Simbologia africana e ativismo na obra de Rubem Valentim

Simbologia africana e ativismo na obra de Rubem Valentim

Mais de cem obras do artista brasileiro estão em duas mostras individuais em São Paulo

Duas exposições celebram Rubem Valentim (1922-1991) em São Paulo. Pintor, escultor e gravador Rubem Valentim é parte indissociável da arte brasileira no século XX. Ele estava com cerca de 30 anos de idade quando mergulhou profundamente na linguagem da abstração geométrica para construir complexas composições, reconfigurando símbolos, emblemas e referências africanas. Apesar de inserir-se nos conceitos predominantes na Arte daquele tempo, que passeava pela abstração geométrica, Rubem Valentim associava-se mais ao construtivismo do que ao concretismo. Seus desenhos representado figuras de religiões, com traços de machados e flechas, e a escolha por cores das vestimentas usadas pelos religiosos, evidenciam na sua vigorosa produção a forte presença ancestral da África.  Na reprodução acima, obra da série Emblema, 1979. 

 Rubem Valentim, Variação 1, 1987, acrílica sobre tela

Rubem Valentim, Variação 1, 1987, acrílica sobre tela

As exposições

Na Caixa Cultural de São Paulo, a exposição itinerante, apresentada em Brasília, reúne 50 obras selecionadas da carreira do artista, dentre pinturas, gravuras, serigrafias, totens e esculturas, traçando um panorama de sua produção artística. “O trabalho de Valentim tem a autonomia de sua fantasia e assim será lido em tempos futuros. Sua pintura ultrapassa essa objetividade mais visível. Ele desenvolveu sua arte a partir de signos da cultura afro ao som de atabaques que reclamavam uma erudição”, destaca o curador Marcus de Lontra Costa.

 Rubem Valentim, série  Emblema , 1979, acrílico sobre tela

Rubem Valentim, série Emblema, 1979, acrílico sobre tela

No MASP, são 90 obras. O período coberto pela mostra vai desde 1955, quando, ainda em Salvador, Valentim assumiu decididamente suas referências do candomblé e da cultura afro-brasileira, até 1978. Essa exposição atravessa cronologicamente as diferentes fases e locais onde o artista trabalhou: Bahia (1949-1956), Rio de Janeiro (1957-1963), Roma (1964-1966) e Brasília (1967-1978). O conjunto inclui a série Emblemas - logotipos poéticos da cultura afro-brasileira, exposta na Bienal Nacional de São Paulo de 1976, e Relevos - emblemas de 1977/78.

 Rubem Valentim, escultura

Rubem Valentim, escultura


Obra descolonizadora

Com curadoria de Fernando Oliva, curador do MASP, o texto da exposição no Museu cita o Manifesto Antropofágico, de 1928, quando Oswald de Andrade (1890-1954) propunha de forma poética um verdadeiro programa para o intelectual e o artista nativo: o de deglutir o legado cultural europeu para digeri-lo e construir, de maneira antropofágica, uma obra própria, híbrida, brasileira, mesclando referências indígenas, africanas e europeias. Nesse contexto, afirma-se que "Valentim é um dos artistas que, de maneira mais completa e ambiciosa, levou a cabo o projeto antropofágico. Nesse processo, ele realizou uma das mais radicais operações na história da arte brasileira, submetendo um idioma europeu a uma linguagem afro-brasileira, numa contribuição efetivamente singular e potente, descolonizadora e antropofágica". 



Catálogo traz conteúdo inédito

O MASP lança, juntamente com a exposição, o  catálogo "Rubem Valentim: Construções afro-atlânticas", com organização editorial de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, com edições separadas em português e inglês, inclui reproduções de 99 trabalhos do artista. A publicação traz em destaque reproduções inéditas dos cadernos de Rubem Valentim da década de 1960, material raro que vem a público pela primeira vez, trazendo croquis, projetos para obras, anotações e pensamentos do artista. O catálogo é composto por textos de autores convidados a produzir novas reflexões sobre a obra de Valentim, caso de Abigail Lapin Dardashti, Adriano Pedrosa, Artur Santoro, Fernando Oliva, Lilia Schwarcz e Helio Menezes, Lisette Lagnado, Marcelo Mendes Chaves, Marta Mestre, Renata Bittencourt e Roberto Conduru; e republicações de textos históricos, de Clarival do Prado Valadares, Frederico Morais, Giulio Carlo Argan, José Guilherme Merquior, Mário Pedrosa, Roberto Pontual e Bené Fonteles. 

 Rubem Valentim, série  Emblema , 1979, acrílico sobre tela

Rubem Valentim, série Emblema, 1979, acrílico sobre tela

"Rubem Valentim: construção e fé"

Término em 06 de dezembro de 2018

Caixa Cultural São Paulo

"Rubem Valentim: construções afro-atlânticas 

Término dia 10 de março de 2019

MASP - Museu de Arte de São Paulo

Elisa Castro traz "Não ceder ao Medo" ao Hélio Oiticica

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Retratos e paisagens de coleções do MAM Rio em duas exposições

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