"O Negro no Rio", de Georgia Lobo, é um marco do antirracismo

"O Negro no Rio", de Georgia Lobo, é um marco do antirracismo

Durante o processo criativo, a artista resgatou histórias e produziu telas temáticas

Georgia Lobo escolheu um tema precioso para esta série de pinturas expostas nessa individual: debruçada na sua própria origem e na Pintura, a artista levou para as telas personagens do seu cotidiano, envolvendo História social que precisa ser apresentada amplamente na sociedade. “Há sete anos a pintura ocupa um espaço predominante na minha vida: de reflexão, criação, entrega e transformação”, afirma a artista. E envolve toda essa história escondida e velada com uma beleza radiante. Na reprodução acima, a obra Natalie Bloom, 2017, óleo sobre tela, 0,80 x 0,90

Georgia Lobo, Badu, 2016, óleo sobre tela, 1,10 x 0,90

Georgia Lobo, Badu, 2016, óleo sobre tela, 1,10 x 0,90

A exposição apresenta pelo menos dez telas em grandes formatos e painéis. “Está na minha árvore genealógica, nas minhas angústias, nas agruras de família, na solidão e na invisibilidade que a cor impõe e expõe. Um tema gerador de desconforto se descortina e reaparece na pintura de forma transformadora fazendo com que esse sentimento se modifique. O que era motivo de vergonha passa a ser orgulho e nessa jornada de sete anos redescobri que meu avô materno foi um herói anônimo”, revela a artista.

Georgia Lobo, Celeste, 2017, óleo sobre tela, 1,10 x 1,10

Georgia Lobo, Celeste, 2017, óleo sobre tela, 1,10 x 1,10

  Em rica história apurada durante o processo criativo das pinturas, Georgia conseguiu poucas informações, diante das dificuldades enfrentadas por seus ancestrais. Por exemplo, ela conta que o médico André Ferreira dos Santos, filho de escravos, 12 irmãos, único na família a aprender a ler e escrever, caminhava mais de seis quilômetros para chegar à escola, estudava à luz de velas. Trabalhando como pedreiro conseguiu se formar em Farmácia e depois em Medicina e tornou-se um médico famoso em Piracicaba, cidade no interior de São Paulo. André casou-se com uma filha de imigrantes italianos, analfabeta, branca e tiveram seis filhos, um deles a mãe de Georgia, que tem 94 anos.  

Georgia Lobo, Doidão, 2018, óleo sobre tela, 1,20 x 0,90

Georgia Lobo, Doidão, 2018, óleo sobre tela, 1,20 x 0,90

Com história não muito diferente da de inúmeros brasileiros, Georgia abraçou fatos do passado para inspirar-se nessa recente produção pictórica. Ela nos contou uma dessas passagens, apurada em família: “Minha avó Dilecta estava na rua com minha tia Célia, então com quatro anos, e uma vizinha ao passar por elas perguntou quem era aquela criança. Minha avó, italiana, loira, cabelos lisos, responde que era filha da empregada”; e faz uma análise diante do cenário social atual: “existe um herói nessa história e também um vilão, o racismo, não apenas fora mas dentro, disfarçado, quieto, fingido. Como a sociedade receberia a ascensão de uma família negra numa cidade do interior de São Paulo em 1920?”

Georgia Lobo, Urca, 2018, óleo sobre tela, 1,50 x 1,20

Georgia Lobo, Urca, 2018, óleo sobre tela, 1,50 x 1,20

Muito do que foi vivido não pode ser encontrado em registros que foram guardados, selecionados, para compor a História. Muito foi relegado, apagado. Essa exposição traz esses personagens, daquele tempo e do nosso tempo, que não podem mais viver na exclusão. “Meu pai era branco de olhos claros, então eu saí do patamar de negra para morena, mas em alguns episódios de minha infância sofri humilhações direcionadas à minha mãe.  Um menino em particular, durante anos na escola, achava muito engraçado me ridicularizar e fazer sentir vergonha por ter uma mãe que tirou segundo lugar em medicina numa época em que as mulheres apenas se casavam”, lembra Georgia Lobo.  

Georgia Lobo, Santo, 2018, óleo sobre tela, 1,20 x 0,90

Georgia Lobo, Santo, 2018, óleo sobre tela, 1,20 x 0,90

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  O propósito dessa exposição é mostrar, a quem quiser ver, a beleza de uma raça dentro de uma cidade igualmente especial, que é o Rio de Janeiro. Para Georgia, que imaginou e pintou personagens que pularam das histórias, é como se tivesse conhecido essas pessoas pintadas. “Eu adoraria ter tido a oportunidade de conhecer esses personagens que brotam das minhas telas. Poder ter tido, de quando criança, referenciais positivos opostos aos que são introjetados pelo nosso sistema sutilmente no dia a dia”, avalia.

Georgia Lobo, Penteado, 2018, óleo sobre tela, 1,20 x 1,20

Georgia Lobo, Penteado, 2018, óleo sobre tela, 1,20 x 1,20

  Ainda para compor a exposição, Georgia preparou espaço especial para exibir fotos do processo de criação da mostra e das obras e incluiu uma homenagem ao avô com fotos de família, uma reportagem do jornal local de Piracicaba contando a história do médico André, foto do busto em sua homenagem que existe na cidade, objetos, dizeres, referências, textos pequenos contando um pouco das principais curiosidades, entre outros. “Com os genes que herdei desse homem incrível, com as experiências que vivi e presenciei, desejo dar um destaque merecedor,  ajudar a sociedade a se libertar desses preconceitos tão restritivos  e tratar com respeito e admiração, dignificando essa cultura, essas raízes, a minha história que é também a de tantos outros.  Que nessas salas , eles (meus negros ), apresentem seu ambiente idílico, de luz, igualdade e dignidade”, afirma Georgia Lobo.

Georgia Lobo, Fly, 2017, óleo sobre tela, 1,20 x 0,60

Georgia Lobo, Fly, 2017, óleo sobre tela, 1,20 x 0,60

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Trajetória da artista

Georgia Lobo é formada em Desenho Industrial pela PUC (1987); fez curso de pintura com a artista Suzanna Schlemm (2007 à 2009); recebeu o Prêmio Cesgranrio Novos Talentos da Pintura - segundo lugar (2013); inaugura Galeria Georgia Lobo no Shopping Barra Garden (2014); expõe na coletiva Arte no Mercearia em São Paulo (2015); participa do Mostra Morar Mais (2016) com duas pinturas no cenário da arquiteta Dolores Marafeli; expõe na Fábrica Bhering (novembro de 2017 à fevereiro de 2108). Georgia Lobo tem tido suas obras visualizadas pelo público em programas televisivos, como novelas da Rede Globo.

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O Negro no Rio - individual de Georgia Lobo

Abertura em 06 de fevereiro de 2019

Término no dia 10 de março de 2019

Centro Cultural Correios, Rio de Janeiro

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