Pinturas de Ropre expõem violência social em “Cadafalso”

Pinturas de Ropre expõem violência social em “Cadafalso”

Ropre é o nome artístico de Alessandra Cunha. Ela vem conquistando espaços com individuais regulares pelo Brasil com obras que trazem sempre algum diferencial

  Atualmente, Ropre expõe conjunto de pinturas sobre cetim que ganham sua assinatura através da serigrafia no Rio de Janeiro (na agenda) e apresenta “Cadafalso” em Minas Gerais. Essa série mais recente nos retira do estável, nos sacode para a reflexão sobre as recorrentes violências com as quais convivemos na sociedade. São 32 pinturas em acrílica sobre algodão cru, costuradas previamente sobre chapa de MDF 0,6, encapando-a, com medidas aproximadas de 46 x 34 cm. As obras começaram a ser produzidas em 2016 e foram finalizadas em 2017 (acima, "Pedofilia"). A temática sobre a opressão ultrapassam questões sexuais, envolvendo completamente toda a estrutura social. De forma contundente, as pinturas de Ropre nos trazem à gravidade dos problemas causados pelo sistema capitalista.

Poesia retumbante

  Ropre começou a pensar esta série a partir de uma visita a outra exposição individual. Ela conta que “após visitar a exposição de pinturas e instalação da artista alagoana Hilda Moura, no mês de outubro de 2016, em Maceió, algo se descolou do lugar de conforto. As pinturas de Hilda me afetaram com um estrondoso silêncio capaz de quebrar meu próprio silêncio (já que trás imagens de mulheres de alguma maneira reprimidas, discriminadas, aprisionadas), assunto que identifiquei comum em nossos trabalhos. Porém, ao contrário de Hilda, que apresenta belíssimas pinturas contidas e harmoniosas, em minhas pinturas há um grito colorido e até doloroso pautado pelos contrastes e vibrações. Os símbolos, nesta série de pinturas são explícitos, chocantes, desejosos de um impacto reflexivo. Como um oposto do que foi sentido ao visitar as pinturas da artista alagoana. Se o trabalho dela é silencioso e provocou uma turbulência em mim, desejei pintar turbulentas imagens para causar um silencio no observador”.

Ropre, Cama, 2017, pintura acrílica s algodão cru costurado s chapa MDF 0,6, 46x34 cm

Ropre, Cama, 2017, pintura acrílica s algodão cru costurado s chapa MDF 0,6, 46x34 cm

Antiga e urgente temática

  Se alguns artistas trabalham alheios à sociedade e às suas ordens, outros escolhem seguir o rumo do reflexivo, trazendo importantes questões ao processo criativo. Ropre explica: “estudando um tema recorrente e ainda praticado com ênfase em várias culturas patriarcais e machistas, ‘Cadafalso’ refere-se à triste submissão das mulheres aos mandos dos homens ao longo da história da humanidade. Não se trata de uma bandeira puramente feminista, trata-se de simples relatos poéticos/visuais de como as pessoas do sexo masculino se portam diante das demandas de dominação religiosa, política e econômica. As mulheres, crianças, homens pobres, negros, homossexuais, transgêneros e simpatizantes são tratados como seres inferiores e desvalorizados de todas as formas. E no caso das mulheres, são ainda responsáveis por reproduzir produtos (objetos/mercadorias) gerando lucro financeiro e mercadoria humana (seus filhos); herdeiros de linhagens ou mão de obra barata para as fábricas (sendo consideradas úteros do Estado)”.

Sentimentos costurados

  Ao produzir esta série, Ropre preocupou-se com cada detalhe. Todas as obras foram construídas com símbolos que transmitem significados precisos. Por exemplo, como é de manifestação da artista, frases foram escritas nas obras, com as letras ao contrário. Em um conjunto de12 trabalhos, ela grafou “o machismo mata mulheres, gays e trans”; em dez, “o machismo mata, violenta, humilha”; e em outras dez, “o machismo mata – liberte-se da ode ao falo”. Ropre diz que “nesta construção poética, a pintura, aliada à costura manual, são as técnicas escolhidas por possibilitar o uso das cores como uma proclamação do bem estar, ideia que camufla a realidade medonha de se viver em uma sociedade ainda machista que mata mulheres, gays e transexuais, apenas por estarem ali, perto do agressor. Questões costuradas, silenciosamente, em nossas almas, cicatrizadas ou não. Os elementos usados para compor um ambiente contemporâneo e expressar sentimentos sobre a visão atual de como as mulheres, gays e transexuais são usados pelas perversidades do capitalismo, são os apontamentos de tal série de imagens alegres e coloridas, que se voltam para as ‘heranças socioeconômicas absorvidas’ e praticadas ainda hoje”.

Ropre, Do lar, 2017, pintura acrílica s algodão cru costurado s chapa MDF 0,6, 46x34 cm

Ropre, Do lar, 2017, pintura acrílica s algodão cru costurado s chapa MDF 0,6, 46x34 cm

Cadafalso velado

  O nome escolhido para a série já nos remete a ações sombrias. Nos cadafalsos, tablados instalados em lugares públicos para a execução de condenados, o povo assistia a enforcamentos, queima de “bruxas”, crucificação e outros. Carregadas de imagens que podem ser consideradas “pesadas”, as obras de Ropre expressam o que temos na sociedade desde sempre, mas de forma velada. “Para tratar do oprimido, utilizo imagens e elementos que nos revelam o opressor. Ou seja, não são usadas imagens de corpos ou objetos femininos, mas, há uma ênfase no corpo masculino e em símbolos que são memorizados em prol de sua elevação ao poder. Este trabalho questiona também as violências veladas contra as pessoas que passaram a ser escravas de um sistema onde o homem, ora protege suas crias e companheiras, ora apenas usava-as como objeto para satisfação sexual e perpetuação da espécie e linhagem. Estes seres ‘objetualizados’, que não são considerados ‘humanos’ por fazerem parte de um grupo de sexo diferente dos homens  - branco, religiosos, heterossexuais, ricos e potentes - são descartados dentro da ideologia machista impregnada há tempos no imaginário da maioria das sociedades colonizadas por invasores vindos de outros continentes”.

Ropre, No armário, 2017, pintura acrílica s algodão cru costurado s chapa MDF 0,6, 46x34 cm

Ropre, No armário, 2017, pintura acrílica s algodão cru costurado s chapa MDF 0,6, 46x34 cm

Texto crítico de Eliane Tinoco, na íntegra

  “Passo os olhos pelas imagens. As cores chamam a atenção. Muito vermelho e amarelo, um ocre forte. Uma segunda passada de olhos e vejo figuras humanas, homens, seriam Apolos? Hércules? Mas há um homem obeso. Ah, preciso olhar melhor.

  Os olhos continuam correndo pelas imagens e eu tentando pará-los. Umas caveiras, uns falos começam a chamar a atenção. Vamos, pare demoradamente em cada uma das imagens!

  Um suspiro e consigo fixar em uma imagem. Vejo uma frase que está escrita de trás para frente. Brincando de ser Leonardo? Não, é apenas uma das tantas citações presentes nas telas.

  A arte contemporânea permite que a artista beba em diversas fontes para a sua produção. Por isso, nas imagens da série “Cadafalso” é possível perceber figuras clássicas, escritas renascentistas, cores fouvistase referências ao grafite.

  Os homens, seus falos e suas mãos em atitudes agressivas, apresentam o mote da série: a violência machista em todos os sentidos e contra todos os públicos, não apenas contra as mulheres.

  A violência estampada nos noticiários contra a população LGBT e sim, também contra as mulheres, transforma-se em pintura pelas mãos de Ropre. Daí as cores fortes, a diversidade de corpos masculinos, os falos em riste e as mãos obscenas. Signos que contam sobre a dor, sobre o desconforto, sobre a indignação da artista diante das atrocidades diárias, promovidas pelo machismo descarado e/ou mascarado.

  Pelas palavras da artista: “desejei pintar turbulentas imagens para causar um silêncio no observador.”

  É esse silêncio que sinto agora.

  Após a primeira impressão que causou a turbulência no olhar, o silêncio me consome e faz refletir: Até quando?”

Ropre, Rede/Prisão, 2017, pintura acrílica s algodão cru costurado s chapa MDF0,6, 46x34 cm

Ropre, Rede/Prisão, 2017, pintura acrílica s algodão cru costurado s chapa MDF0,6, 46x34 cm

“Cadafalso”
Término dia 12 de abril, às 18h
Galeria de Arte Lourdes Saraiva Queiroz , Uberlândia
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