Os elementos urbanos de Marcela Gontijo

Os elementos urbanos de Marcela Gontijo

Pinturas apresentam relevo, ganham aplicação intensa de tinta e resultam numa espécie de mapa da metrópoles

Por ter vivido em algumas metrópoles, Marcela Gontijo absorveu elementos que a inspiraram a produzir esta recente série de telas. A individual na Galeria Movimento apresenta obras inéditas criadas nos últimos quatro anos, período em que viveu em Hong Kong numa região chamada New Territories. “É uma área fora do centro, bastante industrial, mas que agora tem também algumas residências. Um espaço em total transformação”, diz Marcela Gontijo. Além de basear-se nestas transformações da cidade, a artista reuniu informações urbanas como jornais, fotos de ruas, ritmo acelerado e mistura de etnias. E a inspiração não pára em Hong Kong, mas passeia por outros centros urbanos. Antes de New Territories, a artista residiu em São Paulo e Cidade do México, por exemplo. Para incluir o Rio de Janeiro, a artista selecionou dois trabalhos para serem finalizados às vésperas da abertura da exposição.

As cidades e os sentimentos

Ao absorver elementos urbanos para produzir suas obras, Marcela Gontijo quer causar reflexão sobre questões comuns aos grandes centros urbanos em todo o mundo, como, por exemplo, a especulação imobiliária. “Com essa exposição quero chamar a atenção para a multiplicidade. O mundo mudou, não cabem mais muros. Temos que criar novas formas de entender o território e suas ocupações”, resume Marcela Gontijo.

Cada tela passou por vários processos. A artista começou pelas pinturas, depois vieram as colagens a partir dos elementos urbanos e, por fim, as grossas fitas coloridas, restos encontrados de lojas em New Terrotories. Como uma trama urbana, parte dos trabalhos de Marcela não têm molduras, são colados à parede, num repertório como o das metrópoles, onde não se sabe onde é o início ou o fim. 

“Este sintoma de uma cidade em transformação, atravessada por novas configurações geográficas, oportunidades de trocas culturais, cores, formatos, enfim, um turbilhão de informações e também revezes geram os mapas ou pinturas de Gontijo”, escreve Felipe Scovino, que assina o texto de apresentação da individual, publicado a seguir na íntegra. 

Texto de Felipe Scovino sobre "New Territories"

“A obra de Marcela Gontijo não só tem a cidade como tema mas é atravessada por ela. Seu trabalho destaca e explora a velocidade, a transitoriedade e a diversidade que fazem parte de uma grande metrópole. As obras dessa exposição – nomeadas como New Territories - foram produzidas em Hong Kong, uma cidade cosmopolita e que nas décadas recentes foi tomada por arranha-céus, empresas multinacionais, grandes escritórios, modernização da sua área metropolitana e ampliação dos serviços públicos mas também por uma forte especulação imobiliária, especialmente em áreas que eram pouco habitadas e sofriam de uma carência do Estado. Enfim, uma história semelhante, guardadas as suas especificidades e características naturais, culturais e econômicas, a que o Rio de Janeiro vem passando.

Este sintoma de uma cidade em transformação, atravessada por novas configurações geográficas, oportunidades de trocas culturais, cores, formatos, enfim, um turbilhão de informações e também revezes geram os mapas ou pinturas de Gontijo. Afirmo que são pinturas pois nascem do plano e se conectam, por isso mesmo, a plantas baixas. É como se pudéssemos perceber através delas, a diagramação e escala de novos bairros, a disposição das áreas urbanas mas também uma espécie de imagem e som da cidade. A artista faz uso de recortes de jornais e revistas que colados um ao lado do outro ou sobrepostos, e depois sendo cobertos por uma camada de tinta, revelam uma cacofonia e perturbação visual que são típicos de uma cidade em convulsão, crescendo, expandindo, ativando todos os componentes que a fazem ser uma metrópole. Um aspecto novo que Gontijo traz é a aplicação da tinta: ela é aplicada sobre uma superfície de plástico, descola-se desse suporte e ganha autonomia e volume. Finalmente é colada na lona ou no compensado, que são os suportes de suas obras. Esse efeito ganha uma conjunção com todo o conjunto de sua obra, pois quando tomamos contato com ela percebemos sua característica ilusória: ela se expande pelo espaço, já que a aglomeração e sobreposição de processos utilizados pela artista faz com que as obras cresçam, estufem, ganhem volume e densidade. Elas querem ganhar o espaço assim como as metrópoles que a cada dia têm as suas fronteiras reinventadas.

Essa conjunção de formas, ruídos e diferenças da cidade ganha uma leitura ainda mais convincente da sua heterogeneidade ao interpretarmos as fitas adesivas e monocromáticas como ativadoras do espaço. Os recortes e colagens, por sua vez, me remetem aos muros das cidades, grafitados e muitas vezes preenchidos por “rasuras” e restos de cartazes ou da sobreposição e acúmulo destes no espaço urbano. Todas essas imagens que constam na obra da artista funcionam como fronteiras desse espaço veloz e multifacetado que é a cidade. Em algumas obras, os diagramas que são construídos com as fitas lembram a estrutura do mapa de um sistema de metrô, ou de ruas e avenidas sendo atravessadas ou ainda de fachadas de prédios, o que intensifica o grau de caos e o ritmo intenso da cidade.

O conjunto de colagens, recortes, fitas adesivas e tinta evidencia a complexa trama de uma cidade. Estão lá a diversidade de distúrbios, línguas, aproximações, estranhamentos, atritos, culturas, sons que geram embates e diferenças entre eles, e é exatamente por esse motivo que a cidade se torna ativa e vibrante.

Nessa série de obras, as imagens que se revelam são leituras e circunstâncias de uma velocidade frenética do tempo e da ação do homem. Diante dessas obras, conseguimos fabricar uma pausa, um intervalo, e observar e especular atentamente sobre os diversos signos que nos confrontam. Estão lá o bombardeamento constante das mídias, a compulsão, as benesses do progresso mas também o aceleramento desenfreado das cidades que pode acarretar em diferenças sociais e econômicas irreversíveis. Gosto de pensar que essas obras representam um microcosmo do nosso tempo e em particular do movimento sem controle das cidades. Esta sensação de dispersão, falta de controle em alguns momentos e alargamento das cidades se reflete na obra da artista pelo fato também do nosso olhar perder um ponto de referência. Ele é levado a vagar simultaneamente por uma multiplicidade de áreas, sem se prender a um centro.

Suas obras sofrem influência não apenas do ritmo transitório e acelerado das cidades mas também daquilo que as singulariza. Estão lá recortes de prédios e marcos da cidade, e as fitas que identificam os limites urbanos mas há uma outra camada além dessa. Sem de modo algum desqualificar a obra, pelo contrário, mas há uma visualidade de um procedimento de gambiarra que atravessa a sua produção. Podemos perceber isso em alguns dos registros fotográficos que compõem as obras pois elas evidenciam práticas que são ao mesmo tempo culturais e feitas no improviso (é o caso dos andaimes feitos com bambu e registrados pela artista). E a gambiarra também acaba fazendo parte da própria constituição da obra, pois o acúmulo, a disposição e o diálogo consistente entre os diversos materiais que a artista emprega, acabam manifestando esse dado, mais uma vez, do improviso, que penso ser o caráter de distinção e particularidade cultural que cada cidade constrói para si.

Concluo chamando a atenção para uma característica que integra ainda mais a obra de Gontijo ao comportamento da cidade: ela é instável, expansiva, nos leva a pensar a sua continuidade plástica para além dos limites da moldura, pois convoca a nossa imaginação a perceber que a obra está “se fazendo” a todo o tempo.

"Marcela Gontijo, New Territories"
Término em 22 de dezembro
Galeria Movimento, Rio de Janeiro
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