“Permissão para falar” reúne obras sobre a Palavra

“Permissão para falar” reúne obras sobre a Palavra

Coletiva com curadoria de Fernanda Lopes reúne obras de artistas contemporâneos

 São obras de Beto Shwafaty, Diego Bresani, Jaime Lauriano, Lais Myrrha, Laura Belém (na imagem acima, "Jardim de Guerra", Série "Hoje tem Cine", 2015), Paula Scamparini, Sara Ramo, Vanderlei Lopes e Yuri Firmeza & Frederico Benevides. São trabalhos em diferentes técnicas e suportes, como vídeos, objetos, fotografias, gravuras e desenhos. Todas as obras fazem referência ao discurso e à história como construções, com interesse especial nos usos e variações de significados que as palavras podem assumir, dependendo de quem fala, de quem escuta ou mesmo quando são silenciadas. ““Esta é uma exposição interessada em pensar o lugar da fala e da escuta”, afirma a curadora Fernanda Lopes.

Os artistas e as obras

Beto Shwafaty (São Paulo, 1977)

 Duas obras na exposição. Em “Anhanguera/Bandeirantes” e “Abstrações Sujas”, ambas de 2015, o artista explora a história, a memória e utiliza textos extraídos da imprensa. Na primeira, trata da exploração da cidade de São Paulo pelos Bandeirantes e o desenvolvimento econômico representado pelas principais vias de acesso da cidade. A segunda é sobre a história do edifício Edise - sede da Petrobras no Rio de Janeiro. Essa obra é dividida em três partes independentes. Apenas uma delas está na exposição.

Diego Bresani, Tuer Matar, 2015, fotografia

Diego Bresani, Tuer Matar, 2015, fotografia

Diego Bresani (Brasília, 1983)

 Fotografias feitas em Paris, durante o ano em que o artista viveu lá. A observação do mundo, suas paisagens e personagens, compõem a essência do trabalho, uma espécie de diário pessoal onde tenta reconstruir sua própria história.

Jaime Lauriano (São Paulo, 1985)

 Obras das séries “Vocês nunca terão direito sobre seus corpos”, 2015 - um entalhe em madeira com frases de racismo institucional, encontradas em comunicados oficias e boletins de ocorrência, da Policia Militar Brasileira; e “Bandeira Nacional”, 2015, em que busca subverter, a partir de técnicas de tecelagem artesanal, o controle e a regulação deste símbolo.

Lais Myrrha (Belo Horizonte, 1974)

 Quatro trabalhos da série “Reconstituição”, 2008. Ela seleciona as páginas da Constituição onde aparece a palavra “exceção”, faz um destaque e desfoca o restante do texto.

Laura Belém (Belo Horizonte, 1974)

 Obra da série “Hoje tem cine”, 2015, em que cria letreiros em neon com títulos dos filmes que marcaram a história do Cine Palladium, que foi um dos cinemas mais importantes de Belo Horizonte. Um deles é o letreiro de “Jardim de Guerra”, de Neville D'Almeida, que foi recolhido pela censura em 1968.

Paula Scamparini, Nós-Tukano, 2015, vídeo

Paula Scamparini, Nós-Tukano, 2015, vídeo

Paula Scamparini (Rio de Janeiro, 1980)

 A videoinstalação “Nós-Tukano”, 2015, com duas telas. Em uma, o indígena Carlos Doethiro Tukano, líder político e cacique da maior aldeia urbana no Brasil, a Aldeia Maracanã, narra a história de sua terra para um grupo de crianças, em sua língua nativa. Na outra tela, não-indígenas de diversas origens tentam reproduzir as palavras de Doethiro mesmo sem entender seus significados.

Sara Ramo (Madri, 1975)

 Fotografias “O ensino das coisas”, 2015, sobre a dificuldade em definir certos conceitos ou palavras. O ponto de partida são cartazes encontrados pela artista em uma escola de design abandonada no Uruguai. Os alunos tratavam de expressar o conteúdo da palavra através da forma.

Vanderlei Lopes, EEDDM II (El Encuentro de Dos Mundos), 2013

Vanderlei Lopes, EEDDM II (El Encuentro de Dos Mundos), 2013

Vanderlei Lopes (Paraná, 1973)

 A obra "EEDDM II (El encuentro de dos mundos)", 2013, mostra formas orgânicas das folhas, fundidas em bronze, com recortes geométricos e precisos feitos pela mão do homem. Aqui, os "dois mundos" podem ser a natureza e a cultura (que por muitos autores é considerada uma invenção do homem, como uma tentativa de domar a natureza).

Yuri Firmeza (São Paulo, 1982)

 Com Frederico Benevides, Yuri apresenta o curta-metragem “Entretempos”, selecionado para o 62º Festival Internacional de Curtas-Metragens de Oberhausen, na Alemanha. O filme também participou da Semana dos Realizadores em 2015 e recebeu o prêmio de Menção Honrosa do Júri Oficial. O curta toma como base materiais arqueológicos encontrados na Região Portuária do Rio de Janeiro (fotografias, imagens de arquivo, documentos oficiais e de negociações dos escravos), para pensar o atual processo de gentrificação daquela Região atualmente. 

Texto da curadora Fernanda Lopes (na íntegra)

 " 'Será isso, apenas, a ordem natural das coisas?', perguntava o velho porco Major logo no início do seu discurso, que acabou servindo de estopim para a Revolução dos Bichos. Publicado em 1945, o livro de George Orwell, conta que um belo dia, os animais da fazenda do Sr. Jones se dão conta de que a vida indigna a que são submetidos não é a ordem natural das coisas e, liderados por um grupo de porcos, expulsam o fazendeiro de sua propriedade desejando construir nela um lugar onde todos fossem iguais. Os sete mandamentos que constituiriam a lei inalterável pela qual a Granja dos Bichos deveria reger sua vida a partir da revolução foram sendo, aos poucos, adaptados, alterados e excluídos, até sobrar apenas um: 'Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros' - a versão original, que dizia 'Todos os animais são iguais', foi alterada no meio da noite, sem que ninguém visse.

A exposição Permissão para falar reúne artistas cujos trabalhos tentam lidar com essa 'ordem natural das coisas'. Em comum, todas as obras trazem referências ao discurso e à história como construções, com interesse especial nos usos e variações de significados que as palavras podem assumir, dependendo de quem fala, de quem escuta ou mesmo quando são silenciadas. Na ambiguidade guardada no título que aponta ao mesmo tempo para uma imposição (conceder permissão) e para uma demanda (exigir a permissão), a exposição reafirma seu interesse em pensar o lugar da fala e da escuta. Aqui, a produção contemporânea se apresenta como uma ferramenta potente de reavaliação e rearticulação da história, trazendo para o presente questões do passado cujo impacto pode ser sentido hoje e para frente.

Assim, nos faz pensar que o mundo como o conhecemos, seja em sua dimensão mais pessoal ou em sua dimensão mais pública, é uma construção, uma invenção estabelecida e compartilhada (pacificamente ou não), e como tudo o que é inventado, é inventado por alguém, por algum motivo, muitas vezes com uma boa dose de esforço e 'alternative facts', deixando outras possibilidades e versões de lado, e por ser uma construção, poderia ser desfeito e reinventado a todo e qualquer momento. Toda h/História é uma questão de ponto de vista. Ou você acha mesmo que essa é a ordem natural das coisas?"


“Permissão para falar”
Abertura dia 14 de fevereiro, às 19h
Término dia 25 de março, às 18h
Galeria Athena Contemporânea, Rio de Janeiro
“Avenida Paulista” reúne obras de 59 artistas

“Avenida Paulista” reúne obras de 59 artistas

Recentes e inéditos de Degaki (1974-2013)

Recentes e inéditos de Degaki (1974-2013)