Toda a atualidade da obra de Letícia Parente

Toda a atualidade da obra de Letícia Parente

Mostra resgata processos desenvolvidos pela artista que explorou a coisificação do indivíduo

   O título da exposição, “Eu armário de mim” é o título de um dos audiovisuais mais intrigantes de Letícia Parente (1930-1991). Mas é fundamental destacarmos que sua obra guarda muitíssimo mais do que os famosos vídeos que realizou e que deram a ela o mérito de pioneira da videoarte no Brasil. Esta exposição traz os vídeos, fotografias, as séries em xerox e remonta, pela primeira vez, a instalação “Medidas”, que Letícia apresentou no MAM do Rio de Janeiro, em 1976, considerada a primeira grande manifestação de Ciência e Arte no Brasil. Essa obra expressa a produção de Letícia Parente, reunindo suportes e temáticas permanentes em processos que tiveram o corpo humano como fonte predominante de investigações. Dividida em “estações”, a instalação convida o público a fazer registros das medidas do próprio corpo. Ao mesmo tempo em que Letícia provocava uma exposição de dados pessoais, às vezes perturbadores, ela trazia a discussão sobre as imposições da própria sociedade. E incluiu no percurso um lugar para “medidas secretas”, as não-visíveis. A exposição também mostra fotografias inéditas de Letícia, feitas por seu filho André Parente. Na imagem acima, "Marca Registrada", 1975, vídeo, preto e branco. 

Letícia fez a planta de "Medidas"

Letícia fez a planta de "Medidas"

Processos diversos

   Letícia foi cientista e como tal investigou tudo o que pode como suporte que ainda era considerado moderno. Ela pretendia que a obra levasse o espectador a refletir. E é o que acontece, sempre ao observarmos suas obras. Letícia desenvolveu de forma inovadora audiovisuais, vídeos, fotografias, cópias nas populares Xerox, instalação, desenhos. O cotidiano lhe chamava a atenção como temática, assim como o corpo, os gestos. Letícia podia explorar ainda pequenos atos que produziam efeitos a serem observados.

Retrato social avançado

   No conjunto de obra de Letícia Parente é impossível não destacarmos suas preocupações com o comportamento social e a sua preferência por utilizar o corpo humano.

Letícia Parente, "Marca Registrada", 1975, vídeo 

Letícia Parente, "Marca Registrada", 1975, vídeo 

   Em “Marca Registrada”, 1975, Letícia encara uma brincadeira nordestina e costura, com agulha e linha, na planta do pé, as palavras “Made in Brazil”. No audiovisual “Eu armário de Mim”, por exemplo, o protagonista é um guarda-roupa e o que tem nele – inúmeros tipos de objetos, que de normais para um armário, passam a extrapolar os sentidos, abrangendo móveis de uma casa e até seus integrantes, quando a autora inclui nas filmagens os cinco filhos – tudo sempre arrumado dentro do armário. E começa ou encerra a obra, nos contando que aquilo que vemos faz menção a sua própria existência e/ou daquela sociedade a qual pertencia.

Letícia Parente, "Eu armário de Mim", audiovisual 3'44"

Letícia Parente, "Eu armário de Mim", audiovisual 3'44"

   Na série “Mulheres”, Letícia usa grafismos em imagens preexistentes para abordar temáticas sobre a mulher. “Projeto 158”, de 1975, reúne uma série de fotografias onde Letícia se apropria de imagens de rostos de modelos famosas e provoca distorções. Nada mais natural hoje, quatro décadas depois, em aplicativos de computadores que possibilitam esta “brincadeira” ou em programas que remodelam para “melhor” as fotografias de rostos, principalmente de personalidades.  

Letícia Parente, Sem Título, série "Mulheres", corte de revista e metal s/papel, 31,5x21,5cm

Letícia Parente, Sem Título, série "Mulheres", corte de revista e metal s/papel, 31,5x21,5cm

A influência do corpo

   Completamente presente na obra de Letícia Parente, o corpo dela e de outros sempre era usado. Pedro Parente, artista, filho de Letícia e estudioso da Arte, ressalta que nessas produções “a imagem é uma inflexão, uma dobra, mas a dobra passa pelas atitudes do corpo, pelo ‘mergulho no corpo’ – termo de Oiticica que retomamos como expressão da reversão estética, a cura da obsessão formal modernista”.

Obras perdidas

   Na década de 1970, concentração da produção e experimentações de Letícia Parente, o custo para a reprodução de cópias era elevado. Para participar de diversos eventos, Letícia enviava seus originais, mas alguns desses trabalhos foram perdidos, como o original, por exemplo de "Marca Registrada", 1975. O que exibimos hoje é uma cópia que ela conseguiu fazer do vídeo, preto e branco. E deste mesmo vídeo, ela mandou fazer, em 1980, uma cópia colorida. “A Chamada”, por exemplo, de 1978, é um trabalho que está perdido. O único registro da obra são textos da própria artista, um roteiro onde ela protagoniza: “A artista entra num apartamento, chega à sala onde numa mesa está um gravador de som e um telefone. Grava numa fita a pergunta: ‘Alô, é a Letícia?’. Repete a pergunta muitas vezes. Para a gravação. Volta a fita. Aciona de novo o gravador e deixa a pergunta ecoando. Liga para o telefone do seu próprio apartamento e deixa o fone perto do gravador. Sai do apartamento, desce as escadas, chega à rua, desce a ladeira, entra no seu próprio prédio, sobe as escadas, chega à porta de seu apartamento, abre a porta com a chave, escuta o telefone tocando, retira-o do gancho, ouve sua voz gravada perguntando: ‘Alô, é a Letícia?’ Responde: ‘É a Letícia…’”

Letícia Parente, Sem Título, série "Mulheres"

Letícia Parente, Sem Título, série "Mulheres"

Pioneirismo

   Letícia Parente (1930-1991) é uma daquelas artistas que constrói currículo com ações particulares, pontuais e que entram para a história. Nasceu na Bahia, em Salvador, e aos 20 anos começa a lecionar, profissão da maioria das mulheres brasileiras naqueles tempos. Letícia saiu de Salvador, passou pelo Rio de Janeiro, por Minas, Fortaleza e volta ao Rio. Em 1972, mãe de cinco filhos, estuda no recém-fundado Núcleo de Artes e Criatividade e tem aulas com Pedro Dominguez e Hilo Krugle. E, em 1973, apresenta monotipias em sua primeira individual no Museu de Arte Contemporânea de Fortaleza. Vence o Salão de Abril de Fortaleza. Forma-se em Química e começa a lecionar na Universidade Federal Fluminense. Em 1976, realiza a primeira exposição de arte e ciência no Brasil no MAM Rio. Começa a produzir vídeos. Com Anna Bella Geiger com quem teve aulas e absorveu influências, participa da formação de um grupo com outros artistas, como Fernando Cocchiaralli, Paulo Herkenhoff, Ana Vitória Mussi, Miriam Danowski, Ivens Machado e Sonia Andrade. Em 1981, ganha prestígio ao participar da Bienal de São Paulo. Segue os estudos da Química e tornou-se doutora. Esse trânsito entre Ciência e Arte, proporcionou que Letícia desenvolvesse conhecimentos que a possibilitaram experimentar processos criativos únicos. “Em geral, a gente tem que ter essa caminhada, um processo de gestação de certo modo, eu não sei dizer o que é – se é emocional, se é intuitivo – e depois tem a parte de reflexão. Realmente o pensamento faz a consistência, elabora as amarras das coisas”, dizia.  

Fotografia da série "Projeto 158", 1975, 24x18cm

Fotografia da série "Projeto 158", 1975, 24x18cm

Pensamento elaborado

   Para esta exposição, Laura Erber, escritora e professora, assina texto de apresentação que reproduzimos na íntegra a seguir:

 “Mulher rente às coisas

   Uma mulher rente às coisas pergunta sobre os modos de existir. O corpo, o nome, a casa, espessura na qual na qual o sujeito é inscrito e cotidianamente modelado.

   Na pequena fratura de um gesto cotidiano uma mulher rente à si mesma questiona a topografia da vida rente às coisas e seus usos. A casa, a dobra, os pronomes. Espaços de guardar são igualmente lugares para se perder. Eu entulho de mim mesma. Eu resto. Eu mobília. Eu objeto de mim.

   Eu e minha família como se fossemos uma frase sem verbos no interior de um armário. Excesso de mim.

   O mundo deve ser medido a olho?

   Viver a vida, ser alguém, ter onde ir, o que isso significa?

   Que tipo de sentido se pode inferir da forma de um nariz, da distância entre os olhos?

   Aqui as respostas são gestadas na circularidade cognitiva, no convite à autoconsciência dos parâmetros. Uma autopoética que investiga nossos parâmetros reguladores. Conhecer o conhecer. Uma casa também é uma palavra à espera de sentido. Uma mulher. Todo nome é impróprio.

   Nos trabalhos aqui expostos há experiências compactas e de uma secura corajosa, a casa é o laboratório, o espaço doméstico é indomável, seus vídeos e ações são desprovidas de promessas, não há ilusões, nem sequer a ilusão de não haver ilusão, papéis xerocados, desenhos, o conjunto expõe o modo pelo qual nossa experiência de nós mesmos no mundo.

   O humor prosaico mas implacável, espécie de suor frio, de alguém que se objetifica para melhor mostrar o jogo de forças de que se constitui essa subjetividade.

   Armário de mim é um dos modos de estar fora de si. Criar métodos de auto-observação nos quais o observador observa a própria observação. Há algo de fenomenológico e muito de político nesse gesto.

   Expressar as próprias capacidades perceptivas ao rés da intuição conceitual. Onde nascem as medidas. Uma mulher medieval rente à língua disse que “não possuímos coisa alguma na terra além do poder de falar EU.” o poder de falar eu aqui é o poder de se perder em si.

   Quando a linguagem que é fenômeno do corpo é igualmente uma modalidade de gesto. Não por acaso a presença da linguagem-reza nos remete exatamente à sensação de que a voz é um gesto corporal.

   Ainda que tudo seja breve, há por trás de cada trabalho uma paciência holística, uma precisão, mas nunca esnobe, um modo de fazer com que a vida se mostre em desacerto, se desacomode de suas próprias medidas, e que os espaços mais familiares sejam também os mais difíceis de acessar. Ainda que isso dure um longo minuto apenas”.

“Eu armário de mim”
Término dia 20 de maio de 2017, às
Jaqueline Martins Galeria de Arte, São Paulo

 

Rio Mapping é o maior Festival de Arte Visual da América Latina

Rio Mapping é o maior Festival de Arte Visual da América Latina

O monumental “Pop Galo” vai do Tejo para Pequim

O monumental “Pop Galo” vai do Tejo para Pequim