Retrospectiva de Lydia Okumura no Brasil

Retrospectiva de Lydia Okumura no Brasil

“Dentro, o que existe fora” esteve em Buffalo , nos EUA, e depois de São Paulo vai continuar itinerância por Utah, Texas, Pasadena e Nova York

A artista brasileira vive e trabalha em Nova York desde 1974. Tem trajetória internacional que inclui diversas exposições e premiações no Brasil. Sua sala especial recebeu um dos dez Prêmios Bienal de São Paulo em 1977, ocupou o Espaço Arena da Pinacoteca em 1981 e teve sala especial na Bienal em 1983. Na imagem acima, "Untitled I", 1981. Em 1984, ocupou simultaneamente o MAM e a Galeria São Paulo. O público poderá agora conferir uma retrospectiva de seus principais trabalhos na mostra dentro, o que existe fora, na Galeria Jaqueline Martins. A exposição irá ocupar todo o segundo andar com instalações e obras em papel, desenhos e projetos originalmente apresentados nas décadas de 1970 e 1980.

Trajetória premiada

Teve sua primeira exposição individual de objetos/pinturas em 1968 e ganhou prêmios de competições de arte antes de obter seu Bacharelado de Artes plásticas pela FAAP, em São Paulo, 1973. Foi integrante do grupo Equipe 3 (1970-1979) e, junto com eles, contribuiu de maneira fundamental para a arte instalação e site-specific através da apropriação de elementos da arquitetura. A partir de 1972, ela participa da Bienal Nacional (São Paulo) e várias edições da Bienal Internacional de São Paulo (1973, 1977, 1979 e 1983). Foi a primeira artista brasileira a apresentar seu trabalho no Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque em 1978, e seu trabalho integra coleções no Japão, Chile, Venezuela, Colombia, Noruega e Estados Unidos. No Brasil, sua obra pode ser vista na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte Moderna (MAM), Museu de Arte Contemporânea (Mac/USP), Palácio do Itamarati em Brasilia e em diversas coleções particulares. 

String Piece, 1975

String Piece, 1975

Influências japonesas

Da época de criança, passando pela juventude e chegando ao sucesso de uma carreira estabelecida, Lydia Okumura guarda lembranças especiais. Mas, o que nos chama atenção é como essas histórias reais se repetem na nossa sociedade. A seguir, publicamos o depoimento da artista na íntegra. “Em minhas lembranças de infância, aos quatro anos, em uma escola japonesa no Brasil, era natural ver os nossos desenhos postados na parede. Aos dez anos, em outra escola japonesa em São Paulo, tivemos aulas de Pintura com um pintor profissional, Masao Okinaka. Quando eu recebi certificados na pintura, caligrafia e composição escrita em uma competição de escala nacional, minha mãe guardou a notícia publicada em um jornal japonês. Aos 11 anos, optei para a escola secundária, uma escola profissional feminina, pela grande variedade de disciplinas que ofereciam. Aos 12 anos, a diretora da escola me seleciona para receber um das bolsas de estudos em cerâmica. Primeiro. ocupei um pequeno estúdio, onde mais tarde trabalhei, desenhando para uma linha de produção; e depois, para cerâmica industrial, num curso livre da FAAP, mas logo comecei a usar materiais encontrados, como resíduo industrial e tinta laca sobre madeira”.

Valores conflitantes

Da juventude às vivências em exposições, Lydia conseguiu destacar-se principalmente através do reconhecimento que surgiu a partir de premiações. Ela conta que antes, precisou convencer o pai de que era na Arte que estava a sua vida. “Aos 17 anos, meu pai tentou me persuadir a desistir da arte e a escolher uma carreira ‘mais fácil’ para mim. Em seguida, ele atribuiu a minha teimosia como um ‘karma’, que se criou quando ele próprio teve que desistir de ser artista aos seus 17 anos. Fui então liberada para ‘continuar, até eu desistir’. Durante o ensino médio eu participei em salões de arte ao redor de São Paulo, conheci outros artistas, o que me permitiu a fazer uma exposição individual dos meus "pintura/objetos" quando eu tinha 19 anos. Crescer entre as diferentes culturas no Brasil me fez reconciliar dentro de mim os muitos valores conflitantes;  comecei a transformar o dilema em contradições harmoniosas, inventando diagramas e frases”.

Arte Conceitual

A partir do conhecimento sobre obras conceituais, Lydia produz obras experimentais e conquista o reconhecimento no Brasil. “Em 1970, já na faculdade, li em uma revista Japonesa sobre a Bienal de Tóquio, apresentando 40 artistas conceituais, do Oriente e do Ocidente. Comecei a discutir sobre as formas novas de arte com dois amigos artistas, Genilson Soares e Francisco Inarra. Na faculdade, eu marquei as minhas atividades de arte na coluna para dias ausentes nos cartões de entrada e saída de um estágio que fiz em uma agência de publicidade durante três meses, para a disciplina de Comunicação Visual, e quando eu mostrei na aula, isto provocou uma discussão e nasceu assim uma exposição com colegas artistas, convidando Genilson e Francisco, no Centro Cultural SESC Villa-Nova, em 1971. Segundo o crítico de arte Mário Schemberg, esta foi “a primeira exposição de arte conceitual no Brasil”.

Different Dimensions of reality, 1971

Different Dimensions of reality, 1971

Obra Fotográfica

Com Genilson e Francisco, levávamos ferramentas e materiais para as competições de arte e criávamos as nossas obras, com permissão dos organizadores dos eventos em casos de ter que aplicar tinta ou prego diretamente em paredes ou no chão. Embora nós aparentássemos ser um grupo, nossas obras eram individuais. Na Bienal Nacional de 1972, por exemplo, fomos criando obras onde encontrávamos espaço disponível. Em 1973, fomos convidados para a Bienal Internacional de São Paulo como um grupo e fomos atribuídos para um espaço fechado. Isto desafiou-nos a criar uma interação visualmente harmoniosa. Manteríamos nossa individualidade, enquanto nós estaríamos cientes de que qualquer coisa no espaço alteraria a totalidade dentro do espaço. Ao longo do processo, eu comecei a documentar fotograficamente, correndo para o laboratório de Fotografia na faculdade e trazendo de volta as fotos, que mostramos em uma sala separada. Esta obra que chamei de "Pontos de Vista",  recebeu o "Prêmio Secretaria da Cultura, Esportes e Turismo", por um júri internacional.

Uma carreira fora do Brasil

A partir da participação na Bienal Internacional de São Paulo, em 1973, Lydia recebeu convites: um de Clara Diement de Sujo, para expor na sua galeria Stúdio Actual, em Caracas, Venezuela, realizado em 1975;  e outro de Roy Slade, realizado em 1979, na Cranbrook Academy of Arts, em Michigan, EUA. Logo depois da Bienal, Lydia formou-se e em 1974 foi viver e trabalhar em Nova York com o visto de estudante no Pratt Graphics Center de Manhattan. Em 1977, é convidada para participar da Bienal de São Paulo. “Minha instalação na Bienal ocupava um enorme recinto, onde fiz uma construção de parede e chão ‘Na frente da Luz’, feita com um conjunto e sequência de vidro suspenso em semicírculo e apoiado no chão de concreto. Pintei o piso de concreto para parecer um piso de madeira, a fim de corresponder aos grandes conjuntos de obras sobre papel, mostrando recintos, que trouxe de Nova York, e exibindo-as ao longo das paredes nos lados desse espaço”, conta a artista que foi premiada com um dos 10 prêmios daquela Bienal Internacional São Paulo.

Obras no Metropolitan

Ao receber um dos dez prêmios da Bienal em 1977, a carreira de Lydia deslanchou com uma série de exposições e instalações residenciais que se seguiram em Nova York. “O Prêmio da Bienal não só reconheceu-me como uma artista para os olhos do meu pai, mas levou a uma sequencia de eventos, tais como uma exposição individual de meus trabalhos de gravura no Pratt Graphic Center de Manhattan; um estatuto de residente nos Estados Unidos; uma bolsa-prêmio da CAPS de serviço público de artistas criativos do estado de Nova York; culminando na inserção na coleção do Museu Metropolitan, em 1978. Também recebi a viagem de residência da Fundação Japão ao Japão, do Brasil, que me permitiu ter três exposições de obras gráficas e instalação lá e fui incluída na coleção The Hara Museum of Contemporary Art, em 1980, onde hoje permanece no museu anexo, em Nagano.

PSI, 1981

PSI, 1981

A obra envolve o espaço

A artista explica que fazia instalações na maioria das vezes baseadas em elementos da arquitetura dos espaços de exposição, às vezes de formas salientes em prismas e pintura nas paredes e pisos. “Eu construí estruturas virtuais, atravessando paredes, teto e pisos, deslizando entre as duas e três dimensões. De certa forma, o tema do meu trabalho sempre foi o próprio espectador, que andando dentro do espaço passava a refletir sobre si mesmos. Com o trabalho gráfico, eu manipulava fotos de maquete de espaços, e com obras sobre papel, às vezes combinando as folhas separadas em espaços grandes de parede. Para a Bienal de São Paulo em 1983, me deram um recinto de quatro paredes, em que pintei as paredes e o chão, em uma variedade de cores e a construção de parede a parede de linhas suspensas. Ainda em São Paulo em 1984, enquanto preparava uma exposição de pintura para a Galeria São Paulo, recebi um convite para usar um espaço inteiro no Museu de Arte Moderna em São Paulo. Dado um curto prazo de apenas 30 dias para a produção, aproveitei a oportunidade de utilizar os materiais disponibilizados para mim pelo Museu, tais como painéis de madeira, tecidos elásticos, telas de arame e fio de aço. Criei peças de parede, esculturas, instalações até o momento da abertura da exposição, resultando em mais de 45 obras. Ambas as exposições, a do Museu e da Galeria de arte ocorreram quase ao mesmo tempo, e eu soube mais tarde, tinha sido uma visita obrigatória para todos os estudantes de arte em São Paulo na época. Durante uma exposição no Museu de Arte Moderna, tive a oportunidade de deixar algumas crianças entrarem na exposição, aquelas crianças que estavam sempre a espreitar através das paredes de vidro enquanto guardavam carros lá fora. Enquanto eu os obsevava, movendo-se lentamente em torno de cada um dos meus trabalhos, descalços, parando às vezes com as mãos cruzadas atrás, eu fiquei impressionada com uma emoção forte que me atingiu, que fez valer a pena toda a luta”.

Concentração mental

Com vasta experiência no mercado de Arte e em produzir sua Arte despojada de pre-conceitos, Lydia Okumura afirma que “desde que a arte é um reflexo da mente, tento valorizar todas de experiências e circunstâncias da minha vida como trampolins para um outro nível de compreensão sobre mim. Se a vida é um espaço em branco na nossa frente, como o de uma tela, ela é sempre um desafio técnico e filosófico, refletindo sobre uma escolha, uma concentração mental. O foco, que focava no centro da tela, também passa a expandir por toda a superfície, com luz, construído em cada faceta, criando continuamente mudanças de percepção. Nos anos de 2000, em um feliz achado, eu pude fazer a passagem de pinturas esticadas em quatro lados, para círculos, que se tornou um novo desafio para configurar forma e abstração em uma nova mandala em novas aberturas de interpretação. Independentemente do formato, espero que meu trabalho pode aparecer como uma música: em harmonia, com ritmo, uma antena inquietante para o cosmos, nas palavras do crítico que tanto reconheceu e apoiou, nós, os artistas - o sempre querido, professor Mário Schemberg”.

“Dentro, o que existe fora”
Abertura dia 4 de fevereiro, às 12h
Término dia 4 de abril, às 17h
Galeria Jaqueline Martins, São Paulo
Mostra percorre História da Direção de Arte no Brasil

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