Obra imersiva de Fabiano Mixo resgata primórdios do Cinema

Obra imersiva de Fabiano Mixo resgata primórdios do Cinema

Videoinstalação provoca reações, como aconteceu quando os Lumière exibiram curtas em 1895

   Com curadoria de Alberto Saraiva, a exposição “Cartas a Lumière - A chegada do trem à estação” apresenta a mais recente obra de Fabiano Mixo. A videoinstalação imersiva traz o que há de mais novo em tecnologia, como fizeram os irmãos Lumière ao documentarem cenas do cotidiano com o cinematógrafo no finzinho do século XVIII. Mixo traz um paralelo com cenas de trens de passageiros que circularam diariamente em estações de grande movimentação como a Central do Brasil, no Rio de Janeiro. E apresenta essas cenas também documentais de nosso tempo de forma realista e nova para o espectador, que é levado para dentro do filme através do uso de óculos especiais de realidade virtual, chamados de VR. Na imagem, acima, frame de “Cartas a Lumière - A chegada do trem à estação”, de Fabiano Mixo.

Lumière, frame do filme "Arrivée du train en gare de La Ciotat", 1895

Lumière, frame do filme "Arrivée du train en gare de La Ciotat", 1895

Os Lumière

   Os franceses Auguste Marie Louis Nicholas Lumière (1862-1954) e Louis Jean Lumière (1864-1948) eram filhos e colaboradores do industrial Antoine Lumière, fotógrafo e fabricante de películas fotográficas, proprietário da Fábrica Lumière (Usine Lumière), instalada em Lyon. Em 1892, Antoine entregou a gerência da indústria aos filhos. O cinematógrafo era uma máquina de filmar e projetor de cinema que os Lumière registraram em 1895. Porém, outro francês, Léon Bouly reclamou a invenção, dizendo ter feito registro em 1892, mas perdeu esse registro e não pode provar a autoria da invenção. Então, os Lumière são considerados os inventores da máquina.  Louis e Auguste eram engenheiros e produziram alguns documentários para promover a máquina.

Lumière, Auguste e Louis

Lumière, Auguste e Louis

O espectador passa a integrar a fita

   Se naqueles anos dos Lumière, o público ficou excitado diante da tela em preto e branco e com imagens, digamos, em baixa resolução; hoje, diante da obra de Fabiano Mixo nem sabemos ainda o que pensar. A experiência intensa de “entrar” no filme requer um pouco mais de tempo para analisarmos verbalmente os sentimentos que são ali provocados e que são muito particulares.

Frame de “Cartas a Lumière - A chegada do trem à estação”, de Fabiano Mixo

Frame de “Cartas a Lumière - A chegada do trem à estação”, de Fabiano Mixo

   Fabiano Mixo escolheu uma projeção panorâmica de uma paisagem sonora, que passeia entre documentário e ficção, num ângulo de 360º, com a mesma temática inicial dos Lumière- trens e trabalhadores.

Novo Cinema

Se o uso do VR já é considerado comum para os jogos, no uso geral ainda é uma novidade. Trazer o acessório para os cinemas ou até mesmo para outros usos caseiros como o de relacionamentos em redes sociais como sugere alguns gigantes da internet ainda é algo longe da realidade. Há três anos, o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, comprou a Oculus VR, fundada em 2012 na Califórnia. Mas, para artistas que circulam em busca de realizar obras inovadoras como Fabiano Mixo, o uso do VR traz a possibilidade de compartilhar experiências pioneiras com o público.

O uso do VR integra o espectador à obra

O uso do VR integra o espectador à obra

Premiado no exterior

   Fabiano Mixo é carioca, cresceu nos subúrbios do Rio de Janeiro. Estudou na EAV Parque Lage e Cinema e Comunicação na Universidade PUC-RJ. Cursou cinema na FilmArche em Berlim, na Alemanha, onde reside hoje. “Meu trabalho recente questiona os limites de identidades multiculturais e memória, explorando a re-contextualização da história, da cultura e dos meios de comunicação através de diversas formas e perspectivas. Estou interessado em trabalhar com abordagem autoral, as novas tecnologias, Invenção, formas híbridas e histórias poéticas”, afirma Mixo.

Cartaz de uma das exibições do curta "Mulher sem bandolim", de Fabiano Mixo

Cartaz de uma das exibições do curta "Mulher sem bandolim", de Fabiano Mixo

   No currículo, vem construindo carreira premiada. Recentemente, recebeu o Prêmio EMAF-Medienkunst-Preis de Melhor Filme Experimental pela Associação Alemã de Críticos de Cinema no EMAF-European Media Art Festival de 2016 – fórum reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes dedicado às novas experimentações artísticas. O artista tem concorrido com o curta “Woman without mandolim” (Mulher sem bandolim), um filme cubista que abrange artes plásticas e cinema, filmado em 16mm. Em cena, a atriz, autora e diretora alemã Miriam Goldschmidt, que integrou a companhia de teatro The International Centre for Theatre Creation, fundada e dirigida pelo diretor de teatro e cinema Peter Brook. Inspirado na obra de Picasso, “Moça com bandolim”, de 1910, o filme faz uma releitura audiovisual do cubismo, trazendo reflexões críticas sobre esse contexto da arte ocidental e suas influências da arte africana.

Picasso,"Moça com bandolim"

Picasso,"Moça com bandolim"

   O curta também foi vencedor do The Lumen Prize na categoria ''Prêmio do Público'' e finalista do Screengrab International Media Arts Award na Austrália, ambos em 2015. E foi nomeado para o 11th Soirée Allemande em Clermont-Ferrand, na França e finalista do LICHTER Art Award em Frankfurt, na Alemanha, em 2016. No Brasil, o filme foi exibido pelo menos em dois eventos no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. No mês passado, o curta participou da Competição Internacional do IndieLisboa, em Portugal. E, neste maio, compete na Animation Avantgarde no VIS (Vienna Independent Shorts) na Áustria.

 “Cartas a Lumière - A chegada do trem à estação”
Término dia 18 de junho, às 20h
Oi Futuro-Flamengo, Rio de Janeiro

 

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