua vida inteira por sua condição social. “Ele costumava dizer, 'Pô! Eu sofri bullying minha vida inteira por ser negro e gordo, no colégio e nos lugares, e desenhar é uma coisa que eu sei fazer bem'. Então as pessoas o respeitavam por isso. E ele percebeu o poder que a arte dava para as pessoas se destacarem numa cidade com a dimensão de São Paulo e mesmo no resto do Brasil e de uma maneira positiva e não negativa ou cercada de preconceitos”, lembra Jerry Batista.

   Vini Enivo conheceu Niggaz ainda na infância e diz que a lembrança que fica é a influência da obra dele e as experiências que o amigo transmitiu ao longo da vida para ele. “Eu o conheci muito jovem, tínhamos sete ou oito anos de idade, então ele já desenhava. Sempre fomos muito amigos. Jogávamos vídeogame desde pequenininhos, foi uma amizade muito bonita em que aprendemos bastante. Ele gostava muito de compartilhar o trabalho dele com as pessoas. E fazia com que acreditássemos no trabalho que produzíamos”.

Observando os Gêmeos

   Jerry Batista cresceu no mesmo bairro que Niggaz, mas só o conheceu através de amigos comuns em 1998, quando Niggaz tinha 16 anos. “Eu grafitei com ele sete anos seguidos e uma das lembranças marcantes que eu tenho dele era quando saíamos do Grajaú e não tínhamos nem dinheiro para a condução. Íamos até Santo Amaro e pegávamos o primeiro ônibus que vinha, até que um dia fomos parar no Cambuci, onde os Gêmeos grafitavam. Pudemos ver o trabalho deles e foi uma grande experiência para nós, porque não sabíamos que faziam grafite daquela forma fora do Grajaú. Naquela época, as distâncias geográficas eram ainda maiores”, lembra Jerry.

Niggaz, grafite

Niggaz, grafite

Agente da Arte

   Ao abrir as portas para o seu grafite, Niggaz conseguiu conquistar uma bolsa mensal como agente comunitário de artes em 2002 para revitalizar a cidade e educar novos grafiteiros. Era um projeto piloto para promover jovens da periferia, dando-lhes renda, perspectiva profissional e complementação educacional para evitar o círculo vicioso da marginalidade. Niggaz trabalhou firmemente na formação dos jovens e recuperou vários muros e praças, como a Ana Maria Popovic, no Sumaré. Suas obras marcaram São Paulo e trouxeram ao Grafite prestígio internacional como a polêmica pintura com cores berrantes do aristocrático (e antes totalmente branco) casarão, sede de um banco, na Avenida Paulista. Pois, apesar de bolsista, Niggaz não deixaria jamais de ser vanguarda.

História em Livro

   Desde sua morte, em 2003, Niggaz recebe homenagens de forma permanente e principalmente em sua região de origem. Entre 2004 e 2013, o coletivo Imargem promoveu o Encontro Niggaz de Graffiti – principal evento do gênero em São Paulo –, com a reunião de mais de dois mil grafiteiros dispostos a pintar muros do Grajaú em todo esse período. No final de 2016, foi lançado o livro “Niggaz da Hora” na Galeria Olido, centro de São Paulo, o livro com artigos e imagens de diversas autorias e épocas que retratam não só a história do artista como explora a questão do Grafite, memória e juventude. Entre os articulistas, estão o antropólogo Alexandre Barbosa Pereira, o coordenador de cultura da Ação Educativa Eleilson Leite, o poeta Daniel Minchoni, o rapper Criolo, a pesquisadora Valéria Lopes e o jornalista Gilberto Dimenstein, entre outros.

A Lei e a Arte

   Sancionada pelo prefeito da cidade de São Paulo, João Dória, eleito em 2016, a Lei chamada de "Antipicho” avisa que todo e qualquer ato de pintura fica proibido e estipulou multas de R$ 5 mil; se a pichação for contra o patrimônio público, a multa dobra para R$ 10 mil; se houver reincidência, a multa também dobra. O Prefeito ordenou que os murais fossem todos apagados e a própria Prefeitura de São Paulo os cobriu de cinza. A ação incluiu o famoso corredor da 23 de Maio, avenida que liga a zona Sul ao Centro, considerado um “museu a céu aberto”, com mais de 70 murais de diversos artistas desde 2015. O grafiteiro Jerry Batista acredita que a postura do Prefeito é um tanto quanto exagerada. Para ele, o Grafite é um patrimônio brasileiro e os grafiteiros são reconhecidos no exterior. Enivo afirma que “não há forma mais original de arte e que, independente do mandato de qualquer governo, ela vai resistir como forma de expressão. Os mandatos passam, passam partidos, mas a expressão das ruas fica em tempos mais difíceis e também em tempos de glória”.

“O Niggaz da Hora – Graffiti, Memória e Juventude”
Término dia 23 de abril
Fábrica de Cultura Capão Redondo, São Paulo

 

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