Teresinha Soares inaugura eixo sobre Sexualidade no MASP

Teresinha Soares inaugura eixo sobre Sexualidade no MASP

Aos 80 anos, a artista tem primeira exposição panorâmica em um Museu

   “Quem tem medo de Teresinha Soares?” apresenta 50 obras entre 1965 e 1976, período que é considerado o mais produtivo da artista que há quarenta anos não realiza mostra individual. A curadoria da exposição é assinada por Rodrigo Moura, curador-adjunto de arte brasileira do MASP, e Camila Bechelany, curadora-assistente do Museu, com expografia do escritório Metro Arquitetos Associados. O objetivo é divulgar a obra de Teresinha que é pouco conhecida pelo público brasileiro, mas ocupou lugar de destaque nos anos 1960, quando polemizou e contestou, de forma pioneira, sobre assuntos relacionados aos direitos da mulher. E, atualmente, tem cada vez mais integrado exposições internacionais que a contextualizam no marco da nova figuração dos anos 1960, bem como no da arte política, tendo participado da “The EY Exhibition: The World Goes Pop”, no Tate Modern, em 2015, e da “Radical Women: Latin American Art, 1960-1985” no Hammer Museum, Los Angeles, 2017. Na imagem, Teresinha Soares, Pecados Mortais, Filmes Virgens, 1968.

Teresinha Soares, Caixa de fazer amor, 1968, objeto

Teresinha Soares, Caixa de fazer amor, 1968, objeto

Reconhecimento

   Embora seja possível relacionar a obra de Soares a algumas tendências dos anos 1960, como a arte pop global, o nouveau réalisme e a nova objetividade brasileira, a artista sempre insistiu em um caráter espontâneo e pessoal para sua linguagem. Para o curador da exposição Rodrigo Moura, “se hoje seu trabalho começa a ser mais reconhecido, inclusive internacionalmente, uma exposição que acompanha sua trajetória de perto e analisa a evolução de sua linguagem contribui não apenas para esse reconhecimento, mas também para entender os mecanismos e as metodologias que informam uma prática feminista no contexto brasileiro daquele período.” Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, comenta a relevância da mostra: “É um privilégio para o MASP apresentar a primeira exposição panorâmica da artista. Assim o museu cumpre um papel crucial, o de apresentar ao grande público uma obra que deve ser considerada e reinscrita na história recente da arte brasileira.”

Teresinha Soares, Um homem e um mulher, 1967

Teresinha Soares, Um homem e um mulher, 1967

Vencendo tabus

   O título da mostra faz menção à célebre peça “Quem tem medo de Virgina Woolf?’, de Edward Albee, e faz referência aos tabus comportamentais que a obra de Teresinha Soares enfrenta ao se contrapor ao machismo da sociedade e do meio da arte. A exposição apresenta pinturas, desenhos, gravuras, caixas-objetos, relevos e instalações. Também estão incluídas fotografias de performances e happenings que foram apresentados pela artista de forma pioneira.

Teresinha Soares, Morreu tantos homens e eu só, 1968, série Vietnã, técnica mista, 117x152,5 cm

Teresinha Soares, Morreu tantos homens e eu só, 1968, série Vietnã, técnica mista, 117x152,5 cm

Politizada

   Teresinha Soares tornou-se notável também por produzir obras contestadoras, lidando com acontecimentos políticos, como na série de pinturas Vietnã (1968), em que apresenta uma original e irreverente abordagem sobre o tema. 

O corpo é tudo

   Na obra de Teresinha Soares, a representação do corpo é um dos motivos mais recorrentes, abrangendo erotismo, sexo, nascimento, morte e a relação com a natureza. A artista é precursora no Brasil ao abordar em seu trabalho temas sobre gênero, liberação sexual feminina, violência contra a mulher, maternidade e prostituição.

Teresinha Soares, Xifopagas uterinas, 1968, técnica mista

Teresinha Soares, Xifopagas uterinas, 1968, técnica mista

   Na obra “Eurótica” (1970), constituída de um álbum de serigrafias feito a partir de desenhos de linha e impresso em papéis de diferentes cores, uma variedade de posições sexuais se configura a partir de combinações de corpos em diferentes interações libidinosas. A partir desses desenhos eróticos, Soares desenvolveu “Corpo a corpo in cor-pus meus” (1971), sua primeira grande instalação, que representa um marco em sua carreira. Aberta à participação do espectador, a obra é composta de quatro módulos de alturas variadas, feitos de madeira pintada de branco, como uma espécie de tablado em forma sinuosa, que ocupam 24 metros quadrados do espaço.

Histórias da Sexualidade

   A exposição de Teresinha Soares integra a mostra “Histórias da Sexualidade”, que pretende apresentar - com obras de diferentes períodos e acervos - exposições monográficas de artistas brasileiros e internacionais, cujos trabalhos suscitam questionamentos sobre corporalidade, desejo, sensualidade, erotismo, feminismo, questões de gênero, entre outros. Após a de Teresinha Soares, seguem-se individuais de Wanda Pimentel, Henri de Toulouse-Lautrec, Miguel Rio Branco, Guerrilla Girls, Pedro Correia de Araújo e Tunga.

Teresinha Mazei, em 1971

Teresinha Mazei, em 1971

Trajetória de realizações

   Terezinha Soares nasceu em Araxá-Minas Gerais, em 1937. Ela participou de duas edições da Bienal Internacional de São Paulo, em 1967 e em 1973. Tem personalidade feminina potente e emancipada. Conquistou lugares e títulos na sociedade. É escritora e defensora dos direitos das mulheres. Ocupou cargo de primeira vereadora eleita de sua cidade, foi miss, funcionária pública e professora.

Publicação

   O MASP, como parte dos eventos dessa exposição lança publicação especial (R$150,00 pp. 272), que será lançado na abertura da exposição. O livro tem organização editorial de Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura e reúne mais de 200 ilustrações, entre obras de Teresinha Soares, documentos de época e obras de outros artistas com textos de Rodrigo Moura, Cecilia Fajardo-Hill, Frederico Morais, Marília Andrés Ribeiro, Camila Bechelany e Sofia Gotti. Inclui também entrevista de Teresinha Soares a Rodrigo Moura e Camila Bechelany. As crônicas de Teresinha Soares “Amo São Paulo” (1968), “Cor-pus meus versus o mar” (1971) e “O impossível acontece” (1973) também integram o livro.

“Quem tem medo de Teresinha Soares?”

Abertura dia 27 de abril de 2017 com lançamento do Catálogo e performance na instalação “Corpo a corpo in cor-pus meus” (1971), reproduzindo a que foi feita pela artista no Salão Nobre do Museu de Arte da Pampulha, em 1970, com a participação de bailarinos e a narração de um texto gravado por ela.

Término dia 6 de agosto de 2017

Museu de Arte de São Paulo, São Paulo

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