"Que bloco é esse?" - Ilê Aiyê mostra o  mundo negro pra você

"Que bloco é esse?" - Ilê Aiyê mostra o mundo negro pra você

42ª edição da Ocupação faz homenagem ao primeiro Bloco Afro do Brasil, fundado em 1974 na Bahia

A mostra é dividida em quatro eixos principais que contam a história do Ilê Aiyê - do surgimento até sua expansão e atuação para além do Carnaval. Notável, o Ilê Aiyê apresenta a história que ainda é velada, a história da resistência dos negros contra os desmandos que oprimem a liberdade dos seres humanos. Fundado por um grupo ousado e ciente da importância dos outros conhecerem essa história, o Bloco combateu um Carnaval que era feito somente pelos brancos e levou para as ruas de Salvador a cultura negra com formação somente por negros. E foi essa iniciativa que rompeu àquela exclusão dos negros e extrapolou os limites de Salvador. Apesar de ser conhecido internacionalmente, o Ilê Aiyê ainda hoje é uma novidade para muitos. Os olhares curiosos do público nessa Ocupação, revelam que a sociedade brasileira ainda tem muito a conhecer e a aprender sobre a sua própria história. Na reprodução acima, a riqueza dos turbantes em detalhe da foto de Rovena Rosa/Agência Brasil - veja na íntegra no final desta postagem.

O artista baiano J.Cunha imprimiu as cores do Ilê Aiyê na fachada do Itaú Cultural na Avenida Paulista

O artista baiano J.Cunha imprimiu as cores do Ilê Aiyê na fachada do Itaú Cultural na Avenida Paulista

História em quatro cores

A exposição começa pelo preto, trazendo as histórias das pessoas que construíram o grupo. Nessa parte, há fotografias e é possível ouvir a voz de Luedji Luna interpretando Luz cantada a capela, uma das composições do Bloco. A trilha sonora é composta ainda pelo som do mar e com a menção a nomes importantes da luta antirracista.

O envolvente som dos tambores evoca à participação numa incomparável apresentação da cultura negra

O envolvente som dos tambores evoca à participação numa incomparável apresentação da cultura negra

O vermelho vem em seguida, invocando a luminosidade do candomblé e da cultura negra. Com depoimentos dos integrantes do bloco, o visitante pode conhecer as crenças do grupo. Projeções mostram o carnaval baiano e os tambores. Há documentos originais, croquis dos carros alegóricos e recortes de jornais.

O amarelo está presente no dourado, na beleza das vestimentas afro e são apresentadas nos padrões históricos dos 44 carnavais desfilados pelo Bloco e na eleição da Deusa do Ébano, escolhida dentro da comunidade para conduzir a folia.

No eixo branco, os projetos sociais desenvolvidos pelo Ilê Aiyê como por exemplo a A paz e a cura compõe o eixo branco da exposição. Aqui o visitante pode conhecer os projetos sociais educativos, de música e de divulgação da cultura afro.

Ocupações culturais

O evento intitulado “Ocupação” existe desde 2009 quando Nelson Leirner foi tema. Nessa estreia, o texto de curadoria assinado por Agnaldo Farias, resumia ao que vinha essa atividade: “Ao contrário das xícaras, das cadeiras, dos postes, dos tratores e dos porta-aviões que as indústrias nos entregam prontos e em séries iguais, as grandes obras de arte são, de certo modo, inacabadas. E isso acontece porque nunca cessam de nos surpreender, de puxar pela nossa inteligência, chamando-nos a atenção para aspectos novos, delas e, feitas as contas, de nós mesmos. Cada obra de arte é uma aventura que só se completa com a leitura de quem entra em contato com ela. Há também o fato de que aqueles que a produzem, os artistas, sejam perpetuamente insatisfeitos: terminada uma obra, eles, mesmo sem o pedido de ninguém, indiferentes ao mercado, partem para o trabalho seguinte, o que é um modo de tratar da sua insatisfação, dilatando infinitamente sua pesquisa. Por isso é que cada obra dialoga com as anteriores, mesmo que seja bem diferente delas”. No caso dessa 42ª da Ocupação, trazer o Ilê Aiyê significa justamente nos apresentar esse universo que enquanto público precisamos digerir. A Arte negra está aí para ser conhecida e só cabe a nós agora a sua repercussão para que essa cultura seja preservada.

Os figurinos são marcantes da cultura afro e têm destaque especial nessa mostra / Foto de André Seiti

Os figurinos são marcantes da cultura afro e têm destaque especial nessa mostra / Foto de André Seiti

Registro proibido

Considerado hoje Patrimônio Cultural da Bahia, o Ilê Ayê é chamado de “o mais belo dos mais belos”, mas nem sempre foi assim como conta Antônio Carlos dos Santos, conhecido como o “Vovô do Ilê”, Presidente e fundador do Bloco com Apolônio de Jesus em novembro de 1974 com cem integrantes, todos negros. “Como queríamos mostrar o mundo negro, decidimos que só participariam os negros, mas isto gerou polêmica e foi preciso explicarmos que era esse mesmo o nosso objetivo: chamar a atenção para a não participação dos negros no Carnaval da Bahia”. O “Vovô” é um dos cinco filhos de Mãe Hilda Jitolú (1923-2009), Ialorixá e líder espiritual que comandava a cerimônia religiosa que antecedia o desfile do Bloco com ponto alto na soltura de pombos brancos por todos os diretores e pela rainha, chamada de Deusa de Ébano. Hoje, com mais de três mil associados, a saída do Bloco é um dos momentos mais aguardados no Carnaval de Salvador, que começa na subida da ladeira do Curuzu, no bairro da Liberdade, abrindo caminho para o desfile no Campo Grande. Nos anos 70, acusado de ter “inconcebíveis intenções subversivas” pelo regime civil-militar, o registro do nome Poder Negro foi impedido pela Polícia Federal Baiana. Ao desfilar pela primeira vez, em fevereiro de 1975, já era chamado de Ilê Aiyê (Terra da Vida, no dialeto africano).

Fundador e presidente do Bloco, Antônio Carlos, o Vovô, defende a difusão permanente da cultura afro

Fundador e presidente do Bloco, Antônio Carlos, o Vovô, defende a difusão permanente da cultura afro

Reafricanização dos costumes

Neste 2019, para comemorar os 45 anos do Ilê, o Bloco vai fazer uma retrospectiva, então vai ter como tema “Que bloco é esse?”, a música do primeiro desfile. Além da apresentação no Carnaval da Bahia, o Bloco realiza ações sociais de valorização da cultura negra e de combate ao racismo, mantendo, por exemplo, escolas para crianças carentes em Salvador. A plasticidade de figurinos e coreografia chamam a atenção junto com a música calcada no batuque dos tambores e na potência das vozes. Entre as composições estão sucessos como Charme da liberdadeDepois que o Ilê passarDeusa do ÉbanoQue bloco é esse? e Negrume da noite. Nas programações ao longo do ano, o Ilê apresenta-se em diversas cidades brasileiras e no exterior. No réveillon de 2018-2019, o Bloco foi a atração principal na festa no Distrito Federal, na Prainha dos Orixás, Lago Sul. “Espero que possamos continuar desenvolvendo nosso trabalho ligado à música e à poesia, visando o resgate da autoestima do povo negro brasileiro, sem nos preocuparmos com retaliação ou coisas do gênero”, disse Vovô recentemente.  O Bloco tem construído fama internacional e já passou por vários lugares como China, EUA, países da Europa, América Latina, Caribe e África onde mais esteve. Lá, já se apresentou em Angola, Benim, Costa do Marfim e Senegal. No momento, aguarda patrocínio das passagens aéreas para apresentar-se no 50º Festival de Jazz de New Orleans (EUA) ainda em janeiro. Nessa Ocupação, apresenta-se principalmente o que faz do Ilê Aiyê um Bloco sólido: a ação afirmativa da raça e o projeto de pesquisa e informação sobre o valor dos povos de origem africana e suas reverberações em costumes como a poesia, a música, a dança e o vestuário.

“Ocupação homenageia a trajetória do Ilê Aiyê”

Término dia 06 de janeiro de 2019

De terça a sexta, das 9 às 20h (permanência até 20h30) com entrada franca

Itaú Cultural, São Paulo

Sexta (5) e sábado (6), show com 17 componentes do Ilê e Jéssica Nascimento, Deusa do Ébano de 2018 no Auditório do Ibirapuera, zona sul paulistana com participação de convidados, como os grupos paulistanos Ilú Obá De Min e Ilú Inã, além das cantoras baianas Xênia França e Luedji Luna. Os ingressos custam entre R$ 30 e R$ 15.

ilê-turbantes.jpg



"Ai Weiwei Raiz" arranca inúmeras reflexões do público em São Paulo

"Ai Weiwei Raiz" arranca inúmeras reflexões do público em São Paulo

A forte expressividade das cores no conjunto de obras de Lasar Segall

A forte expressividade das cores no conjunto de obras de Lasar Segall