O nosso mundo por Alexandre Sequeira

O nosso mundo por Alexandre Sequeira

“Meu mundo teu” apresenta um convite ao conhecimentos sobre as pessoas e suas vivências

A série que dá nome à exposição começou a ser elaborada por Sequeira a partir de seu contato com dois adolescentes. O artista desenvolveu projeto de troca de impressões entre os dois jovens a partir de cartas e fotografias. A mescla dessas informações de mundo, apresentadas por Tayana Wanzeler, moradora do bairro do Guamá na cidade de Belém, e por Jefferson Oliveira, morador da ilha do Combú na região amazônica, compõe a série. São 15 trabalhos - na reprodução acima: "São João e os Sapatos" - construídos na base do diálogo que foi estabelecido entre os dois adolescentes com a coordenação de Sequeira.

Tayana e Jefferson lendo cartaz em 2007

Tayana e Jefferson lendo cartaz em 2007

Novas significações

Os encontros entre Tayana e Jefferson foram coordenados pelo fotógrafo, que também é professor do Instituto de Ciências da Arte na Universidade Federal do Pará. Esse projeto foi desenvolvido durante 2007. Os jovens fizeram fotos com câmeras artesanais de um e dois orifícios e também com câmeras convencionais com dupla exposição de filmes. O resultado de cada obra aponta para o encontro de imagens que confundem diferenças e semelhanças que geram novas significações num intercâmbio de realidades e experiências. Hoje, Tayana utiliza os conhecimentos passados por Sequeira de forma independente e quer cursar Administração. Jefferson se apaixonou pela Fotografia e já decidiu que quer mermo trabalhar como fotógrafo. O lucro das fotos feitas para o projeto é igualmente dividido entre os três.

Histórias de abraços

No texto assinado pelas duas curadoras da exposição, Clarissa Diniz e Janaina Melo, explicam-se as motivações do artista. “Foi com uma pedrada que Alexandre Sequeira conheceu Jefferson Oliveira. O menino estava trepado numa árvore da Ilha do Combu, bairro da periferia de Belém, e não teve dúvidas quando viu o estranho se aproximar. Se a pedra atirada foi o pretexto que Alexandre precisava para estabelecer um diálogo com o garoto então desconhecido, por sua vez, a câmera fotográfica do artista foi o dispositivo que possivelmente fez com que fosse imediato o desejo de prolongamento dessa conversa por parte do menino. Mas o tal diálogo, ficamos sabendo, não era exatamente entre Jefferson e Alexandre, senão entre o garoto e Tayana Wanzeler – moradora do bairro Guamá, a muitos quilômetros de distância, na outra margem do rio –, a quem o artista conhecera anteriormente, durante uma oficina de desenhos. Alexandre e sua câmera eram os mensageiros e os mediadores da relação entre os dois adolescentes, que só viriam a se conhecer aproximadamente um ano depois da pedrada, quando já haviam trocado dezenas de cartas e criado imagens em conjunto, sobrepondo – e, assim, conjugando – a realidade de um na fantasia do outro. À vivência com Tayana e Jefferson, Alexandre Sequeira deu o nome de “Meu mundo teu”, expressão que aprendera com o garoto”.

Alexandre Sequeira, Paneiros e panelas, série Meu mundo teu, 2007 

Alexandre Sequeira, Paneiros e panelas, série Meu mundo teu, 2007 

A Fotografia e o outro

Alexandre Sequeira vem se relacionando com diferentes situações que surgem na vida e consequentemente vão parar na sua obra. Para as curadoras, “(...) Combinação fascinante entre imagem e alteridade que tem produzido não “exatamente” obras, mas processos de convivência e colaboração que geram um conjunto de imagens, memórias, sons, narrativas, objetos. Não sendo possível precisamente circunscrever as experiências vividas pelo artista, tampouco reduzi-las à sua dimensão visível, a mostra “Meu mundo teu” anseia evocá-las. Propomos um ambiente de imersão nos relatos e memórias dos encontros aqui apresentados, oferecendo estações de leitura em que o intangível da vivência do “outro” se coloca como um – talvez silencioso – convite à presença, à escuta e ao diálogo, desta vez, performados na relação com o público, como quem lança uma pedrinha no ombro de quem adentra este espaço”.

O acervo de Tião

Alexandre Sequeira aproveitou-se desta mostra “Meu mundo teu” para incluir o desenvolvimento de seu mais recente processo criativo. “Constelação de Tião” em colaboração com Aline Mendes, ativista e moradora do Morro da Providência, por meio de quem o MAR e o artista conheceram o acervo fotográfico de Tião, retratista daquela Região entre as décadas de 1960 e 1980. “Como testemunha e agente da história portuária do Rio, a pluralidade e a eloquência da obra de Tião apontam para a dimensão política do afeto, das relações, da amizade e da saudade, territórios da memória e de suas estratégias de resistência – dentre elas a imagem e, particularmente, a fotografia. Identificado com Tião, Alexandre o abraça em ‘seu meu mundo teu’ pela vontade de continuar trançando pronomes, como se buscasse, por fim, desfiar a preponderância do ‘eu’.” 

Alexandre Sequeira, Branca, série Nazaré de Mocajuba, 2005

Alexandre Sequeira, Branca, série Nazaré de Mocajuba, 2005

Impressões de um povoado

Não foi um mês, nem um ano, mas foi pelo menos durante uma década que Alexandre Sequeira frequentou Nazaré de Mocajuba, um vilarejo bucólico no interior do Pará. Começou visitante, virou amigo e depois se tornou retratista oficial do povoado, em função dos laços afetivos que criou com a população. Fez fotos para documentos, para ornar o túmulo como o último adeus a um ente querido, para registrar o vestido branco da primeira comunhão e para serem enviadas aos enamorados em cartas perfumadas. Mas, no Pará, o povo gosta de tecidos e usa redes e cortinas. Alexandre resolveu imprimir os retratos em grandes formatos em tecidos e expos primeiro pelo vilarejo. Com a curadoria do fotógrafo Eder Chiodetto, as ampliações viraram exposição que já foi mostrada em São Paulo; na França; na Bienal Internacional de Fotografia de Liège/ Bélgica; no evento “Quatro Artistas Brasileiros” no Canadá; em Cuba, na China. E agora está no MAR.

“Meu mundo teu”
Término dia 16 de julho, às 17h
Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro
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